Alice Munro e as armadilhas de se ter a chancela do Nobel

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A canadense Alice Munro venceu o Nobel de Literatura em 2013. Isso muda muita coisa, muito mesmo.

Ganha em prestígio, alavanca vendas, promove um ar de superior ao vencedor do prêmio.

Não sei se este “Vida Querida” (Companhia das Letras) já estava totalmente escrito quando Alice foi nomeada ao prêmio (é uma coletânea de contos, portanto podiam estar guardados numa gavetinha), mas uma coisa é certa: quando você tem essa promoção na carreira tudo fica mais difícil de soar diferente.

Muita gente vai dizer que esse novo livro da escritora é mais do mesmo, não possui muita inspiração ou é preguiçoso. E acredito que todas as análises estão corretas.

Mas há um outro componente que envolve essa questão do Nobel de Literatura. Quando a pessoa é laureada com tal simbologia fica difícil de encaixar sua obra de maneira mais independente, isenta.

Aqueles que já a liam terão dificuldade de não promover uma ruptura entre o que acontecera antes e o que vem depois. Quem nunca a leu ficará numa encruzilhada: se começar por ler sua obra posterior ao prêmio não terá parâmetro para avaliar o real significado de sua bibliografia, mas se iniciar a leitura desde os primórdios de sua carreira já estará viciada pela etiqueta onde está escrito “Vencedora do Nobel 2013”.

Neste “Vida Querida” a própria sinopse fornecida pela Companhia das Letras nos deixa algumas questões confusas: “Os contos de “Vida Querida” são ricos como romances – com personagens, tramas e vozes desenvolvidas em toda sua potencialidade -, mas, precisos como pede a tradição do gênero, prescindem de qualquer elemento que não seja essencial.”

Capa do Livro
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Nesse sentido, incomoda um pouco a prolixidade que é desenvolvida em alguns momentos, já que o conto deveria ser mais enxuto, mais coeso. Mas aí alguém pode dizer que Machado de Assis fazia isso com o conto, Guimarães Rosa também, mas chego ao ponto de dizer que eles transcendiam essa nomenclatura, mesmo assim se fixando numa cena concreta, específica, delimitada e isso depunha a favor deles.

No caso de Alice Munro e de “Vida Querida” há uma necessidade de percorrer caminhos entre uma problemática apresentada aos seus protagonistas, algo que os arranca de sua rotina, para que percorram um caminho tortuoso para serem presenteados por uma vida melhor.

A novidade aqui é que os quatro últimos contos possuem um caráter autobiográfico, o que confere um tom melancólico também à leitura.

Além disso, a autora anunciou sua aposentadoria aos 82 anos.

Por conta disso, se o leitor tiver todas essas informações (prêmio Nobel, aposentadoria) fica difícil não haver influência na degustação da leitura. Algo que só seria possível com a total ignorância de quem quisesse transpor essas barreiras das letras, mas num mundo como o de hoje como seria provável?

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