Morte

Morte

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O que é a morte
Senão um membro que sangra e gangrena
Ou a lagarta que silencia em favor da beleza.

O que chamamos de fim
Pode ser o começo para outro;
Pode modificar o caráter,
Formar nova casca, novo invólucro.

O que faz a morte,
Além do término da dor?

Uma relação rompida,
Uma amizade não mais colorida.
O pôr-do-sol convincente
E o luar espremido entre as nuvens.

A última gota de chuva sobre a folha no chão.

Como é a morte
Não mais vivida
Não mais paixão?

O buquê de flores depois de uma semana
Ou o gole derradeiro da boemia.
Ciclo encerrado, carta marcada descoberta
E a manhã que transformou-se em tarde vazia.

Onde é a morte?
Acima do hedonismo?

É o fora de série provando ser normal.
É o primeiro ato depois do prazer;
É descobrir que dentro agora está por fora.
O alcance do cume
E a descida depois do dever cumprido.

Quem é então essa senhora?
Severa,
Severina.

É o porém lembrado depois da frase,
É a fase, é o meio impossível de agir.
Uma reticência sem prosseguimento;
O raso, o pleno.
Os ovos no seu frigir.

Pode ser uma sustentação ao nada,
Ou uma falha incorrigível.
Ser supremo de vida inútil
Bola na trave, nave ancorada.
O último aviso

Termo
Fim
Destruição
Ruína

O morro, a mortalha, a mortal piscadela;
O sinistro, a vingança, a velha, a velha…

O que é a morte então?
Não se sabe, não se viu.

O suspiro, ou depois disso,
A luz ao fim de tudo,
O nada ao fim da luz.
Pureza, deserto, lúrido; o inverso.
Tudo isso reunido

Qual morte é verdadeira?
Qual morte que te leva?
É a cena mais absurda
É a surda ação que não adianta,
O adiante, ou uma simples urna.

Força descomunal
Morte sem sentido
Doce veneno engolido
Citação antiquada
É o vinho, é o vinho…

O que é então a morte?
Sumiço
Soluço
Profundo
Abismo?

Não é a morte vital?
É o corte no vidro
A adolescência perdida
A inocência perdida
O método como finalidade
A pluma caindo,
É a vida, é a vida…

É a não mais virgem
A morte do pudor?
É o fato singelo
É o ódio, é o amor.

O que a morte então traz?
Traz desgosto
Traz evolução
Faz do simplório a revolução contida,
Contempla o fosso
Extirpa a vida.

A morte revive?
Ela salda a dívida,
Saúda o passado,
Força o presente,
Extingue o porvir;
É a fala do não falado.

A morte envelhece?
Ela situa você na história
Mata a sede do condenado
Expõe a fome inglória

Sugere o fim funesto
Apaga o fogo do acalento
Destrói o que seguia em cabresto
Enfim, a morte é o morrer lento, lento.

Dhiancarlo Miranda

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2 comentários em “Morte

  1. Karina disse:

    Oh My Globs, professor! Você escreve poesias? *—*
    A segunda estrofe… sem palavras.
    “O que chamamos de fim
    Pode ser o começo para outro;
    Pode modificar o caráter,
    Formar nova casca, novo invólucro.”
    Aguardando ansiosamente a próxima.

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