Ser ou Ter: eis a questão

ser-ou-nao-ser

Já não é de hoje que a música popular brasileira não é mais povoada por gente como Chico Buarque, Caetano Veloso ou Gilberto Gil, pois o que podemos chamar música do povo nos dias atuais ou é o funk ostentação da periferia.

Que os críticos de arte não se ofendam e nem as pessoas que possuem gosto diferenciado achem isso um sacrilégio, não é uma opinião do Blog, mas apenas uma constatação.

Mas antes de falar sobre a matéria constituída no título do post, sobre a necessidade das pessoas de possuir as coisas, de mostrar isso ao mundo, é importante explicar motivos para que isso tenha chegado a este ponto.

Já faz muito tempo que, tanto aqui no Brasil, quanto lá fora, o público em geral procura um lugar ao sol. A ideia de aparecer na tv ou de ficar famoso por algum período ganhou até a expressão “quinze minutos de fama”. O fato de uma pessoa ter essa fama repentina e posteriormente desaparecer para sempre demonstra uma tentativa de todo mundo ser notado no meio da multidão.

Mas essa não é a necessidade do brasileiro médio desde sempre. Em algum lugar lá nos anos sessenta, talvez setenta, as famílias que tinham algum tipo de condição financeira procuravam preparar seus filhos a ser alguém na vida. O fato de ser imprescindível o estudo para que isso pudesse acontecer pressionava todo mundo a fazer da escola um local importante para seu crescimento profissional.

Os resultados, quando incluíam a formação de um professor, um médico, um advogado ou um engenheiro, enchiam a todos de orgulho e de gratificação.

Outra coisa era diferente: a importância de ser uma pessoa correta , de que a ética e a moral devem ser processos pelos quais o ser humano precisa passar para se tornar um cidadão pleno também faziam com que a passagem pelos estudos tivesse preponderância inequívoca.

Não coloco a formação religiosa nessa discussão, já que moral e ética não precisam ser ensinadas somente dentro de um culto de fé, mas dentro de qualquer lar que se preze. Também não digo que hoje em dia isso não se faça presente nas casas brasileiras. O que acontece é que essa necessidade de “ser alguém na vida” tem perdido de goleada para “ter algo na vida”.

A mudança do verbo é sutil, mas seu significado é claro e objetivo. O que o cantor do funk ostentação diz em suas canções é que você deve procurar se mostrar para o mundo, que você é especial e que merece o mundo. Até aí não há nenhum problema, mas quando nos aprofundamos nesse quesito inerente ao ritmo atual percebe-se que essa promoção do “myself” deve ser conseguido a qualquer custo.

MC Gui – Ela Quer

A geração Facebook precisa aparecer, o público jovem dos anos 2010 não se limita a querer, ele quer conseguir. A possibilidade de que isso seja através de maneiras imorais não tem importância.

Há coisa de 10, 12 anos foram importados da Europa e dos EUA os programas de reality show que prometiam mostrar a realidade da vida, das pessoas. Não sei se o prometido foi alcançado, mas demonstrou o que o ser humano tem de pior em seu âmago: a manipulação, o fingimento, a inveja, a falsidade,a ira ou mesmo a vingança foram apresentados de maneira explicita aos telespectadores sem que houvesse nenhuma censura ou desculpa dos participantes ou dos apresentadores. Afinal de contas, é um jogo, ganha quem permanecer até o final, em pé, diante dos outros, todos perdedores.

O próprio Rock que surge no dorso de alguns moleques nos dias de hoje, através de camisetas de Nirvana ou Ramones, como a salvação da lavoura, da música e do bom gosto também iniciou como verbalizador de ostentação. Os musicões de Chuck Berry ou o rock pesado do final dos anos 70 e 80 apostavam nos carrões como algo a ter e nas gatinhas como um objeto sexual, simples assim.

A questão em relação a isso é que esse pensamento vinha como desculpa para que, tanto artistas quanto público, fossem alguém. Vou dar um exemplo: o cara apreciador de Kiss nos anos 70 tinha na música dos mascarados como um item de festa, mas quando queria qualidade de letra e mensagem buscava em Led Zeppelin ou Pink Floyd coisas mais profundas. Não quero imaginar que a música tenha de ser uma coisa piegas tipo U2 que só sabe falar dos flagelos da humanidade, mas que essa festa que proporciona qualquer rock do Mötley Crue ou do Van Halen são só isso, alegria e curtição. Veja isso no vídeo da banda Fu Manchu.

Fu Manchu – Drive

O papel promocional que o funk ganhou hoje em dia evidencia que essa característica virou panfleto para um modo de vida, uma maneira de se perpetuar o consumo como meio de conseguir a ascensão financeira e social.

Outra coisa que acredito ainda não ter sido compreendido pelos próprios compositores de funk: eles promovem a divulgação de marcas de roupa, carros, celular, enfim, de tudo o que se consome hoje em dia numa publicidade gratuita que os empresários agradecem, mas isso não faz com que incluam o seu público nesse mundo capitalista. Tanto é que numa pesquisa rápida realizada por um site de notícias dias atrás, ficou evidenciado que o consumidor da chamada “camada C” não é o seu público-alvo e isso os incomoda por conta de sua “falta de estilo”.

Além disso, questões problemáticas de nossa nação são ignoradas justamente por aqueles que vivem os mesmos problemas, os moradores da periferia. Nesse sentido caem no ufanismo que todo governante sonha que sua população despenque dentro do país do futebol.

MC Guime – No País do Futebol

Independente da forma como o jovem brasileiro se sente em relação ao mundo em que vive é necessário esse resgate de que “ser alguém na vida” deve ser mais importante do que “ter algo na vida”. Não sejamos hipócritas ao ponto de achar que alguém conseguirá vencer no mundo-cão de hoje sem que ascenda socialmente, mas se essa evolução não vier acompanhada de educação e ética, ela será efêmera e sua inclusão social será apenas tolerada pelas classes mais abastadas financeiramente.

No momento em que a pessoa consegue compreender o mundo, percebe seu papel como ator social e consegue se estabelecer profissionalmente, sendo visual seu modo de se expressar e de pensar, tendo liberdade para saber o que é bom ou ruim para si próprio (e isso só poderá ser possível através do conhecimento) todo o restante das aquisições, das posses físicas, materiais e financeiras serão apenas consequências. Não parecerá algo inócuo aos olhos dos outros.

Por fim, até mesmo para ilustrar a discussão, eu incluo uma música que fala exatamente sobre isso: o fato das pessoas estarem mais preocupadas com o “Ter”. O que mais impressiona na mensagem da cantora Lorde, também compositora da canção, é que se trata de uma menina de 17 anos, rodeada por esse universo falado durante todo o texto, e que percebeu exatamente o que está acontecendo, livrando-se das amarras do consumismo exacerbado e arrebanhando uma legião de jovens que se tocaram para o tema.

Lorde -Royals

De qualquer maneira, é um debate que não termina por aqui e que demonstra um mundo com mudanças estruturais em suas instituições, com fragilidade na sua área educacional e que precisa reforçar o elo entre o jovem e o conhecimento para que essa dupla seja capaz de promover uma parceria de sucesso no modo de ver e viver o espaço que está ao nosso redor.

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