Poema é coisa de gente fresca?

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Primeiro, sanemos uma dúvida recorrente: Poesia é qualquer coisa na qual se veja beleza. Daí a expressão de que tal paisagem é poética ou de que um filme tem poesia; Poema é um texto constituído de versos e estrofes que possui poesia, ou seja, beleza.

Feito isto, o que se pergunta no título do post é muito comum por todo mundo que se depara com um poema. Mais do que isso, o indivíduo que não tem contato com poemas normalmente acredita ser o poema algo usado apenas por gente apaixonada. Vejamos um exemplo do contrário:

Psicologia de um vencido (Augusto dos Anjos)

Eu, filho do carbono e do amoníaco,
Monstro de escuridão e rutilância,
Sofro, desde a epigênesis da infância,
A influência má dos signos do zodíaco.

Profundíssimamente hipocondríaco,
Este ambiente me causa repugnância…
Sobe-me à boca uma ânsia análoga à ânsia
Que se escapa da boca de um cardíaco.

Já o verme — este operário das ruínas —
Que o sangue podre das carnificinas
Come, e à vida em geral declara guerra,

Anda a espreitar meus olhos para roê-los,
E há-de deixar-me apenas os cabelos,
Na frialdade inorgânica da terra!

Ora, se o texto de Augusto dos Anjos é rebuscado e bem escrito, também é tradicional já que se trata de um soneto. Porém, não podemos dizer que falamos de uma redação realizada por alguém que quer impressionar outrem por suas palavras apaixonadas. É um poema duro, forte, feito para incomodar e promover repugnância. Faz parte do discurso de um eu-lírico desesperado, introspectivo, “vencido”, como bem diz o título.

O Poeta Augusto dos Anjos
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O que sempre se diz de um poema é que ele precisa utilizar palavras difíceis, expressões cultas. Vejamos algo que não é bem assim:

Cidadezinha Qualquer (Carlos Drummond de Andrade)

Casas entre bananeiras
mulheres entre laranjeiras
pomar amor cantar.

Um homem vai devagar.
Um cachorro vai devagar.
Um burro vai devagar.
Devagar… as janelas olham.

Eta vida besta, meu Deus.

Carlos Drummond de Andrade
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O poema provocador de Carlos Drummond de Andrade utiliza apenas o tom coloquial para falar de uma situação comum nas cidades pequenas brasileiras. Além de usar esses termos mais comuns também faz parte da tendência do autor se valer de um processo normal a outros poetas, o texto crítico. Vejamos outro poema da mesma estirpe:

O Açúcar (Ferreira Gullar)

O branco açúcar que adoçará meu café
nesta manhã de Ipanema
não foi produzido por mim
nem surgiu dentro do açucareiro por milagre.

Vejo-o puro
e afável ao paladar
como beijo de moça, água
na pele, flor
que se dissolve na boca. Mas este açúcar
não foi feito por mim.

Este açúcar veio
da mercearia da esquina e tampouco o fez o Oliveira, dono da mercearia.
Este açúcar veio
de uma usina de açúcar em Pernambuco
ou no Estado do Rio
e tampouco o fez o dono da usina.

Este açúcar era cana
e veio dos canaviais extensos
que não nascem por acaso
no regaço do vale.

Em lugares distantes, onde não há hospital
nem escola,
homens que não sabem ler e morrem de fome
aos 27 anos
plantaram e colheram a cana
que viraria açúcar.

Em usinas escuras,
homens de vida amarga
e dura
produziram este açúcar
branco e puro
com que adoço meu café esta manhã em Ipanema

Vê-se neste texto de Gullar a verve crítica sendo importante no enredo que parece apenas falar sobre o produto que auxilia as pessoas a adocicar os alimentos, mas que se vale disso para fazer uma crítica social, até política das condições de trabalho do povo no Brasil.

Ferreira Gullar
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Há muito mais no texto poético, há muito por ver em poemas daqui e de fora do país. São inúmeros os casos de gente criativa, de pessoas que utilizam a palavra para falar de modo firme, bonito e ousado das coisas da vida, das situações do mundo e de fora dele e, por que não, das coisas do coração.

Portanto, o poema é um tipo de texto que se utiliza da palavra para fazer arte, é uma redação realizada para que seja impactante, para que se pare para ouvir, para que não fique apenas no papel aquele amontoado de letras, mas que ele viaje junto com quem as executou e quem os lê.

Nas próximas semanas falaremos bastante sobre isso, até por que a ideia do blog e da sala de leitura é que tenhamos um sarau ao término das atividades sobre o poema para fecharmos com chave de ouro esse assunto.

Abaixo, exponho mais alguns poemas. O tema das impurezas do corpo é o mesmo em ambos os vídeos, mas a forma como são usados é que altera:

Antônio Abujamra recitando poema de Viviane Mosé

Titãs (O Pulso)

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Um comentário em “Poema é coisa de gente fresca?

  1. {Beautiful handmade Dining Room Chairs

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