O Mundo Psicodélico e Experimental do Primeiro Disco dos Mutantes

Os_Mutantes

A banda é considerada um dos principais ícones do rock brasileiro em todos os tempos. Tiveram como influência, obviamente, The Beatles, adotando inúmeros elementos musicais e instrumentais da banda britânica, mas a categoria deste grupo não fica apenas na reverência ao que vinha de fora.

Eles tinham a ideia de favorecer a harmonia da música brasileira e muitas das melodias de seus discos têm a ver com a cultura local.

É claro que a criatividade exercida, principalmente pela formação clássica dos Mutantes, com Sérgio Dias (guitarra, baixo e vocais), Arnaldo Baptista (baixo, teclado e vocais) e Rita Lee (vocais) foi decisivo para a criação de um dos maiores espólios da música pop nacional. A utilização de feedback, distorção e truques de estúdio de todos os tipos, acabam por nos remeter a outra banda icônica daqueles tempos, os Beach Boys, mas sempre iremos mencionar a carreira dos Mutantes como um grupo experimental único em nosso país.

Dessa forma, quando apareceram pela primeira vez em cadeia nacional, em 1966, no programa de Ronnie Von logo foram alçados a voos maiores. O nome da banda veio de um livro que, tanto os integrantes do conjunto, quanto Ronnie Von tinham lido. Chamava-se “O Império dos Mutantes”, de Stefan Wul, e como o apresentador do show exibido pela Record não gostava do nome anterior , Os Bruxos” sugeriu a nova nomenclatura.

Mas daí até a produção do primeiro disco foram dois anos.

Estamos em 1968 e o grupo começa a trabalhar no álbum autointitulado “Os Mutantes. É um período atribulado para a banda, já que eles já tinham realizado duas canções junto com Gilberto Gil, “Bom Dia” e “Domingo no Parque”, está última participante da estréia tropicalista no “III Festival de Música Popular Brasileira”, ficando com o segundo lugar. O envolvimento com os tropicalistas ficava mais sério, com a participação de momentos memoráveis com a apresentação sob vaias de “É Proibido Proibir” no mesmo festival e também no programa “Divino, Maravilhoso”, última grande manifestação tropicalista naquele período. A banda também participara do disco coletivo “Tropicália ou Panis et Circenses”, junto com Caetano Veloso, o próprio Gilberto Gil e outros músicos imbuídos do mesmo manifesto cultural.

Desse modo, parecia que seria um projeto muito corrido o disco de estreia deles. Mas o que se verifica nessa primeira incursão de estúdio num álbum próprio é uma simbiose perfeito entre os músicos, as composições e as experimentações realizadas nos pouco mais de 39 minutos de canções de “Os Mutantes”.

Formação original dos Mutantes:
download

A questão aqui é prática: fala-se de um dos mais completos, engenhosos e talentosos discos da música brasileira em todos os tempos.

O álbum foi gravado com a produção de Manoel Barenbein e arranjos de Rogério Duprat e saiu pela Polydor. Também é marcado pela utilização de instrumentos e técnicas não usuais até então na música nacional e a utilização de várias pirotecnias de estúdio, como mudanças de ritmo, guitarras distorcidas, uso de ruídos, sonoplastia, e de objetos não convencionais para simular o som dos instrumentos, como uma bomba de inseticida em “Le Premier Bonheur do Jour”.

A presença de elementos melodiosos e de harmonia que remetem ao rock psicodélico, também se faz notar em todas as composições, mas a mistura de gêneros musicais extremamente brasileiros com o samba em “A Minha Menina”, o candomblé em “Bat Macumba” e o baião em “Adeus Maria Fulô”, figuram como marcas da estreia da banda.

Nesse sentido, os Mutantes foram pioneiros na mescla do rock com elementos musicais e temas especificamente nacionais.

O fato de ter sempre um toque de humor nas letras virou outra característica do grupo e essa irreverência continuou acompanhando Rita Lee, por exemplo, em sua carreira pós-Mutantes.

Algumas das críticas vorazes das pessoas mais tradicionais ligadas à produção musical do país tinham como alvo essa mistura com música estrangeira, mas foi exatamente isso que fixou, tal qual tatuagem durante toda a carreira do conjunto, dentro e fora do país. Os Mutantes são um grupo que possui até hoje fãs internacionais de gabarito. Kurt Cobain, por exemplo, sempre citava a banda e os primeiros discos deles (notadamente, o de estreia) como influência para ele e sua banda, o Nirvana; Beck faz experimentalismos calcados muito na escuta que fez, quando jovem, de “Os Mutantes” e gente bacana tanto do mainstream quanto da música independente já falou sobre o disco e a banda de mesmo nomes. Black Francis, é outro fã da banda de Rita, Sérgio e Arnaldo.

De qualquer forma, essa mistura do rock psicodélico, com pitadas de samba, novas ideias distorcidas, com doses de experimentalismo, num hibridismo musical que seria característica presente na música dos anos 70 do mundo todo fizeram com que o álbum “Os Mutantes” entrasse numa série de listas de revistas de música renomadas.

Esse disco foi eleito um dos 50 discos mais experimentais da história, segundo a revista MOJO. Ficou na frente de nomes como The Beatles, Pink Floyd e Frank Zappa, além de ter sido colocado na lista “Los 250: Essential Albums of All Time Latin Alternative – Rock Iberoamericano” (Os 250 álbuns essenciais de todos os tempos de Rock Latino) da revista Al Borde, na 21ª Posição, álbum brasileiro melhor colocado. Fora o fato de ser classificado em 9° lugar na lista da revista Rolling Stone dos 100 maiores discos da música brasileira.

Esse prestígio todo vem do fato de ter músicas como “Panis et Circenses” (Gilberto Gil e Caetano Veloso) como não só um manifesto tropicalista, mas também de uma canção cheia de críticas à ditadura do país, “A Minha Menina”, composição do brother da banda, Jorge Ben Jor, com um balanço entre o samba rock e o soul americano, “O Relógio” de Arnaldo Baptista, Rita Lee, Sérgio Dias, além de “Once Was a Time I Thought” de John Philips que virou “Tempo no Tempo na versão de Arnaldo Baptista, Rita Lee, Sérgio Dias e a canção final do álbum, “Ave Gengis Khan” também do trio.

Complementam o disco, “Baby” de Caetano, “Trem Fantasma” parceria da banda com o músico baiano e “Senhor F”.

Um álbum clássico para a música feita no Brasil, mas também um manifestação de experimentalismo para a música mundial.

A lista completa do álbum “Os Mutantes”:

1 – “Panis et Circenses”
2 – “A Minha Menina”
3 – “O Relógio”
4 – “Adeus Maria Fulô”
5 – “Baby”
6 – “Senhor F”
7 – “Bat Macumba”
8 – “Le Premier Bonheur du Jour”
9 – “Trem Fantasma”
10 – “Tempo no Tempo (Once Was a Time I Thought)”
11 – “Ave Gengis Khan”

Panis et Circenses

A Minha Menina

Ave Gengis Khan

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