Vê-se poesia em tudo… Até no nada!

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Quando falamos dias atrás sobre a diferença entre poesia e poema a ideia era transmitir a variedade na narrativa atingida pelo texto poético.

Ao fazer uma análise mais profunda sobre a produção de poemas aqui e lá fora, tanto no presente quanto no passado o que podemos indicar com certeza é que o assunto para confeccionar um poema pode ser qualquer coisa. Sem exceção.

Fala-se sobre o amor, sobre os seus problemas, acerca da vida e da morte, pede-se ajuda por meio das palavras, permeia-se o indizível, solicita-se o inimaginável… Tudo e nada se dissolvem e se ilimitam por meio de versos e estrofes infinitamente.

Veja dois exemplos abaixo:

Possibilidades (Wislawa Szymborska)

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Prefiro filmes.
Prefiro gatos.
Prefiro os carvalhos ao longo de Warta.
Prefiro Dickens a Dostoievsky.
Prefiro-me gostando de indivíduos
a mim mesma amando a humanidade.
Prefiro manter uma agulha e linha à mão, em caso de precisão.
Prefiro a cor verde.
Prefiro não suster
que a razão é a culpada de tudo.
Prefiro exceções.
Prefiro sair mais cedo.
Prefiro falar com os médicos sobre outra coisa.
Prefiro as antigas bem alinhadas ilustrações.
Prefiro o absurdo de escrever poemas
ao absurdo de não escrever poemas.
Prefiro, quando o amor diz respeito, aniversários inespecíficos
que podem ser comemorados todos os dias.
Prefiro moralistas
que me prometem nada.
Prefiro bondade astuta ao tipo super confiante.
Prefiro a terra à paisana.
Prefiro conquistados a países conquistadores.
Prefiro ter algumas reservas.
Prefiro o inferno do caos ao inferno da ordem.
Prefiro os contos de fadas dos Grimms às primeiras páginas dos jornais.
Prefiro as folhas sem flores às flores sem folhas.
Prefiro cães com caudas descortadas.
Prefiro os olhos claros, uma vez que os meus são escuros.
Prefiro gavetas.
Prefiro muitas coisas que não mencionei aqui
a muitas coisas que também deixei não ditas.
Prefiro os zeros à solta
àqueles alinhados atrás de uma cifra.
Prefiro o tempo de insetos ao tempo de estrelas.
Prefiro bater na madeira.
Prefiro não perguntar quanto tempo e quando.
Eu prefiro manter em mente a possibilidade
de que a existência tem sua própria razão de ser.

Tabacaria (Álvaro de Campos)

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Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é
(E se soubessem quem é, o que saberiam?),
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
Com a morte a por umidade nas paredes e cabelos brancos nos homens,
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.

Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
E não tivesse mais irmandade com as coisas
Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
De dentro da minha cabeça,
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.

Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu.
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.

Falhei em tudo.
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
A aprendizagem que me deram,
Desci dela pela janela das traseiras da casa.
Fui até ao campo com grandes propósitos.
Mas lá encontrei só ervas e árvores,
E quando havia gente era igual à outra.
Saio da janela, sento-me numa cadeira. Em que hei de pensar?

Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?
Ser o que penso? Mas penso tanta coisa!
E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!
Gênio? Neste momento
Cem mil cérebros se concebem em sonho gênios como eu,
E a história não marcará, quem sabe?, nem um,
Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.
Não, não creio em mim.
Em todos os manicômios há doidos malucos com tantas certezas!
Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?
Não, nem em mim…
Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo
Não estão nesta hora gênios-para-si-mesmos sonhando?
Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas –
Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas -,
E quem sabe se realizáveis,
Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente?
O mundo é para quem nasce para o conquistar
E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.
Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez.
Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo,
Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.
Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,
Ainda que não more nela;
Serei sempre o que não nasceu para isso;
Serei sempre só o que tinha qualidades;
Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta,
E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira,
E ouviu a voz de Deus num poço tapado.
Crer em mim? Não, nem em nada.
Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardente
O seu sol, a sua chava, o vento que me acha o cabelo,
E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha.
Escravos cardíacos das estrelas,
Conquistamos todo o mundo antes de nos levantar da cama;
Mas acordamos e ele é opaco,
Levantamo-nos e ele é alheio,
Saímos de casa e ele é a terra inteira,
Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido.

(Come chocolates, pequena;
Come chocolates!
Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
Come, pequena suja, come!
Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!
Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folha de estanho,
Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.)

Mas ao menos fica da amargura do que nunca serei
A caligrafia rápida destes versos,
Pórtico partido para o Impossível.
Mas ao menos consagro a mim mesmo um desprezo sem lágrimas,
Nobre ao menos no gesto largo com que atiro
A roupa suja que sou, em rol, pra o decurso das coisas,
E fico em casa sem camisa.

Tu que consolas, que não existes e por isso consolas,
Ou deusa grega, concebida como estátua que fosse viva,
Ou patrícia romana, impossivelmente nobre e nefasta,
Ou princesa de trovadores, gentilíssima e colorida,
Ou marquesa do século dezoito, decotada e longínqua,
Ou cocote célebre do tempo dos nossos pais,
Ou não sei quê moderno – não concebo bem o quê –
Tudo isso, seja o que for, que sejas, se pode inspirar que inspire!
Meu coração é um balde despejado.
Como os que invocam espíritos invocam espíritos invoco
A mim mesmo e não encontro nada.
Chego à janela e vejo a rua com uma nitidez absoluta.
Vejo as lojas, vejo os passeios, vejo os carros que passam,
Vejo os entes vivos vestidos que se cruzam,
Vejo os cães que também existem,
E tudo isto me pesa como uma condenação ao degredo,
E tudo isto é estrangeiro, como tudo.)

Vivi, estudei, amei e até cri,
E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu.
Olho a cada um os andrajos e as chagas e a mentira,
E penso: talvez nunca vivesses nem estudasses nem amasses nem cresses
(Porque é possível fazer a realidade de tudo isso sem fazer nada disso);
Talvez tenhas existido apenas, como um lagarto a quem cortam o rabo
E que é rabo para aquém do lagarto remexidamente

Fiz de mim o que não soube
E o que podia fazer de mim não o fiz.
O dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho,
Já tinha envelhecido.
Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.
Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
Como um cão tolerado pela gerência
Por ser inofensivo
E vou escrever esta história para provar que sou sublime.

Essência musical dos meus versos inúteis,
Quem me dera encontrar-me como coisa que eu fizesse,
E não ficasse sempre defronte da Tabacaria de defronte,
Calcando aos pés a consciência de estar existindo,
Como um tapete em que um bêbado tropeça
Ou um capacho que os ciganos roubaram e não valia nada.

Mas o Dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta.
Olho-o com o deconforto da cabeça mal voltada
E com o desconforto da alma mal-entendendo.
Ele morrerá e eu morrerei.
Ele deixará a tabuleta, eu deixarei os versos.
A certa altura morrerá a tabuleta também, os versos também.
Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta,
E a língua em que foram escritos os versos.
Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu.
Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente
Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como tabuletas,

Sempre uma coisa defronte da outra,
Sempre uma coisa tão inútil como a outra,
Sempre o impossível tão estúpido como o real,
Sempre o mistério do fundo tão certo como o sono de mistério da superfície,
Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra.

Mas um homem entrou na Tabacaria (para comprar tabaco?)
E a realidade plausível cai de repente em cima de mim.
Semiergo-me enérgico, convencido, humano,
E vou tencionar escrever estes versos em que digo o contrário.

Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los
E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos.
Sigo o fumo como uma rota própria,
E gozo, num momento sensitivo e competente,
A libertação de todas as especulações
E a consciência de que a metafísica é uma consequência de estar mal disposto.

Depois deito-me para trás na cadeira
E continuo fumando.
Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando.

(Se eu casasse com a filha da minha lavadeira
Talvez fosse feliz.)
Visto isto, levanto-me da cadeira. Vou à janela.
O homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das calças?).
Ah, conheço-o; é o Esteves sem metafísica.
(O Dono da Tabacaria chegou à porta.)
Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me.
Acenou-me adeus, gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universo
Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o Dono da Tabacaria sorriu.

Vê-se em ambas os poemas um discurso parecido. Fala-se sobre o nada, ou melhor, sobre a rotina, as coisas pueris da vida, as coisas que não são perceptíveis na maioria das vezes e que dilui na correria do dia-a-dia.

A ideia que vai se construindo ao longo dos dois textos é que tais situações podem ser indicativas de uma falta do fazer para alguns e da perspicácia de outros, mais atentos.

A vida se esvai entre os dedos, ou até, entre as palavras, de maneira que há sofrimento na forma como são contadas coisas que seriam menos importantes para os menos avisados.

Outro exemplo de texto feito a esmo, mas que fala muito:

Nada mais importa (James Hetfield)

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Tão perto, não importa o quão distante
Não poderia ser muito mais do coração
Eternamente confiando em quem somos
E nada mais importa

Nunca me abri deste jeito
A vida é nossa, nós a vivemos da nossa maneira
Todas estas palavras eu não apenas digo
E nada mais importa

Confiança eu procuro e eu encontro em você
Cada dia para nós é algo novo
Abra a mente para uma visão diferente
E nada mais importa

Nunca me importei com o que eles fazem
Nunca me importei com o que eles sabem
Mas eu sei

Tão perto, não importa o quão distante
Não poderia ser muito mais do coração
Eternamente confiando em quem somos
E nada mais importa

Nunca me importei com o que eles fazem
Nunca me importei com o que eles sabem
Mas eu sei

Nunca me abri deste jeito
A vida é nossa, nós a vivemos da nossa maneira
Todas estas palavras eu não apenas digo
E nada mais importa

Confiança eu procuro e eu encontro em você
Cada dia para nós é algo novo
Abra a mente para uma visão diferente
E nada mais importa

Nunca me importei com o que eles dizem
Nunca me importei com os jogos que eles jogam
Nunca me importei com o que eles fazem
Nunca me importei com o que eles sabem
E eu sei

Tão perto, não importa o quão distante
Não poderia ser muito mais do coração
Eternamente confiando em quem somos
E nada mais importa

No texto acima, há dois elementos que dificultam a compreensão: primeiro, é um texto que foi traduzido de outra língua, daí a questão de nem sempre ter a definitiva ideia de queria ser passada no idioma original para uma outra forma de falar, outra cultura, outro modo de ver as coisas; em segundo lugar, é um texto complexo que procura não falar sobre nada ao falar de tudo, ou vice-versa, se assim o preferir.

O que quero dizer é que se trata o poema de um texto que não necessita de uma narrativa com começo, meio e fim, mas o sentimento que envolve o emaranhado de palavras realizado em versos serve para tocar os sentidos do ouvinte/leitor de maneira diferenciada de acordo com o momento, o lugar, o temperamento. É um texto para ser analisado individualmente e isso o torna rico, variável.

Veja abaixo, o texto “Nada mais importa” em seu idioma original e musicado pela banda que o compôs, o Metallica:

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2 comentários em “Vê-se poesia em tudo… Até no nada!

  1. TORONTO Toronto Mayor Rob Ford threatened Thursday to take legal action against former aides who spoke to police about their concerns about his drug use, and he denied making sexual advances toward a female staffer.Ford was reacting to details in newly released court documents that revealed more allegations of his bad behavior from drunken driving to verbal abuse, ramping up a political storm that has consumed Toronto for months.Outraged City Councilors — who voted overwhelmingly Wednesday to call on Ford to take a leave of absence — turned their backs on the mayor as he addressed the council later Thursday. Ford has resisted mounting pressure to resign since admitting last week to smoking crack.Speaking to reporters before addressing the council, Ford used coarse language to deny he once told a female staffer he wanted to have oral sex with her. The choice of words — made on live television — drew gasps from shocked reporter.“I’ve never said that in my life to her, I would never do that,” Ford said.The father of two school-age children said is “happily married” and used more crude language saying he gets enough satisfaction at home.The court documents released Thursday are part of a drug case against Ford’s friend and occasional driver. Police interviews with Ford’s ex-staffers revealed their concerns about his drug use and drunk driving, with one staffer alleging he saw Ford “impaired, driving very fast,” and frightening a female staffer who was in the car with him.In another incident, Ford was described by a former staff member as being “very inebriated, verbally abusive and inappropriate with” a female staff member on St. Patrick’s Day. Another former staffer reported seeing the mayor drunk in his office about 15 to 20 times in the year he worked for him.Ford acknowledged that he might have consumed alcohol while driving.But he said he would take legal action against his former chief of staff, Mark Towhey and two other aides over their interviews with police. Ford did not specify what the aides might have said that was untrue. He did say he would take action against a waiter who said he believed Ford and a woman were snorting cocaine in a private room at a restaurant.(Page 2 of 2)“I have to take legal action against the waiter who said I was doing lines,” he said. “Outright lies, that is not true.”Later, nearly half of Toronto’s 44-member City Council turned their backs as the mayor, wearing a Toronto Argonauts football jersey and cowboy boots, spoke about routine city affairs.The Toronto Argonauts football team took issue with Ford wearing the team jersey.“These latest remarks, while wearing our team’s jersey, are particularly disappointing,” the team said in a statementnzil Minnan-Wong, a former Ford ally, is now calling on the mayor to resign in light of the latest court documents and comments.“This is beyond a leave of absence. He needs to resign,” said councilor Denzil Minnan-Wong. “This mayor thinks he is above the law, he is not.”Councilor Giorgio Mammoliti, a Ford ally, said if Ford doesn’t agree to go for treatment by the end of the day he’s lost his supportputy Mayor Norm Kelly, also a Ford ally, said he’s increasingly sad that “Canada’s biggest and most important city had been reduced to that squalid context.” Page Previous 1 2 Next
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  2. Hi! I was interested to know if setting up a web site such your own: %BLOGURL% is difficult to do for unskilled people? I have been wanting to create my own website for a while now but have been turned off mainly because I’ve always believed it required tons of work. What do you think? Bless you

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