50 anos dos X-Men: qual a importância desses mutantes?

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No último dia 10 foram completados 50 anos desde a estreia, nos Estados Unidos, do primeiro número da revista em quadrinhos X-Men, pela editora Marvel.

Desde lá, muita coisa mudou, tanto no universo dos personagens criados por Stan Lee e Jack Kirby, quanto no universo paralelo ao deles, ou seja, o nosso mundo real.

Dizer que as histórias desses mutantes liderados pelo professor Xavier são mágicas, intensas, criativas, além de causarem discussões sobre o preconceito, disputa de classes, política, direitos humanos, viagem espacial, debate sobre a medicina e a ciência geral, a análise do mundo e seu contato com a natureza, tanto do homem quanto do meio-ambiente, acaba sendo desnecessário para quem acompanha essa HQ há muitos anos, mas requer fazer um retorno ao passado para perceber o quanto essa saga foi influente em diversos campos da cultura pop mundial.

Stan Lee e Jack Kirby
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As muitas figuras de linguagem coexistem em X-Men: A superequipe de heróis são uma metáfora para a adolescência e para os conflitos raciais do mundo. A imagem de que um adolescente está modificando-se como ser pensante é aflorada nas histórias de Wolverine e cia, e o preconceito que as pessoas diferentes sofrem por serem de outro lugar, por serem esquisitos ou por simplesmente serem mais inteligentes do que os outros, são superdimensionados pelos criadores da série.

Entender o contexto histórico dos EUA é importante para saber o motivo pelo qual os autores escolheram realizar essa gama de conflitos para serem discutidos num simples gibi para jovens. Naquele tempo, a América se encontrava num pandemônio com os protestos dos movimentos pelos direitos civis e na luta contra a segregação racial.

Treze dias antes do lançamento da revista, o pastor e ativista social negro Martin Luther King havia proferido o histórico discurso “I Have a Dream” (Eu tenho um sonho), em que pregava um país onde todos os cidadãos, independente de raça ou origem, pudessem conviver pacificamente nas mesmas condições. Será que você imaginou que a série, mais conhecida pelos meninos e meninas com menos de vinte anos, por causa dos filmes lançados desde 2000, seria tão profunda assim? Pois é, ela é, e há muitos ecos deste engajamento ao passar do tempo.

Martin Luther King
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Já no nº1 da revista, há a apresentação do telepata mutante Charles Xavier recrutando jovens a fim de treina-los com o intuito de usarem seus poderes na luta por seu grande “sonho”: um mundo onde os mutantes pudessem viver pacificamente em coabitação harmoniosa com os humanos. Na mesma história, também é introduzido Magneto, o vilão (que por vezes se aliará por um boa causa a Charles Xavier) que se apodera de uma base soviética de misseis.

Com o passar dos anos, X-Men foi discutindo com maior profundidade o conflito entre os humanos e os mutantes. Isto sempre serviu como metáfora e comparação para a luta das minorias, especialmente nos Estados Unidos. O racismo passou a ser apenas uma das análises do quadrinho, pois as histórias agora abordaram assuntos como o antissemitismo, diversidade sexual, fanatismo religioso e até mesmo o macarthismo e o anticomunismo.

Personagens de todos os cantos foram aparecendo: Tempestade, Jean Grey, Ciclope, Fera, Colossus, Dentes-de-Sabre, Emma Frost, Mystica, Lince Negra, entre um infinidade de outros, sempre trazem consigo uma história pregressa.

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A partir de 1970, a Marvel parou de produzir novas histórias, por conta do baixo apelo comercial que elas tinham, e apenas republicava as antigas, sem nem ter algum protesto pelo retorno das novas aventuras. Foi só com uma nova chance, quatro anos depois, que o grupo realmente entrou no caminho do sucesso.

A partir daí, com o auxílio de Chris Claremont (roteiro) e Jim Lee (desenho), a atividade sequencial dos personagens aguçou a simpatia dos leitores fazendo dessa revista uma novela em que o acompanhamento era necessário para entender seus desdobramentos. A inúmera fileira de sagas, criada a partir disso, reverberou o sucesso que hoje estes mutantes possuem e quadrinhos-solo dos personagens passaram a aparecer ano após ano.

HQ X-Men com colaboração de Jim Lee e Chris Claremont
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Além disso, a Marvel se tornou uma poderosa empresa ao recriar os personagens através de bonecos, com a criação de álbuns de figurinhas e com a venda dos direitos das histórias ao cinema, até que percebeu o quanto isso era lucrativo e criou sua própria produtora cinematográfica, a Marvel Filmes.

Isso é explicado, principalmente, pelo sucesso da saga no cinema. Os mutantes foram retratados na tela grande e conseguiram quebrar um tabu de fracassos da Marvel nas telonas e, assim sendo, iniciaram uma nova fase de megassucessos de filmes inspirados em heróis de quadrinhos – que serviram também como tábua de salvação para a crise criativa que afetava Hollywood naqueles dias.

Cena do Filme X-Men (2000)
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Portanto, antes de pensar que uma simples história em quadrinhos é tão simples assim, imagine o conglomerado de ideias, a gama de produtos lançados inspirados nesses mutantes, além da gigantesca máquina por trás deles, com os desenhistas, roteiristas, entre outros colaboradores do cinema, da editora, dos jogos de videogame e dos produtos licenciados, para dar uma opinião acerca deles.

Por fim, há milhões de bons leitores com pouco mais de trinta e cinco, quarenta, cinquenta anos, que deu uma passada d’olhos por essas histórias e se encantou tanto com os assuntos ali retratados que se aprofundou mais a respeito em outros livros específicos. Nesse sentido, a literatura agradece aos comandados do professor X por serem um ponto de partida para outras leituras.

E lembre-se: antes de proferir algo a respeito dos X-Men, pense sempre que haverá algum dos alunos da escola para mutantes lendo seus pensamentos.

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O Vampire Weekend quer bagunçar seus ouvidos. Você vai deixar?

Vampire Weekend

O Vampire Weekend se formou (literalmente) em 2006 e, desde então, ganhou notoriedade pela propaganda boca-a-boca dos blogs indies e dos bons shows que fez. Ah, seus álbuns também chamaram à atenção.

Algumas coisas são curiosas na banda. Quem ouve o som dos caras percebe um toque de música popular africana e uma pitada de música ocidental clássica, e já houve quem se apressasse a descrever seu gênero como “Upper West Side Soweto”. Ficou embasabacado com a descrição de seu ritmo? Então ouça a música “Cape Cod Kwassa Kwassa”.

Uma explicação interessante e simplória para entender esses trejeitos da banda é saber que todos são, atualmente, moradores da cosmopolita e multiétnica Nova Iorque.

Os membros da banda se conheceram enquanto frequentavam a universidade (Columbia University). Eles próprios produziram seu primeiro álbum depois de se formarem, no interim de suas atividades acadêmicas. Mas viver hoje numa cidade como NY faz com que os sons mais variados entrem por seus ouvidos e se alojem em sua cabeça fazendo com que a criatividade dê espaço para essa miscelânea de culturas vindas de todas as direções do globo.

O sucesso veio através das boas críticas da Rolling Stone americana (em 2007 considerou “Cape Cod Kwassa Kwassa” a 67ª melhor música do ano) e por meio de boas considerações da revista Spin ao final de 2008.

Como se pode perceber, o grupo foi galgando degraus na escada do mainstream aos pouquinhos. No meio deste ano, até foi cogitada para figurar entre as atrações do festival Planeta Terra, aqui em São Paulo, mas não vingou o burburinho. Quem sabe ano que vem eles não pintem por aqui?

Os membros da banda são Ezra Koenig (vocalista, guitarrista), Rostam Batmanglij (teclado, guitarra, 2ª voz), Chris Tomson (baterista) e Chris Baio (baixista) e têm dito sempre que possuem grande influência dos ingleses do The Clash. Isso acaba por favorecer ainda mais sua facilidade em captar ritmos múltiplos. A mistura entre o ska, a world music e o indie indecifrável passa a ser possível com esses músicos.

Agora, em 2013, eles lançaram “Modern Vampires in the City” e emplacaram o single “Step”. Acredito que a banda está se consolidando como opção aos indies e que já reverbera alguma influência sobre outras bandas que andam aparecendo na cena underground mundial.

Desta forma, espero que o Vampire Weekend continue viajando em suas letras e, principalmente, nas suas melodias desconexas com o mercado fonográfico atual. Dizer que a banda é boa ou ruim não é imprescindível (eu a considero uma banda ok). Mas é interessante ter uma novidade sonora como essa, até para que os produtores de shows e a indústria fonográfica tenham ideias melhores num mercado tão acostumado com a mesmice.

Step – Vampire Weekend

Resumão do dia: Novos de Pearl Jam, Beck e The Killers

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Começando pelo Pearl Jam: A banda de Eddie Vedder lança em outubro, dia 15, seu novo álbum. “Lightning Bolt” já chega com dois singles. O primeiro, “Mind Your Manners”, som pesadão e “Sirens”, baladinha longa (quase seis minutos) resgatando aquele som arrastado dos anos 90 que fez a fama do grupo de Seattle com o grande público.

Abaixo, “Mind Your Manners” – Pearl Jam

Segundo: O clássico dos indies, Beck, vem ao Planeta Terra em novembro e deve lançar coisa nova até o fim de dezembro. Pode até dar uma palhinha do possível álbum por aqui. Beck vem lançando músicas novas em pílulas nos últimos meses. Essa “Gimme” é a terceira que o cantor joga na internet para a gente cultuar. Não consegui disponibilizar o som aqui no blog, mas tentem no site do músico (beck.com). Por enquanto, ficamos com “I Won’t Be Long”, som eletrônico lançado há uns dois meses por ele.

I Won’t Be Long – Beck

Por último: The Killers anunciou, no início desta semana, o lançamento de uma coletânea intitulada “Direct Hits” (marcou para dia 11 de novembro o lançamento mundial). O grupo liderado por Brandon Flowers pretende colocar 18 faixas neste álbum, duas delas inéditas. Ontem, a banda liberou “Shot at the Night”. Até o fim de outubro sai o outro single inédito. Cara de caça-níquel? Quem disse?

Shot at the Night – The Killers (somente o áudio)

Nossa História Redescoberta

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A História brasileira não pôde ser revisitada por muitos anos, por conta da ditadura.

Por aproximadamente duas décadas, poucos foram os que ousaram desvendar alguma situação nova ou desmentir, uma cartilha que fosse, por causa do medo da ditadura (e de sua censura). Aqueles que o fizeram ou estavam exilados ou o faziam na clandestinidade.

Mas, devagar, a partir dos anos 90, muitos historiadores corajosos, impulsionados pela abertura da liberdade de expressão que a nova democracia trouxera, começaram a estudar mais nosso passado.

Nossa época colonial, principalmente, foi tema para inúmeras pesquisas e um sem-número de livros recontando nossa trajetória surgiu desde então.

Dessa leva de bons pesquisadores alguns se destacam, ou por serem polêmicos, ou por remarem contra a maré do que sempre se contou ou por simplesmente possuírem uma técnica de análise muito precisa e profunda dos meandros da história nacional.

Ajudaram nessa retomada da pesquisa sobre o nosso país, o interesse e a habilidade de brasilianistas estrangeiros como os ingleses Richard Bourne e Leslie Bethel, que já escreveram alguns livros sobre o tema, Kenneth Maxwell, autor do clássico livro “A Devassa da Devassa” (sobre a Inconfidência Mineira), além de especialistas em literatura brasileira, como a americana Helena Caldwell, autora do famoso livro “O Otelo Brasileiro” sobre a obra de Machado de Assis e o contexto histórico em que viveu.

A Devassa da Devassa (Kenneth Maxwell)
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Mais do que falarem sobre o Brasil, esses pesquisadores de fora acabaram por encorajar a abertura de um campo de pesquisa sobre o país e o interesse nesse tema aumentou a gama de profissionais da área dentro de nosso território. Nomes como José Carlos Reis, da UFMG, autor do estudo “Duas Versões sobre a formação do Brasil-Nação: Extrema-direita versus democrática radical”, a professora da USP Mary del Priore, com sua análise do papel da mulher no Brasil desde os tempos do Império e José Murilo de Carvalho, da UFRJ, que também é cientista político e grande pesquisador da democracia, são só alguns daqueles historiadores com extrema habilidade para falar sobre o Brasil.

Mary del Priore – Historiadora
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Além deles, podemos citar pessoas que trabalham em campos mais complexos como a biografia e ou documentários para a televisão e cinema. Nessa linha, Eduardo Bueno (que não é historiador de formação) ficou famoso por escrever sobre a época do descobrimento, e hoje é quase uma celebridade no meio, causando certa repulsa em alguns colegas. Inclusive, tem trabalhado em alguns projetos do canal de tv fechada “History Channel”.

Outro nome relevante é o de Lúcio de Castro que, por trabalhar no jornalismo de esporte, demorou para colocar as mangas de fora para falar sobre história nesse mesmo quesito. Aos poucos, nos lugares em que trabalha, iniciou pesquisas sobre o envolvimento de forças políticas ditatoriais no campo do esporte brasileiro e latino-americano. Chegou a ganhar prêmios, sendo o último (Prêmio Cinefoot) por uma série de programas chamada “Memórias do Chumbo – o futebol nos tempos do Condor”.

Lucio de Castro – Historiador e Jornalista
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Por último, não podia deixar de falar acerca de Laurentino Gomes, também famoso na atualidade por ter se metido num projeto grandioso que teve sua concretização no último mês com o lançamento literário de “1889”. Essa obra encerra uma trilogia que conta ainda com “1808” e “1822”. Os três livros (re)contam a história do nascimento do Brasil como nação desde a chegada da família real em 1808 até a derrocada do império e a ascensão da República em 1889. O que fascinou quem leu os três livros é a riqueza de detalhes em relação aos acontecimentos retratados durante todo o tempo. A precisão desses detalhes faz com que a pessoa imagine passo a passo como tudo aconteceu num país que ainda estava florescendo.

Laurentino Gomes e sua trilogia brasileira
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O destaque dado a estes historiadores relacionados neste texto não é para endeusa-los nem tampouco cravar a certeza sobre os seus trabalhos, mas, isso sim, demonstrar que através de suas obras muito ainda pode ser discutido e um debate mais profundo sobre nossas raízes pode ser mais bem conduzido. O país perdeu muito com um período cheio de incertezas, maculado pela censura da ditadura. O que esses personagens de nosso tempo agora estão realizando é um resgate do passado sem ter que passar pelo crivo de um general qualquer que não vai gostar de ter publicado em um livro que os fatos gloriosos tão aclamados por todos nas antigas cartilhas não foram bem assim que aconteceram.

Um Conto de Fadas Russo Feito por um Brasileiro

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“Nas gélidas montanhas da Rússia, a princesa Taya guarda um segredo em seu coração e acaba tendo que viver em companhia de uma bruxa chamada Baba Yaga e de seu intrometido corvo assistente. Na cabana, ela acaba encontrando um espelho encantado, que mais parece uma sala de bate-papo na Internet, que lhe dá forças e meios para lutar contra seu cruel destino. Taya e o espelho da Baba Yaga é uma história de encantamento e magia (…)”.

O trecho da sinopse apresentada pela livraria Saraiva para o livro “Taya e o Espelho de Baba Yaga” (Editora Abacate) promove uma viagem pela Rússia dos contos de fada e convida o leitor para fazer esse tour junto. Mas o mais interessante disso tudo é que a história da princesa do coração de gelo foi escrita por um brasileiro. Isso mesmo, um brasileiro se aprofundou nas pesquisas de histórias fantásticas do folclore russo e elaborou uma obra cheia de reviravoltas e com um final surpreendente.

Fábio Sombra é carioca da gema e não é marinheiro de primeira viagem. Ele acabou de participar da Bienal do Livro no Rio de Janeiro e tem na bagagem também uma participação na Flipinha (área destinada às crianças na FLIP). Sua bibliografia conta com os livros “No Reino do Vai não Vem”, “A Lenda do Violeiro Invejoso” e “Sete Histórias de Pescaria do seu Vivinho”, além de “Baba Yaga”, motivo de meu post.

O autor Fabio Sombra
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A diferença entre o que o autor escreve e a maioria dos livros infantis atuais é a capacidade de perceber que criança não é otária e que esta gosta de histórias bem elaboradas. Quando nos deparamos com qualquer prateleira de livros infantis numa livraria o que mais se nota é uma ótima diagramação e um trabalho ilustrativo fantástico, evidenciando-se ainda mais isso ao abri-lo com a percepção de que as linhas escritas são poucas e as imagens, inúmeras.

Se for para ler um livro desse caminhão de autores por aí a criança não demorará trinta minutos. Há quem diga que isso é importante para não dispersar a atenção dos meninos, mas será que no meio desse público não existe ninguém com gana por mais profundidade, ou para trocar em miúdos, mais história?

Fabio consegue captar essa necessidade da editoração infantil atual e busca nesse conto de fada aproximar seu público-alvo de uma prática que era tão normal nos tempos de Monteiro Lobato: contar uma boa história.

Claro que se busca uma interação da história com as imagens postas no livro, mas essas ilustrações não distraem a criança do objetivo principal: saber o que acontecerá com Taya, a princesa do conto.

Não li todas as obras do autor, mas é perceptível por aquelas que já li, que sua agilidade com a narrativa é bem densa e isso provoca expectativa nos pequenos, algo impossível com os livros cheios de imagens e poucas frases. O livro se torna descartável e se esquece de seu âmago em pouco tempo. Nesse sentido, e também na preocupação em escolher a narração de fatos acontecidos em campo tão estranho à criança brasileira (a distante Rússia), a obra se faz sutil e sabe acolher o leitor de forma a deixa-lo curioso a cada nova ação dos personagens.

Deste modo, Fábio Sombra (que possui o blog http://violeiro.blogspot.com.br/) pratica a boa escrita e a boa literatura, além de cativar um público tão subestimado quanto o infantil. Ponto para ele.

Porque não temos um programa como o Live Lounge?

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O Live Lounge é um programa de rádio da BBC inglesa que tem como principal meta trazer pocket-shows de artistas do atual cenário musical mundial. Originalmente era apresentado por Jo Whiley, mas agora é ciceroneado por Fearne Cotton.

Este programa acaba por ser um achado para ouvir as melhores bandas e os melhores artistas-solo efetuando suas exibições de forma despojada e intimista. A BBC mantém um site (http://www.bbc.co.uk/events/rnc5d4) no qual se pode visualizar os shows.

Após o grande sucesso que Live Lounge obteve junto aos seus ouvintes (e expectadores da internet) ele passou a ser transmitido também pela BBC Radio 1Xtra onde desde 2009 cabe a Trevor Nelson o seu comando.

Para se ter uma ideia, somente nessa última semana o set list do programa foi: Kings of Leon (10/09), Imagine Dragons (11/09), Naughty Boy (12/09) e Arctic Monkeys (13/09). Hoje a atração é Dan Croll e seu violão.

Arctic Monkeys
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É claro que o peso do nome da BBC acaba por seduzir qualquer ser humano do mundo artístico com o mínimo de consciência midiática a participar do programa, mas a organização britânica e a qualidade de equipamento oferecida pelo estúdio também devem favorecer o “sim” para tocar no Live Lounge. A pergunta que fica, afinal, é a seguinte: porque não temos uma atração assim aqui no Brasil? E a resposta é simples, direta e faz muito sentido. Pura preguiça!

Há muitos e muitos anos já não temos caras no mundo radiofônico tupiniquim com criatividade e coragem suficientes para montar um projeto desse porte.

Algo que se aproxima disso aqui no Brasil é o “Sala de Música” da CBN em que o apresentador João Carlos Santana recebe artistas da nova e da velha cena musical brasileira. Até parece se inspirar um pouco no show da BBC, mas lhe falta punch para promover ações maiores com um show inteiro do artista, por exemplo.

Sabe-se que há rádios com grande audiência e poderio econômico capazes de produzir uma atração assim, mas os produtores preferem seguir a rotina música-promoção-programas-especiais. Nunca há uma atividade ao vivo de um hora com uma banda ou um cantor-cantora.

Como já disse no post sobre o Rock in Rio, escrito quinta-feira, isso atrapalha os festivais, pois também ficam preguiçosos e não promovem novos talentos e a mesmice passa a imperar.

Quando se tem um programa como o Live Lounge pode-se realizar uma mistura, época a época, entre os artistas consagrados e aqueles que ainda vivem no underground musical da cena local. As rádios têm medo de arriscar por que a atual condição proporciona uma audiência acostumada com a rotina e isso acaba fidelizando o ouvinte, mas mesmo nessa gama de pessoas há aqueles (e são muitos, posso garantir) que estão ávidos por coisa nova, fresca que se diferencia do que toca por aí.

Kid Vinil, Tatola, alguns jornalistas como André Barcinski, Paulo Cesar Martins e Alvaro Pereira Junior (criadores do projeto “Garagem”) entre outros produtores musicais brasileiros, continuam por aí e algum deles poderia se dispor a executar tal plano audacioso.

Enquanto isso, não custa dar um play nos vídeos (completos) dos shows exibidos pela BBC no Live Lounge para se antenar com o mundo lá fora. Fica a dica.

“O Mundo de Sofia”: um livro para pensar

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O livro “O Mundo de Sofia” de Jostein Gaarder é um sucesso entre o público jovem.

Por que isso acontece?

Todo jovem tem perguntas infinitas sobre o mundo, a transcendentalidade, a respeito da vida, da morte, o que acontece depois, o que acontece antes, e não é por meio de explicações científicas ou através da religião pura e simples que esses seres se sentem aliviados e respondidos.

Há toda uma angustia no âmago de todo garoto e garota por não ter as respostas prontas e encaixadas de acordo com suas dúvidas. E isso cria tristeza, rebeldia e até mesmo depressão.

O livro de Gaarder não traz respostas, como era de ser esperar, mas discute bem toda essa complexidade que se torna a vida quando chegamos à adolescência. A obra dá ouvidos a essas perguntas que nós nos fazemos e metralhamos os mais velhas nessa época e propõe pensarmos sobre elas. Isso é o princípio da filosofia e explicar esse método de maneira tão sedutora é o grande mérito do autor.

O livro se transformou rapidamente em um clássico da história da filosofia, também, por mesclar ficção e dados históricos, tornando acessíveis ao leitor geral as catacumbas mais escuras da reflexão filosófica.

Jostein Gaarder, que é norueguês, depois de lecionar esta disciplina no nível secundário, ao longo de diversos anos, conseguiu captar aquilo que mais angustiava seus alunos e já ultrapassa a segunda década com sucesso de vendas no mundo inteiro.

Jostein Gaarder
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Outra coisa interessante na obra é sua capacidade de desenvolver uma história dentro da outra, desenrolando-se (ambas) paralelamente. As aparências entre um e outra história também chamam à atenção do leitor: as duas são igualmente protagonizadas por duas garotas que estão prestes a completar 15 anos, Sofia Amundsen e Hilde Moller Knag.

O mote da história tem princípio com Sofia recebendo cartas misteriosas, de um pretenso professor de filosofia, Alberto Knox, que assume a missão de lhe iniciar nos caminhos percorridos pela Filosofia ocidental desde seu nascimento até os dias atuais.

Este contato que se iniciou através das cartas, evolui para encontros inusitados. Este mestre utiliza recursos socráticos para tornar mais inteligíveis suas lições, explicitando os pensamentos mais densos e profundos para uma linguagem mais próxima da menina.

O Pensador (Rodin)
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A partir dessa relação professor-aluna é conhecida a pré-filosofia, passa-se pelos grandes autores da Idade Antiga, da Idade Média até o existencialismo e as diversas correntes filosóficas atuais. As inúmeras correntes filosóficas, desde os racionalistas, passando pelos empíricos, até os existencialistas, são tratados e até a psicanálise tem campo a ser discutido pelos dois personagens.

Para que se torne um livro filosófico de parâmetros mais abertos é promovida uma segunda história a partir dos postais misteriosos que a protagonista recebe, que são enviados do Líbano por um enigmático Major Albert Knag, pai de uma menina chamada Hilde. Sofia fica confusa, pois não entende por que recebe tais cartas no lugar da verdadeira destinatária. Seus questionamentos entrelaçam-se com os conhecimentos que vai adquirindo em seu curso de Filosofia, que a auxilia a desvendar este mistério.

O autor executa ao longo da história a aventura fantástica vivenciada por Sofia e seu professor, quase como se esboçasse uma relação mais intrínseca entre imaginação e realidade, ou (se preferir a explanação filosófica) Eros e Logos.

Imagens de alguns filósofos da história
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Pouco a pouco, as histórias vão se aproximando uma da outra, as vezes de forma sutil, outras mais explicitamente.

Gaarder também invoca o leitor a visualizar os cotidianos de Sofia e de Hilde, os quais apresentam entre si mais semelhanças do que diferenças. Ao mesmo tempo, a rotina das jovens vai sendo transformada à medida que uma vai tomando conhecimento da existência da outra. A partir deste momento, tudo pode acontecer, tudo se torna possível. E a filosofia vai nos explicar como tudo é possível.

O livro “O Mundo de Sofia”, portanto, é uma viagem através da história da filosofia, e mais do que isso, uma viagem por dentro do pensamento humano e de sua evolução em compreender a si mesmo e ao seu redor.

Filme inspirado na obra de Jostein Gaarder