Pussy Riot na mira do Oscar

Pussy Riot

O caso envolvendo as meninas do Pussy Riot ainda vai dar muito o que falar, inclusive no cinema.

O Vencedor do prêmio especial do júri no Festival de Sundance, “Pussy Riot: A Punk Prayer”, de Mike Lerner e Maxim Pozdorovkin, retrata o processo que autoridades russas moveram contra o grupo punk Pussy Riot, após a banda fazer uma performance numa catedral de Moscou. Na última rodada de votação para escolher os quinze pré-selecionados, antes de promover os cinco finalistas, a obra que conta a história por trás da prisão das meninas punks russas conseguiu galgar mais um degrau rumo à maior premiação do cinema mundial.

Os fatos que desencadeiam o que é dissecado no filme foram apenas um ápice para o trabalho das integrantes do grupo que já vinham mostrando uma atividade que, basicamente, expunha o que elas consideravam ser hipocrisias políticas, sociais e culturais que mantinham os cidadãos russos aprisionadas em padrões conformistas de comportamento, por meio de canções que explicitavam a Rússia de hoje.

Essas ações que eram realizadas em locais públicos tinham a ideia de demonstrar uma rebelião cultural e através de um ativismo meio anormal nos últimos anos da Rússia, elas foram criando certa fama e repúdio da classe mais conservadora do país.

Pois bem, num belo dia, elas cobriram seus rostos com um pano, cantaram suas letras destinadas a ironizar (ou iluminar) o público tradicionalista e, sendo assim, comportaram-se de forma provocativa.

Tudo isso fazia parte de uma expressão artística, exercitando o que elas (e qualquer pessoa em sã consciência) chamaria de liberdade de expressão. Como em qualquer atividade cultural a escolha da audiência fica a cargo do ouvinte, do espectador, do leitor. A liberdade de escolha é um bem inalienável em qualquer regime democrático (ou não). Mas não foi bem isso o que aconteceu na cidade moscovita naquela tarde.

O fato da Pussy Riot ter escolhido a frente da catedral de Moscou de Cristo Salvador, usando o santuário sagrado como uma plataforma a partir da qual poderia chamar a atenção para a relação simbiótica entre o presidente russo, Vladimir Putin, e da hierarquia da Igreja Ortodoxa Russa – uma relação, aliás, que de alguma forma, na opinião delas, vem reconstruindo uma crença ortodoxa russa tradicional e ritos para servirem de ópio das massas, um panes et circenses moderno, foi a gota d’água.

O desempenho, na verdade, não durou muito. Tão logo começaram a tocar as meninas foram arrastadas do palco, presas e levadas para a cadeia.

O documentário de Mike Lerner e Maxim Pozdorovkin percorre tudo o que vem a seguir: o processo, a comoção internacional, o ativismo em torno das ações das meninas, o julgamento arbitrário e a participação de Vladimir Putin na desconstrução da imagem das integrantes do grupo, Nadia, Masha e Katia.

Há depoimentos das próprias meninas e cenas do julgamento com suas falas na íntegra. Também é mostrado o veredicto e a ação das pessoas nas ruas protestando, ou seja, fazendo o mesmo que as levou a serem presas e enfrentarem um processo como se fossem criminosas perigosas.

Nesse sentido fica claro o motivo de suas prisões. Num momento em que os mensaleiros brasileiros bradam contra uma suposta prisão política por aqui dá para entender bem a diferença que há numa ação ditatorial e repressiva ao visualizar o transcorrer do caso envolvendo as meninas do Pussy Riot. Mas o que mais me intriga é saber que a sentença final foi impetrada por uma mulher, sem levar em conta os direitos que estavam sendo infringidos com esse ato.

Como se sabe, Nadia e Masha prosseguem presas cumprindo pena de dois anos e Katia foi solta por ter sido indiciada em delitos menores.

É claro que o filme é político e pode até ser chamado de engajado, mas não se pode negar que somente a história em si já vale ser contada, independente do juízo de valor que se faça.

Portanto, faz sentido assisti-lo, mesmo que o espectador não seja a favor do que as meninas fizeram. O problema maior está no que vem depois, a privação de direitos e arbitrariedade com que todo o caso é conduzido.

Não sei se os votantes do Oscar teriam coragem de eleger um documentário que confronta as ações de um país tão poderoso militarmente como a Rússia e fariam desencadear uma onda de ativismo de artistas de Hollywood engajados com a causa de Nadia e companhia, em contrapartida aos protestos da massa manipulada na Rússia, mas somente o fato de ser indicado (o resultado sobre os cinco finalistas indicados sai em breve) já seria um burburinho do qual nem Putin esperava, nem as meninas que ainda continuam presas, privadas de seus direitos civis, poderiam imaginar ser possível.

Como é mostrado num cartaz escrito por Nadia, de dentro da prisão, “I don’t want to be in prison for my beliefs, but i have to” (“Eu não quero estar na prisão, mas eu tenho que estar”). Na verdade, “tem que estar” por um capricho de um presidente que figurará no cargo até 2024. Haja luta!

Trailer do Filme

Obs: Eu assisti ao filme completo no Youtube. Quem quiser conferir o documentário, em inglês, basta acessar abaixo:

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