Píramo e Tisbe: O Romeu e Julieta bem antes de Romeu e Julieta

Tisbe

William Shakespeare é reconhecidamente um autor genial. Suas obras possuem estilo e forma determinantes para uma guinada única na história da literatura mundial.

As características do drama e da comédia tomam nova moldura a partir dos escritos do famoso bardo. Há desenvolvimento histórico, poesia e lirismo no tom certo em cada uma das obras do inglês, mas não se pode promover a literatura de Shakespeare como algo apenas autoral, pois ele se baseia muito na literatura antiga, notadamente a grega.

É possível visualizar em “Sonho de uma Noite de Verão” muito da mitologia grega, alguns dos elementos trágicos de “Machbeth”, “Hamlet”, “O Mercador de Veneza” e “Ricardo III” vêm da tragédia grega, mas não há nenhuma obra de William Shakespeare com influência tão próxima de outra quanto “Romeu e Julieta”.

O drama entre os filhos das famílias Capuletto e Montecchio que se apaixonam e são proibidos de manter o relacionamento foi escrito entre os anos de 1591 e 1595, mas sua história já se fazia presente muito tempo atrás.

O escritor famoso da Inglaterra se inspirou no mito de Píramo e Tisbe que, apesar de ter o fator doutrinário, característico de qualquer mitologia e de realizar uma explicação para um fenômeno natural promove ações em torno de um casal com igual dificuldade em ter seu amor consumado por conta da proibição de suas famílias.

O mito nos remete aos desencontros do amor e o desenrolar que isso proporciona.

Mesmo parecendo óbvio que um casal que se aproxima pelo coração deve ser respeitado por qualquer outra pessoa, na prática isso não acontece. Todo relacionamento humano só terá sentido se implicar no crescimento de ambos. A arrogância e a prepotência de outrem atravancam o caminho dessa relação e acontece a chantagem emocional. Mas fica sempre a dúvida se aquela ação final da morte para se livrar dos problemas terrenos seria a solução correta.

Ao final ainda há a interferência dos deuses ao homenagear os amantes com a cor de seu sangue e de seu amor sendo dada ao fruto da árvore na qual foram enterrados embaixo.

Abaixo o mito completo, de acordo com a tradução realizada por Thomas Bulfinch:

Píramo era o mais belo rapaz, e Tisbe a mais bela donzela em toda a Babilónia, ondereinava Semíramis. Os seus pais ocupavam casas adjacentes e a proximidade juntara os jovens até que a relação amadureceu em amor. De boa vontade teriam casado se os pais não o tivessem proibido.

Uma coisa, porém, não podiam proibir – que o amor brilhasse com igual ardor no peito de ambos. Conversavam por sinais e olhares, e o fogo coberto ardia mais intensamente.

Na parede que dividia as duas casas havia uma fenda causada por alguma falha na estrutura. Ninguém tinha reparado nela antes, mas os amantes descobriram-na. O que não descobrirá o amor! Permitia uma passagem para a voz, e ternas mensagens começaram a passar de um lado para o outro através da abertura.

Com Píramo de um lado da parede, Tisbe do outro, as respirações dos dois amantes misturavam-se.

“Parede cruel”, diziam, “porque manténs dois amantes separados? Mas não seremos ingratos. Devemos-te, confessamos, o privilégio de transmitir palavras de amor a ouvidos desejosos de as escutar”.

Tais palavras eram proferidas de cada lado do muro e, quando chegava a noite e se tinham de despedir, era com beijos sobre a parede que o faziam, cada um de seu lado, não se podendo aproximar mais.

Uma manhã, quando a Aurora tinha apagado as estrelas e o sol derretido a geada da erva, encontravam-se no lugar costumado, concordaram em que, na noite seguinte, quando tudo estivesse quieto, abandonariam as suas moradas para, escapando aos olhares vigilantes, passear nos campos.

De modo a garantir um encontro digir-se-iam a um edifício bem conhecido, situado fora dos limites da cidade, chamado o túmulo de Ninus, devendo o primeiro a chegar esperar o outro aos pés de uma certa árvore. Era uma amoreira branca que crescera junto a uma nascente de água fresca. Tudo estava combinado e esperavam impacientemente que o sol se escondesse debaixo das águas e que a noite delas se levantasse.

Cautelosamente, Tisbe saiu pé ante pé sem que a família se apercebesse e, com a cabeça coberta por um véu, dirigiu-se até ao monumento e sentou-se debaixo da árvore. Sentada sozinha, na luz ténue da noite, apercebeu-se de uma leoa que, com as mandíbulas ainda fumegantes de uma matança recente, se aproximava da fonte para saciar a sua sede. Tisbe fugiu ao vê-la e procurou refúgio no buraco de uma rocha. Ao fugir deixou cair o véu que a leoa, depois de beber da fonte e quando regressava a abrigar-se nos bosques, vendo no chão arremessou e rasgou com a boca ensanguentada.

Píramo, tendo-se atrasado, aproximava-se agora do local de encontro. Ao ver as pegadas do leão na areia a cor fugiu-lhe do rosto. Pouco depois encontrou o véu todo rasgado e manchado de sangue.

“Oh, rapariga infeliz”, disse, “fui a causa da tua morte! Tu, mais digna de viver do que eu, tombaste como primeira vítima. Seguir-te-ei. Eu sou o culpado causador ao te tentar a um lugar de tal perigo sem que aqui estivesse para te guardar. Vinde vós leões, vinde das rochas e rompei este corpo culpado com os vossos dentes.”

MUERTE~1

Pegando no véu, levou-o até à árvore combinada e aí o cobriu de beijos e de lágrimas.

“O meu sangue também manchará a tua textura”, disse desembainhando a espada e enterrando-a no coração. O sangue jorrou da ferida, tingiu as amoras brancas todas de vermelho e, ensopando a terra, atingiu as raízes, de tal modo que a cor vermelha subiu através do tronco até aos frutos.

Por esta altura, Tisbe, ainda tremendo de medo mas não desejando desapontar o seu amado, saiu com cautela, procurando ansiosamente o jovem e desejosa de lhe contar o perigo a que tinha escapado. Ao chegar ao local, vendo a cor mudada das amoras, duvidou se estaria no mesmo lugar.

Enquanto hesitava reparou na forma de alguém lutanto nas agonias da morte. Recuou, e um tremor percorreu o seu corpo como uma ondulação na superfície de uma água parada quando subitamente é varrida pelo vento. Mas assim que reconheceu o amado gritou e bateu no peito, abraçando o corpo sem vida, derramando lágrimas nas feridas e premendo beijos sobre os lábios.

“Oh, Píramo”, gritou, “o que fez isto? Responde-me Píramo. É a tua Tisbe que fala. Ouve-me querido e levanta essa cabeça caída!”

Ao nome de Tisbe, Píramo abriu os olhos para os fechar a seguir. Ela viu o véu manchado de sangue e a bainha vazia da sua espada.

“A tua própria mão te matou e por minha causa. Também eu posso ser corajosa por uma vez e o meu amor é tão forte como o teu. Seguir-te-ei na morte pois eu fui a causa; e a morte, a única coisa que nos pôde separar, não me impedirá de juntar a ti. E vós, pais infelizes de nós os dois, não nos negueis o nosso pedido unido. Assim como o amor e a morte nos uniram, que um só túmulo nos contenha. Quanto ati, árvore, mantém as marcas do massacre. Que as tuas bagas sirvam de memorial ao nosso sangue.”

Assim dizendo, enterrou a espada no peito.

Os pais ratificaram o desejo e os deuses também. Os dois corpos foram depositados num sepulcro e a árvore desde então produz bagas púrpuras até ao dia de hoje.

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2 comentários em “Píramo e Tisbe: O Romeu e Julieta bem antes de Romeu e Julieta

  1. Marcio Roberto disse:

    É uma bela e triste história, sem dúvida.

  2. carlos cunha disse:

    Um ilustre e comemorado plagiador, que no conto Romeu e Julieta, preguiçosamente, mudou apenas o nome dos personagens originais da mitologia grega. Mas como é inglês, ganhou a fama..

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