A leitura de “Capitães de Areia” devia ser obrigatória para todo jovem

capitaes de areia

Estou escrevendo este post, pois redescobri a leitura desta grande obra de Jorge Amado após muitos anos para perceber o quanto seu conteúdo é intenso e preponderante para compreender a natureza humana em sua juventude e para entender como a desigualdade está presente no cotidiano brasileiro desde sempre.

O livro foi relançado em 2010 pela Companhia das Letras, o que lhe proporcionou novo fôlego entre o público mais jovem e foi possível detectar gente mais velha (como eu) relendo o livro para buscar novas mensagens (ou reencontrar aquelas de outrora).

Como diz o próprio prefácio, a obra fora lançada originalmente em “1937, pouco depois de implantado o Estado Novo, (…) teve a primeira edição apreendida e exemplares queimados em praça pública de Salvador por autoridades da ditadura. Em 1940, marcou época na vida literária brasileira, com nova edição, e a partir daí, sucederam-se as edições nacionais e em idiomas estrangeiros. A obra teve também adaptações para o rádio, teatro e cinema. Documento sobre a vida dos meninos abandonados nas ruas de Salvador, Jorge Amado a descreve em páginas carregadas de beleza, dramaticidade e lirismo.”

Não há nessa descrição nenhuma novidade sobre o discurso literário de Amado nem sobre o seu estilo de escrever. Mas é imprescindível entender o quanto foi difícil sua chegada até o leitor comum e o motivo para isso não só era por causa da linguagem utilizada pelo escritor baiano, em que se aproxima do leitor por meio da expressão comunicativa popular, mas também por conta do conteúdo considerado subversivo para aquela Era Vargas.

Há uma denúncia da forma como eram tratadas as crianças e adolescentes moradores de rua de Salvador, e como isso era olimpicamente desprezado pelo governo.

O fato do enredo se desenvolver em torno do problema posto acima também demonstra a capacidade de Jorge Amado em se manter atual mesmo nesses dias do século XXI. Ele nos mostra uma estória simples, carregada de mensagem relevante, mas não permanece apenas no passado, fazendo nossa mente viajar para os percalços modernos.

Jorge Amado
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Percebe-se, assim, a inocência de crianças dando lugar a uma visão de mundo completamente amadurecida e o desencantamento em relação a essa evolução física, moral e psicológica. Estamos diante de uma obra que não só traz à baila a vida dos garotos de rua daquela primeira metade do século XX, bem como isso pode ser transportado ao universo criado no nosso entorno na atualidade.

O fato de acompanharmos a vida cotidiana de menores abandonados das ruas de Salvador nos coloca numa encruzilhada entre o nosso mundo fechado e aquele que se desenvolve nas esquinas frias da noite.

Pedro Bala, João Grande, Dora, Sem-Pernas, Professor, Boa-Vida, Pirulito, Volta-Seca, Gato, Zé Fuinha e João-de-Adão são todos personagens importantes e seus encontros promovem não só ótimos diálogos desenvolvidos pelo autor, mas também nos ilustram a noite em que, sem ter quem os acuda, serve de pano de fundo para a elaboração de seus planos de como manter suas vidas.

É uma espécie de “Meninos da Rua Paulo” de Ferenc Molnar por conta do tema e “Tom Sawyer” de Mark Twain, pela perspicácia como vivem seus personagens.

Jorge Amado, comunista assumido, era formado em Direito, o que lhe conferiu muita capacidade argumentativa em suas estórias, mas isso provocou a ira do governo que sempre viu em seus livros atividade panfletária do partido comunista.

“Capitães de Areia” lida da melhor maneira com a seriedade com que deve ser ponderada a situação dos meninos de rua, mas não perde o bom humor e faz de suas personagens pessoas interessantes e complexas, assim como devem ser as pessoas comuns. Não há heróis e não há vilões de fato, pois apesar das crueldades sofridas pelos meninos, o sistema social é que pode ser posto como antagonista principal. Todo o resto é consequência da inação do governo e da falta de atitude com que as pessoas levam sua vida, preocupados apenas em manter sua condição medíocre.

Com um final que vai sendo construído aos poucos, mostrando como a vida desgraçada dos meninos se transforma sem permitir que eles evoluam de maneira alguma, há somente realidade e conformismo, algo com o que não será modificado sem que haja ações concretas entre nós, cidadãos comuns.

É óbvio que a condição da moradia e do emprego teve muita melhoria de 80 anos para cá, mas a desigualdade continua recorde. Portanto, muita coisa tem de ser feita, pois ficar aguardando milagres acontecerem não ajuda em nada. Jorge Amado sabia disso, daí o fato de não ter criado um sínico e fácil final feliz.

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Um comentário em “A leitura de “Capitães de Areia” devia ser obrigatória para todo jovem

  1. Valnikson disse:

    Jorge gênio! Este livro é maravilhoso! Parabéns pela ótimo post. (:

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