Ben Stiller: homenagem, sonho e realidade

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O que me levou a querer assistir com mais ênfase ao novo filme de Ben Stiller foi uma crônica de Marcelo Coelho na Folha, mas permito-me aqui a discordar do colunista em relação ao que seria a melhor qualidade do filme.

Não é a mistura entre os desejos e sonhos com a verdade e a realidade de nossas vidas que se estabelece como a maior marca do filme, mas acredito que sejam as homenagens como maiores benesses que Ben Stiller realiza neste “A Vida Secreta de Walter Mitty”.

Dou-lhes alguns exemplos: a ode à fotografia, a busca incessante pelas melhores imagens de nossas vidas, a transição entre o velho mundo do jornalismo e a modernidade dos sites informativos, enfim, há uma infinidade de pequenos exercícios de excitação aos detalhes da beleza que há ao nosso redor.

Desde já quero deixar claro que estimo ser um dos melhores filmes do ano passado, mas algumas cenas em particular chamaram à minha atenção. Quando a película ainda entrava na sua primeira hora eu já achava isso e meu medo era que me frustrasse na segunda metade do longa.

Mas Ben Stiller usa de algumas artimanhas para que eu tivesse essa ideia. Logo no início nos dá cenas interessantes provenientes da mente fértil do personagem do título, mas depois ele usa jogo sujo com a belezura Kristen Wiig cantando “Space Oddity” de David Bowie. Isso é motivo para valer o ingresso.

Mas preciso falar sobre a história para não ficar nada mais confuso.

“A Vida Secreta de Walter Mitty” (The Secret Life of Walter Mitty) é uma adaptação de Steve Conrad para o conto homônimo de 1939 escrito por James Thurber, mas que ganha uma direção expressiva de Stiller em contrapartida à sua atuação contida como ator principal.

Ao contrário do texto original, o Walter Mitty atual não é casado e também sua saga se torna um pouco mais radical do que a do personagem do livro de Thurber, que precisava apenas atravessar algumas quadras para finalizar seu trajeto.

Nos dias atuais, Mitty é o responsável pelo departamento de negativos da revista Life americana. Assim como na vida real a situação da revista é de cancelamento da edição de papel e há, não só o desespero dos funcionários com sua transição para a edição eletrônica (e uma possível demissão em massa), mas também pela alteração do foco de sua existência (o próprio lema da revista, muito conhecido, é repetido por diversas vezes durante o filme numa preocupação evidente de que seja desvirtuada essa ideia original da revista).

O personagem de Mitty fica responsável pela revelação da foto que será a última capa da revista a ser lançada nas bancas e precisa encontrar o negativo enviado pelo principal fotógrafo do periódico, Sean O’Connel (ausente-presente através de Sean Penn). Começa aí uma tresloucada busca pelo personagem de Penn que nunca para num lugar.

Sua busca passa por Groelândia, Islândia e Afeganistão com a inclusão de belíssimas imagens desses locais através da fotografia de Stuart Dryburgh.

O início da história parece revelar um Walter opaco, triste com sua vida real, que procura se refugiar num mundo criado por sua mente. Sua realidade é insípida, já que procura abrigo em sites de relacionamento.

Mas o que parecia ser apenas um filme de autoajuda vai se tornando uma história de aventura, uma transformação do homem sem sal no homem que ele sempre foi. Um bom filho, ótimo funcionário e antigo skatista de sucesso. O que traz à tona é que as nossas frustrações, às vezes, vêm acompanhadas de desejos estratosféricos que nunca serão realizados.

Pareceu livro do Paulo Coelho? Até pode se desenhar isso em alguns momentos, mas o importante é que isso não se desenvolve de forma piegas apenas com o intuito de fazer o espectador chorar.

O filme tem momentos de comédia comedida, imagens a la National Geographic, boa trilha sonora indie (Arcade Fire, David Bowie e Of Monsters and Men, entre eles), ficção e realidade se misturando na vida de Walter Mitty que se torna empolgante sem que ele perceba isso imediatamente.

Enfim, com participações legais de Shirley MacLaine, Adam Scott e Adrian Martinez, além de Kathrin Hahn como a irmã de Walter, o filme se posiciona como o melhor trabalho de Ben Stiller que se firma como um diretor de mão boa depois da incursão pelo Vietnã com “Trovão Tropical”.

Boa pedida para quem visualiza coisas horrendas como “O Hobbit” nas salas de cinema ao lado.

Trailer de “A Vida Secreta de Walter Mitty”

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