Por que “O Lobo de Wall Street” merece o Oscar

o lobo de wall street

Um filme que fala sobre a canalhice do “tudo por dinheiro”. Uma película que tem no seu personagem principal um homem sem escrúpulos, um misógino, um preconceituoso de marca maior e que vive de tirar a economia suada de gente pobre. E o pior: é verídico, ele existe em carne e osso.

Sim, este poderia ter sido um filme em que todos os adjetivos ruins mencionados acima perfariam um vilão dos mais grotescos, um picareta que deve pagar pelos seu crimes, mais cedo ou mais tarde.

Só que não!

“O Lobo de Wall Street” não é fácil de se classificar. É muito engraçado, mas é repugnante também; faz uso de viagens cocainômanas, porém nos demonstra bem como é a realidade do mundo do dinheiro; divaga pela consciência de alguns personagens, entretanto avalia a não-consciência de outros.

Enfim, traz à tona toda a genialidade de Martin Scorsese num momento da carreira em que não precisa pedir opinião a nenhum produtor de Hollywood ou solicitar a benção de algum investidor para colocar ou retirar alguma cena de seu longa-metragem.

Dessa forma, “O Lobo…” acaba por ter poucos cortes, torna-se longo, mas em nenhum momento parece pedante. Quem se aventurar a ir ao cinema assistir ao filme, com certeza, não sentirá falta das três horas que deixou lá fora.

O fato de nos depararmos com o autêntico vilão Jordan Berfort (Leonardo DiCaprio) parece que não atrapalha a ideia de Martin em contar este conto sobre o mundo irreal do dinheiro de Wall Street que cria um submundo fantástico para quem se apodera dele. Este aspirante a corretor da bolsa sai de uma vida pacata e modorrenta do interior, para se aventurar nessa selva que é o mundo financeiro. Lá conhece seu guru, Mark Hanna (Matthew McConaughey, em atuação curta e excelente) que lhe ensina todos os truques para vencer naquela fogueira das vaidades.

Aos poucos, somos apresentados aos parceiros de Belfort nessa empreitada, desde aquele que se torna seu melhor amigo (Jonah Hill), e que percebemos em determinado momento que isso não tem a mínima importância diante do dinheiro, até outras figuras caricatas deste mundo de ilusões.

Daí em diante, as ações e os golpes na classe média americana do final dos anos 80 ganham proporções bilionárias, a ponto de começarem a ser acompanhados de perto pelo FBI. As altas transações realizadas por Belfort e seus comparsas superam todos os limites da ética e do respeito humano, mas não há em nenhum momento da saga deste ser amoral algum resquício de arrependimento.

Para muita gente, esse é um ponto fraco do filme, por transparecer uma sensação de que os fins justificam os meios, mas para mim é exatamente o que o fortalece, já que Scorsese, com sua filmagem longa e sem cortes, não toma partido em nenhum instante sequer. Aquilo é o que eles são, os lobos de Wall Street, e isso não pode ser deturpado para ser mostrado ao grande público.

As orgias acompanhadas de cocaína também não podem ser recriminadas, pois tudo ali faz parte da ostentação (palavra da moda no Brasil) buscada pelos grandes atores da cena financeira de Nova York.

O que se vê, portanto, é um filme que, tal qual “Os Bons Companheiros” (1990), acompanha uma narração feita pelo protagonista para contar como ele chegou a todas as ações que o levaram a ser quem ele é. A diferença aqui é que falamos de um cara que na vida real não se deu mal (ou nem tanto), pois apesar de ter sido preso, Belfort saiu da cadeia apenas dois anos depois, escreveu um livro de sucesso sobre Wall Street e hoje dá palestras concorridas ao redor do mundo.

Há participações muito bem vindas e que seguram muito bem a trama como as do diretor do banco suíço, Jean Jacques Jaurel (Jean Dujardin), que tem uma cena hilária com o personagem de DiCaprio, o pai do protagonista Max Belfort (vivido pelo diretor Rob Reiner) com seu mau humor com tudo ao redor e, talvez, um dos seres mais morais da história, ao lado do agente do FBI Patrick Denham (Kyle Chandler), além da inclusão providencial da gostosíssima Naomi Lapglia (a maravilhosa Margot Robbie).

No final, o que se pode dizer é que “O Lobo de Wall Street” tem algumas qualidades que fazem dele um filme digno de Oscar de melhor produção, pois possui uma direção de atores competentíssima, um plano sequencial de cenas muito bem feito (mesmo com as três horas de rodagem), um roteiro que não escorrega em soluções simples (trabalho excepcional de Terrence Winter, com consultoria do próprio Jordan Belfort), contando uma história que não decai do início ao fim, além da direção de câmera segura de Martin.

Uma pena se não ganhar, mas o mundo das artes, de qualquer forma, já ganhou um novo clássico do cinema.

Trailer oficial do filme:

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