Surreal: Quem não estuda ou trabalha em escola nem imagina como ela é

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O alerta foi feito pela Michele (minha noiva). Assisti à reportagem e fiquei embasbacado.

O programa “Hoje em Dia” da Record exibiu na última semana uma reportagem intitulada “Tecnologia: Com que idade as crianças devem ter tablets”. Inicialmente, parece ser apenas uma matéria sobre o mundo de hoje, mas a reportagem muda para o campo educacional.

Neste quesito, também poderia ser apreciado o tema, mas a falta de noção se inicia logo quando o apresentador (Celso Zuccateli) informa que o assunto acabou surgindo quando ele e outros apresentadores do programa falavam sobre a obrigatoriedade do uso do tablete na escola de um dos filhos deles. Como assim??? Estamos falando de que escola???

Parece ser óbvio de que se trata de uma escola particular, de alto padrão econômico, mas em nenhum momento da apresentação à matéria é explicado isso, parecendo ser a reportagem sobre uma situação corriqueira em qualquer lugar do Brasil. A escola solicita a todos os pais que comprem o aparelho para que as crianças tenham uma educação mais tecnológica.

Como eu disse antes, parece óbvio, mas quem assiste à reportagem fica com a impressão de que isso pode ser realizado a qualquer momento, em qualquer confim do país.

Isso só prova uma coisa importante: quem não é profissional de educação na escola pública ou não é aluno dela nem imagina como seja uma escola gerida pelo governo.

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É claro que qualquer professor com o mínimo de consciência tecnológica amaria trabalhar com equipamentos tecnológicos em qualquer aula.

O fascínio gerado por essas maquininhas nos alunos é muito grande e bastaria o docente ter um plano de aula condizente com a utilização do equipamento para que ele funcionasse bem durante a aula.

Mas o problema passa por outras situações muito antes de chegar nesse ponto.

É muito difícil trabalhar numa escola e quando isso acontece numa unidade pública a coisa se intensifica. Os percalços são muitos: alunos advindos de famílias desestruturadas, prédios sucateados, falta de estrutura física e pedagógica, violência física e moral de toda parte, drogas, etc etc etc.

O governo adora inaugurar novas escolas, mas o apoio acaba por aí. Faz mais de dois anos que o governo municipal de São Paulo informou que todos os professores teriam um tablet para trabalhar em sala de aula. Faz um tempo, quando eu trabalhava em Guarulhos, o secretário da Educação de lá garantiu, em um congresso com os mestres, que todas as salas de aula da cidade teriam um aparelho de Datashow. Os exemplos são muitos e gigantescos.

Mas não há como você tentar vender a ideia de uma educação digital maravilhosa, proporcionada por um tablet, sem que se grife bem grifado que isso só seria possível se estivermos falando de escolas particulares de alto padrão. Nem todos têm estrutura para isso, e há pais que desembolsam uma dinheirama para colocar os filhos nessas instituições sem que tivessem condições de manter outras regalias às suas famílias.

Numa matéria como esta da Record falta o serviço de utilidade, a ressalva de se explicar que isso seria ideal (o uso obrigatório de tablets) para qualquer aluno do mundo, mas que, seja no público ou no privado, isso teria de vir acompanhado de um preparo por trás.

O aluno deve ter estrutura psicológica, a criança necessita de apoio dos pais, o menino e a menina precisam de ser acompanhados em seus estudos e na evolução deles por um processo ético e moral desenvolvido e estruturado pelo governo.

Não adiantaria, mesmo assim, que se desse a oportunidade do uso dos tablets numa escola pública, se ainda houver problema com a maçaneta da porta de uma escola inaugurada há menos de dois meses. Não teria dificuldade nenhuma em se ter o uso do tablet se também tivermos um cuidado com a segurança do aluno e do professor. Seria fantástico usar essa informática toda se houver a gratificação merecida ao docente, um salário digno ao profissional de Educação que tem de mendigar um aumento mixuruca e ouvir do prefeito uma série de promessas sem que nunca as cumpra.

Por fim, uma escola informatizada é o sonho de todos, mas não há pais e mães suficientes dentro da mesma escola para saber o que acontece com seu filho, com a sua educação, com o seu ensino-aprendizagem, com a sua rotina fora de casa.

O que há, sim, é um monte de famílias que joga o filho num deposito de crianças e adolescentes e que visualiza o professor como um cuidador, pronto a resolver todos os problemas e frustrações desses meninos.

Uma escola em que crianças com dificuldades e crianças com altos índices de aprendizagem são postas lado a lado com a desculpa de uma inclusão social, que nunca é possível pela falta de estrutura anteriormente comentada aqui, não merece ter tablets para serem usados sem que os problemas sejam resolvidos.

Os professores que sejam valorizados e que os alunos sejam tratados corretamente por pais, governos e por seus respectivos responsáveis. E que o uso dos tablets seja a cereja do bolo numa educação de verdade, tratada com respeito para que todos sejam atingidos e que as pessoas não precisem correr para o ensino particular para solicitar um serviço de qualidade já que no quesito profissional isso também não falta na escola pública. E que essa informatização seja garantida pelo governo dando o equipamento de informática (tablets inclusos), serviço de internet decente e suporte técnico de prontidão (coisas que não existem hoje). E que tudo isso venha acompanhado do reconhecimento financeiro, profissional e social do professor, aquele que trabalha para que tudo isso seja possível e se torne real.

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