Acampamento na Prefeitura: Professores em busca de alguma educação do senhor Haddad

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Desde as dezessete horas horas da última quinta-feira (29) eles foram chegando.

No início eram cerca de cinquenta professores e outros profissionais da área da Educação do município de São Paulo.

Hoje (31), já são mais de cento e cinquenta docentes acampados na frente da prefeitura da maior cidade do país. E não param de ser montadas mais barracas pelos outros tantos que vão aparecendo.

Infelizmente, este não é um encontro lúdico entre educadores.

Trata-se de um foco de resistência em favor da Educação da maior metrópole do país e uma forma de chamar a atenção da mídia e da população para o problema que se instala por aqui. Mais do que isso, é uma defesa da categoria dentro do Brasil.

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Já faz algum tempo que a profissão de professor sofre com o descaso das autoridades brasileiras no que tange à Educação em todas as áreas: desde o ensino infantil chegando à universidade, não existe o mesmo cuidado que há, por exemplo, com os estádios padrão-Fifa que serão utilizados para a Copa do Mundo que se avizinha.

Além disso, o que se percebe nos Estados da Federação e nas cidades, desde as maiores até as mais minúsculas, é uma afronta ao interesse público: escolas sucateadas, salas de aula super-lotadas, prédios obsoletos e uma tendência de promover involução na carreira do magistério.

Na capital paulista a situação não é diferente e há motivos para achar que a questão possa ser até pior.

O atendimento às crianças e adolescentes é precário não só por conta das questões citadas acima, mas também devido à falta de profissionais. Mesmo com os inúmeros concursos públicos dos últimos anos ainda existe uma lacuna muito grande de profissionais aptos para trabalhar na área. A maneira como são tratados os alunos com necessidades especiais é degradante. Não há pessoas da área profissional adequada para facilitarem a inclusão deles nas salas de aula.

Aqueles que hoje saem das universidades e tentam a sorte na carreira do magistério em São Paulo são demovidos da ideia ainda no primeiro ano e pedem para sair da função indo atrás de outras ocupações que, às vezes, nem se assemelham àquilo que está descrito em seu diploma.

A violência com que o professor é tratado dentro e fora da sala de aula é humilhante. São problemas sociais e externos que dificultam o desenvolvimento das aulas e o número de casos de roubo a educadores em saída de escolas só aumenta. As agressões por parte de alunos e pais também é estatisticamente alto.

A própria convivência com a violência vista entre os educandos e os problemas trazidos de fora que dificultam o ensino-aprendizagem deles submete o mestre a um turbilhão de emoções forte e desgastante.

Por fim, a remuneração aquém daquilo que um profissional formador de cidadãos mereceria, é outro fator importante para que haja desistência da função de docente.

No que diz respeito ao movimento dos professores em vigília na porta do local de trabalho do prefeito de São Paulo, há de se considerar que isso não é resultado de impulsividade por parte dos educadores. A greve que toma a rede pública de ensino da cidade completa neste sábado 38 dias e tal ação não ocorre por mera vontade dos trabalhadores em atrapalhar as aulas dos alunos.

Velas simbolizam a morte da Educação no governo Haddad
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A intransigência com que Fernando Haddad lida com os educadores desde o começo de seu governo (que tem pouco menos de um ano e meio) é gritante e o autoritarismo seguido de profundo desprezo demonstrados na sua inação para melhorias na Educação da mais importante cidade da América Latina também causam estranheza.

Seu tão aclamado plano “Mais Educação” não saiu do papel, a não ser pela burocracia que tenta instalar nas escolas com um engodo chamado Sistema de Gestão Pedagógica (SGP) e pela falácia de que “agora tem lição de casa” (como se nunca nenhum professor tivesse ministrado alguma atividade para que o aluno fizesse em sua residência).

Aliás, o próprio nome do plano-fantasma do prefeito não condiz com sua falta de educação, já que depois de tanto tempo desde o início da greve ontem (30) foi a primeira vez que ele recebeu os presidentes do SINPEEM (maior entidade da classe docente do município) e APROFEM (segunda maior) para um diálogo.

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Este também é um fator que comprova a insuficiência em lidar com o tema e a absurda incompetência do atual secretário da Educação da cidade, César Callegari (PSB), em conduzir as negociações com os professores que reivindicam uma pauta que vai muito além das questões salariais e solicita maior atenção à estrutura física e pedagógica das unidades de ensino e maior cuidado com a carreira do magistério.

Por outro lado, não é de se imaginar outra coisa de um alpinista político que sempre teve cargos menores, mas que alcançou visibilidade maior quando foi secretário da Educação em Taboão da Serra, município paulista com menos de 250 mil pessoas, população esta igual a de alguns bairros de São Paulo que possuem mais escolas do que a própria cidade onde trabalhou na pasta anteriormente.

Portanto, não basta o prefeito ter realizado o jogo sujo de negar o acordo de aumento salarial do ano passado. Não é somente por que ele não efetua conversas com os professores e dita regras sem, ao menos, consultar a base da categoria.

O problema se estende por que as condições desses profissionais caminham para uma debandada de ótimos educadores para a escola privada ou para outras profissões, situação que acabará por culminar no fechamento de novos cursos de licenciatura ou pedagogia nas universidades de todo o Brasil.

Desta maneira, o inconveniente de a população ter que conviver com essa greve por tanto tempo também é por causa da possibilidade de um extermínio da categoria, da manobra para um futuro negro em relação à Educação e do evolutivo sucateamento das escolas públicas em toda a nação.

Finalmente, é evidente que esses professores que acampam em frente ao prédio da prefeitura (inclusive eu) se cansaram da falácia do secretário, dos ataques por meio da mídia, que tentam desqualificar a luta dos trabalhadores e procuram jogar a população contra o movimento. Esses professores não querem permitir que o senhor prefeito consiga esse plano diabólico de promover o sepultamento da profissão começando justamente pela maior cidade do Brasil.

O acampamento é legítimo, a luta pela Educação é forte e os professores estão preparados para permanecer no Viaduto do Chá, esperando que o senhor Haddad não dê mais nenhum chá de cadeira e desenvolva um diálogo aberto, justo e com vistas a fornecer melhorias que conduzam à volta dos docentes aos seus postos de trabalho cientes de que fizeram algo positivo pelo futuro da Educação e, consequentemente, pelas pessoas que moram neste país.

A poetisa que é poema até no nome

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O nome é Flor Bela de Alma da Conceição Espanca, nasceu em Portugal na cidade de Matosinhos em 1894.

Apesar do lirismo, logo de cara visto no nome de batismo da portuguesa, isso não coincide com a vida da conhecida poetisa Florbela Espanca.

Ela viveu apenas 36 anos, e morreu pelas próprias mãos. Já havia tentado o suicídio algumas vezes e no ano em que deu cabo da vida, 1930, procurara o mesmo em outubro e novembro, justamente na véspera da publicação da sua obra-prima, “Charneca em Flor” e, após o diagnóstico de um edema pulmonar, a escritora perdeu de vez a vontade de prosseguir neste mundo cruel.

Foi com essa tristeza que não resistiu à terceira tentativa do suicídio e faleceu na mesma cidade onde tinha nascido. A causa da morte foi uma overdose de vários barbitúricos.

Porém, para entender a morte dela é importante explanar sobre a evolução de sua vida. Foi cheia de tumultos, problemas amorosos e inquietações de todos os tipos. O sofrimento, talvez, tenha qualificado seus escritos a demonstrar uma facilidade em variar o ritmo e a forma, tanto quanto os temas.

O estilo rico de sua poesia é permeado pelo carregamento erótico, ideologia feminista e a deflagração de um panteísmo mágico.

A autora de versos profundos e cortantes casou-se cedo, teve um aborto involuntário que tirou dela a chance de ser mãe posteriormente, além de ter se metido num procura inglória do o amor em três casamentos diferentes que, parecem, só aumentaram sua frustração com esse sentimento por outra pessoa. Teve um irmão tragicamente morto um acidente de avião, algo que a marcou demasiadamente a ponto de ter tentado o suicídio pela primeira vez após o ocorrido.

Mas essas desgraças foram combustível para uma redação cheia de amargura e de tristeza guardada na ponta do lápis. A sensualidade com que coloria seus poemas refletia uma necessidade de fugir da realidade com que tinha de lidar normalmente.

Por conta disso, também se aventurou em outras formas de escrita, fora o poema. A escrita de contos, diários e cartas traduziam a vida idealizada que queria alcançar.

Além disso, traduziu vários romances e colaborou com várias revistas e jornais de diversos temas. Sua formação na faculdade de Letras ajudou muito nessa autoridade de poder escrever em diferentes frentes.

Mas é o amor que povoa e é gritado na maioria dos poemas de Florbela. Até mesmo aquilo que parece não combinar com o amor vira seu aliado já que nem só de sorrisos vivem os amantes. A solidão, a tristeza e a saudade, às vezes, são mais lembrados por quem ama do que a sedução e o desejo. Portanto, é a morte que é vista pela escritora como única finalidade de qualquer paixão física.

Abaixo, listo as principais obras da autora, entre livros de poemas, prosas e epístolas, mesmo que no meio de todas ainda haja algumas publicações póstumas e outras coletâneas:

1919 – Livro de Mágoas. Lisboa: Tipografia Maurício. (eBook)

1923 – Livro de Sóror Saudade. Lisboa: Tipografia A Americana.

1931 – Charneca em Flor. Coimbra: Livraria Gonçalves.

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1931 – Juvenília: versos inéditos de Florbela Espanca (com 28 sonetos inéditos). Estudo crítico de Guido Battelli. Coimbra: Livraria Gonçalves.

1931 – As Máscaras do Destino. Porto: Editora Marânus.
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1931 – Cartas de Florbela Espanca (A Dona Júlia Alves e a Guido Battelli). Coimbra: Livraria Gonçalves.

1934 – Sonetos Completos (Livro de Mágoas, Livro de Sóror Saudade, Charneca em Flor, Reliquiae). Coimbra: Livraria Gonçalves.

1949 – Cartas de Florbela Espanca. Prefácio de Azinhal Abelho e José Emídio Amaro. Lisboa: Edição dos Autores.

1981 – Diário do Último Ano. Prefácio de Natália Correia. Lisboa: Livraria Bertrand.

1982 – O Dominó Preto. Prefácio de Y. K. Centeno. Lisboa: Livraria Bertrand.

Quem foi Aleister Crowley, influência de algumas letras do Rock

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Neste ano faz 40 anos desde o lançamento de “Gita”, a obra-prima musical de Raul Seixas e Paulo Coelho.

No que diz respeito à análise do disco não há nada mais perfeito e conciso do que a crítica de André Barcinski (leia aqui: http://entretenimento.r7.com/blogs/andre-barcinski/o-maior-disco-do-pop-brasileiro-faz-40-anos-20140527/#comments), portanto nem vou me alongar acerca do tema. O que mais me interessa neste momento é falar sobe a inspiração do álbum, o místico Aleister Crowley, de quem Seixas e Coelho eram fãs incondicionais naquele momento.

O nome verdadeiro dele era Edward Alexander Crowley, mas ficou mundialmente conhecido no século passado sob a alcunha de Aleister Crowley.

Ele nasceu na Inglaterra, em 1875, no seio de uma família rica de donos de cervejarias. Interessante. A educação do menino foi realizada em Cambridge e tinha intenção de seguir a carreira diplomática por uma influência velada de seu tio.

Era isso que deveria acontecer, mas essa vida tranquila foi mudando aos poucos. Conforme ia crescendo, Crowley tinha alterações em seus interesses. Ia desde o alpinismo até a paixão pelo xadrez, mas em determinado momento, não se sabe quando, a Magia se tornou o grande objetivo de sua caminhada.

A época não era propícia para isso. Mas o curso de Filosofia que fazia na Trinity College em Cambridge logo foi alterado para o de Literatura Inglesa, fazendo com que suas leituras se direcionassem a compreender (e depois odiar) o cristianismo.

Claro que não se pode negar que a sua infância não tenha tido importância nesse sentimento de raiva pela fé cristã, pois ter visto a irmã morrer horas após seu nascimento e a morte prematura de seu pai, por câncer de língua, foram situações que o perturbaram durante anos, sendo matéria de textos que escreveu ao longo da vida.

Mas não foi só o enfrentamento da morte ainda criança que o fez trilhar caminhos diferentes durante a fase adulta.

A capacidade de percepção das coisas e a forma como conseguia convencer as pessoas surge de maneira evolutiva através de suas viagens pela Europa que tinham o intuito de leva-lo para escaladas em locais mais longínquos.

As aventuras sexuais e também as amizades que Crowley fez ajudaram a formar um habilidoso orador, característica que soube utilizar muito bem posteriormente.

A pecha de ocultista foi surgindo aos poucos. Para quem se tornou aficionado pela vida do esotérico há muitas versões que podem ser buscadas na internet e na literatura vasta sobre o tema, mas basicamente não dá para fugir de algumas informações interessantes acerca do bruxo.

No final do século XIX, Aleister Crowley teve iniciação na Ordem Hermética da Aurora Dourada e recebeu a nomenclatura de Frater Perdurabo. Nessa época, fixou residência em Chancery Lane e reservou espaços para a prática da Magia Branda e da Magia Negra.

Logo em seguida, Allan Bennett, um famoso ocultista daquele período, foi morar com Crowley e se tornou seu tutor nas magias. Era um momento de muitas mudanças para Crowley que ainda iria morar na Escócia e, no ano seguinte, 1900, se desvencilhou de Bennett que fora estudar budismo no Sri Lanka.

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Crowley passa a ter uma série de desavenças com os membros da Aurora Dourada e por causa disso, se torna um andarilho. Foi durante essas viagens que se dedicou ao Yoga. De volta à Europa, casou-se com Rose Edith Kelly simplesmente por conveniência, mas acabou se apaixonando pela mulher e desenvolveu um real namoro com ela. Pelo menos é isso que sua biografia diz.

Em 1904, numa viagem dos dois é alegado por ele que o deus Hórus teria se manifestado através de sua esposa e por isso, escreve o “Livro da Lei” que é atribuído a uma entidade de nome Aiwaz e que fora apenas psicografado por Crowley. Mesmo já tendo uma série de evidências sobre algumas farsas e outros mitos ele já possuía certa visibilidade e esta se torna sua obra mais importante.

O ocultista ainda viria a fundar a doutrina Thelema e se torna líder de outras atividades místicas, como a O.T.O.

A ele é atribuído também o domínio do conhecimento sobre magia cerimonial e a manipulação da cabala. Foi ainda um crítico social e defensor do libertarianismo, sendo autor da famosa frase conhecida por qualquer pessoa que já ouviu um disco de Raul, o “Faz o que tu queres, pois será tudo da lei”.

Esta expressão o tornou mundialmente conhecido. Ele virou pop. Isso lhe rendeu também o título de “homem mais perverso do mundo” por seus críticos vorazes. É relacionado como um dos maiores britânicos de todos os tempos, tendo influenciado pessoas importantes em todo o mundo.

Aleister Crowley viveu seus últimos anos em Hastisgs cercado de seguidores que iam e vinham para se consultar com ele e para permanecer por algum tempo ao seu lado.

O falecimento do mago ocorre no primeiro dia de dezembro de 1947 vítima de bronquite crônica e complicações cardíacas tendo sido cremado quatro dias depois.

Apesar disso, é na segunda metade do século que sua fama cresce ainda mais. É através de astros do rock, escritores, diretores e estrelas do cinema que Aleister tem seu maior pico de audiência.

As referências feitas a ele no rock and roll dos anos de 1960 e 1970, aumentam conforme seus livros, e citações são promovidas nas músicas e capas de disco de bandas conhecidas do período como o Led Zeppelin (que compraram um castelo no qual ele teria morado), Rolling Stones, Iron Maiden, The Beatles e Black Sabbath. A lista é ainda maior se citarmos os músicos Bruce Dickinson, Ozzy Osbourne, David Bowie, Weverthon Patric, Raul Seixas e John Frusciante. Muitas bandas de Black Metal e Death Metal como o Behemoth têm essa influência explícita.

Independente disso, quem iniciou essa onda de menção ao bruxo inglês foram os Beatles. Os quatro membros da banda acreditaram que Crowley era uma personalidade influente o bastante para ser colocado na capa do disco Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band. Isso possibilitou que os próximos artistas tivessem conhecimento da obra de Crowley, que fazia uma boa combinação com a rebeldia e o anarquismo promovidos pela música em que militavam.

Uma grande quantidade de conservadores da época esbravejaram sobre a questão.

Mesmo que o atual escritor brasileiro rechace sua obra feita em conjunto com Raul Seixas em homenagem a Crowley, não se pode negar também que a parceria de Paulo Coelho com o maluco beleza teve seu ponto alto com composições que citavam a Thelema liderada por Crowley, como em “Sociedade Alternativa”, “Novo Aeon”, “Loteria de Babilônia” e “A Lei”.

Talvez a homenagem mais explicita ao ocultista britânico seja “Mr. Crowley”, canção de Ozzy Osbourne, lançada em , 1980, no álbum Blizzard of Ozz.

Abaixo, algumas músicas do rock com a temática ligada a Aleister Crowley:

Mr. Crowley – Ozzy Osbourne

Sociedade Alternativa – Raul Seixas

Novo Aeon – Raul Seixas

Man of Sorrows – Bruce Dickinson

Antichristian Phenomenum – Behemoth

“Agosto”: O livro de Rubem Fonseca é obrigatório entre as melhores obras policiais do mundo

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O blog já escreveria sobre “Agosto” nos próximos dias, mas duas coisas impulsionaram essa necessidade de falar logo sobre o clássico livro de Rubem Fonseca: um texto do amigo André Barcinski acerca das obras do gênero policial atuais (leia aqui: http://entretenimento.r7.com/blogs/andre-barcinski/a-literatura-policial-agoniza-20140526/) e a recente estreia do filme sobre Getúlio Vargas (leia aqui uma boa crítica de Otávio Frias Junior para a Folha: http://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2014/04/1447498-critica-cinebiografia-getulio-e-filme-persuasivo-apesar-de-didatico.shtml).

 

“Agosto” (Companhia das Letras) é uma história que navega entre o tema histórico e a trama policial, e a participação de figuras importantes do Brasil de uma época que será lembrada para sempre em nossos livros didáticos traz à baila uma discussão: o que pequenas ações de algumas pessoas podem interferir no futuro de uma nação.

 

Mas a obra é mais do que isso: ela nos leva a um suspense extremo, a uma voracidade lançada a cada página que é digerida por nossos olhos e pensamento, uma motivação crescente de terminarmos sua leitura o mais rápido possível para descobrir seus pontos centrais.

 

A violência que há naqueles dias de Brasil não e tão diferente daquela enfrentada hoje. O clima é hostil e a infinita guerra travada através de jogos políticos tem reflexão iminente na base dos mais pobres também. Rubem Fonseca, espertamente, sabe como demonstrar isso por meio de sua verve literária.

 

Essa percepção do leitor se torna maior ao saber que os personagens criados sob uma verossimilhança sagaz se entendem bem com a técnica narrativa e a linguagem utilizada pelo autor. Fonseca utiliza seu protagonista para narrar uma história que ele mesmo tem de investigar. Temos um Sherlock Holmes brasileiro sem a polidez inglesa, mas com a astúcia tupiniquim.

 

E ele sabe flutuar entre os usos e costumes da vida carioca dos anos 50 sem que isso fique diminuto para o leitor dos anos 2000 ou de quem o lerá daqui a duzentos anos. É pura perspicácia!

 

O livro se desenrola por conta dos eventos que culminaram na morte de Getúlio Vargas em 1954, mas são os meandros desse caso que criam os maiores suspiros de suspense durante a obra.

 

Em simultaneidade aos fatos reais da crise que levaria Getúlio ao suicídio, reação esta a tudo que cercou a tentativa de assassinato de Carlos Lacerda, o autor desenvolve a história paralela e ficcional por meio do comissário Alberto Matos, designado para investigar o caso do atentado e, que leva consigo a pressão de solucionar a questão em meio à crise institucional que toma conta do país e empurra Vargas contra a parede.

 

Estamos diante de um enredo fascinante que se vale das diferentes versões contadas até hoje do que aconteceu de fato, caso semelhante ao assassinato de JFK, em Dallas, anos mais tarde.

 

Temos a figura dos já mencionados Getúlio e Lacerda, o irmão do presidente, Benjamin, a irmã Alzira, além do próprio Gregório Matos, mandante do atentado ao jornalista carioca.

 

Conforme o comissário Matos se aprofunda na análise do atentado um outro crime acontece na alta sociedade carioca. Já estamos falando da parte inventada do livro que ajuda a contar a parte verídica. Um milionário é assassinado em sua residência no Rio de Janeiro.

 

Dessa maneira, tais crimes rivalizam a atenção de Mattos, que divide com o leitor a dor de uma úlcera no estômago, que só é minorada com altas doses de pepsamar (antigo comprimido que tratava dores estomacais).

 

Além disso, o detetive tem envolvimentos amorosos mal resolvidos com duas mulheres. Isso auxilia no clima tenso do thriller.

 

Os conflitos que são gerados pelo atentado a Lacerda são retratados enquanto as investigações de Matos são atrapalhadas. Há interesses políticos, militares, jornalísticos e outras coisas mais escusas. Cabe ao investigador não cair nas armadilhas postas em seu caminho e ainda ficar em pé para chegar ao final ileso, mesmo que isso seja difícil de acreditar depois de tudo o que ele vai descobrindo ao longo do tempo.

 

Um livro que não deixa a tensão cair em nenhum momento e que não ilude o leitor com soluções fáceis para os problemas criados em suas páginas. 

 

Muito da história de nosso país se explica ali e mais das características dos políticos dessa nação podem ser visualizadas para que não se ache que isso é exclusividade do presente.

 

Leitura obrigatória e imprescindível para quem gosta dos dois estilos: policial e histórico.

Assistimos ao novo “X-Men”. Veja a crítica (sem muitos spoilers)

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Essa história de mudar as estreias de cinema no Brasil para as quintas-feiras é boa para quem vai ao primeiro dia. Pelo menos foi essa a sensação que eu tive ontem.

As filas não eram extensas e pude perceber que só haviam aficionados pelo universo Marvel na plateia para acompanhar o novo filme da saga dos mutantes criados por Stan Lee.

Além do mais, quando o público é constituído por fãs vê-se um respeito maior e um senso de educação que, infelizmente, tem faltado ao público de cinema ultimamente.

Portanto, no geral, gostei dessas alterações sobre estreias.

Vamos, então, ao filme.

Acredito que o início de “X-Men: Dias de Um Futuro Esquecido” é muito corrido e a explicação dos acontecimentos daquele presente destruído serve mais para confundir do que para ajudar o espectador a entender como tudo chegou aquele patamar. As conversas são muito curtas e as informações são muito picadas.

Outra coisa que alimenta uma certa dúvida e confusão mental naqueles que acompanham a saga do cinema (é importante não fazer associação com os acontecimentos dos quadrinhos) é que são puladas, de certa maneira, informações sobre os três primeiros longas da série e se enfatiza o que ocorreu em “X-Men: First Class”. Um exemplo disso é que ninguém menciona como Charles Xavier está vivinho da silva nesse futuro depois de ter sido desintegrado por Jean Grey em “X-Men: o Confronto Final”. Claro que alguns argumentarão que já há um início de explicação ao final dos créditos daquele mesmo filme, mas os mais interessados mereciam um detalhamento do fato, mesmo que fosse numa única frase.

Mesmo assim, esse mesmo começo do filme acaba por deixar todos bem ligados por conta da ação rápida e da cena de ação bem dirigida por Bryan Singer (que voltou nesse episódio à cadeira de diretor principal). Além disso, há de se destacar a ótima trilha sonora e fantástica ambientação por meio dos efeitos sonoros.

Apesar de algumas mudanças sobre como se dá essa necessidade de retorno ao passado, os roteiristas amarraram bem a indicação de que Logan deveria ser o escolhido para retornar ao ano de 1973.

Com uma atuação marcante, o que não nos faz ficar pensando no Tyrion de Game of Thrones, o Bolivar Trask de Peter Dinklager é uma das gratas surpresas e importantes acertos deste filme. Ele não transforma o personagem numa caricatura e isso traz humanidade à sua atuação.

Por outro lado, confunde um pouco a série de acontecimentos sobre a Mística de Jennifer Lawrence, o que rende uma dúvida sobre quais são suas verdadeiras mudanças psicológicas após os acontecimentos finais do longa anterior.

Até mesmo a química entre Magneto e Charles Xavier novos, que foi tão elogiada com as atuações de James McAvoy e Michael Fassbender ficou meio superficial nesse momento, o que se contrapõe ao timming perfeito de Patrick Stewart e Ian McKellen, mesmo que seja em poucas cenas. O Fera de Nicholas Hoult também não decepciona em sua versão setentista, que aliás é bem realizada pela equipe de figurino e de ambientação de cenários.

Outro detalhe. A ideia de modificar a forma como são fisicamente os sentinelas também causa estranheza já que eles haviam aparecido de outra forma em outros longas da série, mesmo que de relance e por meio das lutas virtuais dos programas de Cérebro.

Até mesmo, as lutas finais do elenco liderado por Tempestade (Halle Berry) são realizadas com tanta pressa que não há emoção em cada impacto que elas deveriam causar. Pareceu-me, nesse sentido que o filme precisou passar por muitos cortes, o que o deixou muito desesperado por chegar ao fim logo.

Mesmo assim, dá para indicar que os roteiristas Simon Kinberg, Jane Goldman e Matthew Vaughn (já acostumados à série) não deixam a peteca cair, pois se o texto tem defeitos ele também se sobressai positivamente por não deixar de usar o que já dava certo anteriormente. O jeito canastrão de Hugh Jackman para atuar como Wolverine ainda continua sendo a forma mais acertada de dar vida ao personagem. Fica apenas a sensação de que bons atores/personagens como Shawn Ashmore / Bobby Drake e Ellen Page / Kitty Pride ficaram muito em segundo plano.

No entanto, algo que acaba por roubar a cena dos 131 minutos de história é a participação de Mercúrio (Evan Peters) por causa de sua comicidade e boas cenas (a cena em câmera lenta na cozinha do pentágono é, de longe, a melhor da fita).

Por fim, fica a expectativa de que o próximo volume da série possa dar um salto qualitativo na saga cinematográfica e que a esperada volta de Jean Grey (Famke Janssem), aparecendo em uma cena em “Dias de um Futuro Esquecido”, não seja em vão.

A própria inclusão de Apocalipse (que já aparece na cena pós-créditos) ao universo de X-Men será interessante, mas dá medo de que isso seja introduzido de maneira equivocada. Bryan Singer tem sido elogiado por manter muito do que foi desenvolvido pelo cenário construído nos quadrinhos. Espera-se que se mantenha fiel a essa lógica.

Fica claro que a crítica aqui realizada é de um fã, mas mesmo assim dá para aproveitar o longa de maneira divertida e descolada desses detalhes mencionados no texto. Uma boa sessão de entretenimento perto de outras horrendas películas como “Transformers” que povoam os cinemas. Nesse sentido, Singer dá de dez a zero na maioria dos diretores de filmes de ação atuais e não frustra o espectador.

PS – Alguém, por favor me diga em que cena Stan Lee aparece, pois eu sempre esqueço de prestar atenção a isso.

E o rei censor ataca novamente

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Saiu no G1, mas já há outros veículos de comunicação reverberando o caso.

Depois de censurar o lançamento de “Roberto Carlos em detalhes”, a biografia do cantor que foi tirada de circulação em abril 2007, após disputa judicial, o brasa já está de olho novamente no escritor Paulo Cesar de Araújo.

A situação se repete, pois Araújo, depois de ter perdido anos de sua vida realizando pesquisas, entrevistas e agindo em prol da biografia do cantor brasileiro resolveu transformar toda a celeuma em torno do processo que culminou com a retirada dos volumes de sua obra das livrarias em um novo livro.

A pesquisa sai agora com o criativo nome de “O réu e o Rei” (Companhia das Letras).

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A própria editora, por meio de sua assessoria de imprensa, explicou ao portal G1 que “decidiu avisar a imprensa e os leitores só com o livro pronto.” Eles, portanto, já estavam a par dos riscos que corriam, apesar de “não ser uma biografia sobre o cantor – e sim um relato, uma reportagem sobre a relação do PCA e RC”.

Todo o cuidado da Companhia das Letras tinha um motivo justo. A grande equipe de advogados que segue Roberto Carlos é rápida no gatilho e já estuda uma maneira de entrar na justiça contra a venda do livro. Mas isso não ocorreria se não houvesse uma ordem expressa do rei. O próprio empresário do cantor, Dody Sirena, disse ao G1 que havia encomendado um parecer jurídico sobre o novo texto.

A nova tentativa de censura já não é nenhuma surpresa, mas é interessante que depois de toda a discussão sobre autorização de biografias, meses atrás, não se esperava que tanta sede ao pote fosse verificada pelos artistas apreciadores do bloqueio da liberdade de expressão e de imprensa.

Inclusive, duas semanas atrás a Câmara dos Deputados aprovou um projeto de lei que libera a venda de biografias não autorizadas pelos biografados ou por suas famílias, em caso de morte.

É claro que o texto ainda precisa passar pelo Senado antes de ir à sanção presidencial, mas já é uma grande evolução diante do que nós tínhamos anteriormente aqui no Brasil.

Até mesmo o Supremo Tribunal Federal faz menção de analisar a ação que pede a liberação da publicação desse tipo de obra. O caso será decidido pela entidade durante o julgamento de ação proposta pela Associação Nacional dos Editores de Livros (Anel).

Mesmo assim, corre-se o risco de que um autor como Paulo Cesar de Araújo tenha novo prejuízo pessoal e profissional por conta da arrogância e censura de uma pessoa pública, tida como ídolo nacional e que não tem motivo justo para atrapalhar o trabalho jornalístico e até histórico acerca de nossa música nacional e de nossa cultura.

Tomara que, dessa vez, haja maior sensatez do cantor, seu staff e da própria justiça a respeito da liberdade à informação: direito meu, seu, de todos nós.

O Arcadismo, o lirismo do campo e a influência da mitologia antiga

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O arcadismo surgiu no continente europeu durante o século XVIII, numa época de ascensão da burguesia e de seus valores sociais, políticos e religiosos.

Essa ideia arcadista acabou por se caracterizar numa valorização da vida bucólica e dos elementos que povoam a natureza e tudo o que a rodeia. Portanto, era um contraponto ao que acontecia nas grandes cidades.

A nomenclatura se dá por causa da região grega chamada Arcádia (local de residência do deus Pan).

Os poetas desta escola literária se baseavam nas maravilhas visualizadas no campo em contraposição ao burburinho da cidade grande.

Em todos os textos do Arcadismo, são ressaltadas a tranquilidade proporcionada pela natureza e a contemplação da vida simples.

Deste modo, é evidente que os autores daquela época literária negassem a vida nos grandes centros urbanos e toda a vida agitada, além dos problemas enfrentados pelas pessoas deste polos de desenvolvimento.

Para realçar ainda mais a utilização desses símbolos do campo e da simplicidade numa forma de viver que remetia às histórias da mitologia grega (e por vezes, até nórdica) os poetas arcadistas chegavam a usar pseudônimos (apelidos) de pastores latinos ou gregos.

Na Europa, os autores foram inspirados na frase do escritor latino Horácio “fugere urbem” (“fugir da cidade”), e imbuídos da teoria do “bom selvagem” de Jean-Jacques Rousseau, os autores árcades voltaram-se para a natureza em busca dessa vida pastoril, do “locus amoenus”, do refúgio ameno em oposição aos centros urbanos dominados pelo absolutismo monárquico.

Por outro lado, é importante salientar que essa busca configurava apenas um estado de espírito, uma posição política e ideológica, já que esses autores estavam em contato direto com os centros urbanos e, como burgueses, ali mantinham os seus interesses econômicos.

É por isso que se justifica a expressão “fingimento poético” no arcadismo, fato que aparece claramente no uso dos próprios pseudônimos pastoris.

Outra frase reluzente da fase arcadista é o “carpe diem”, pela qual o pastor, ciente da brevidade do tempo, convida a sua pastora a gozar o momento presente.

Quanto à forma utilizada nos textos, em sua maioria poemas, usavam muitas vezes sonetos com versos decassílabos, rima optativa e a tradição da poesia épica. Os principais ícones dessa tradição arcadista são basicamente portugueses e se destacam os escritores Manuel Maria Barbosa du Bocage, António Dinis da Cruz e Silva, Correia Garção, Marquesa de Alorna e Francisco José Freire.

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No Brasil, o arcadismo chega e desenvolve-se na segunda metade do século XVIII, em pleno auge do ciclo do ouro na região de Minas Gerais.

Esse cruzamento entre o contexto histórico e a cena artística será importante para entender o movimento no país já que muitos dos poetas eram também intelectuais que participaram de alguma forma da Inconfidência Mineira.

É também neste momento que ocorre a difusão do pensamento iluminista, principalmente entre os intelectuais de Minas Gerais. É desta região, envolta de cultura e efervescência social da época, que saíram os grandes poetas.

Entre os principais autores do arcadismo brasileiro, podemos destacar Cláudio Manoel da Costa, Tomás Antônio Gonzaga, Basílio da Gama, Frei Santa Rita Durão e Silva Alvarenga.

Abaixo, alguns trechos de textos clássicos da Escola Arcadista no Brasil. Entre parêntesis você vê o pseudônimo do autor:

Marília de Dirceu – Tomás Antonio Gonzaga (Dirceu)

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“Eu vi o meu semblante numa fonte,
Dos anos ainda não está cortado;
Os Pastores, que habitam este monte,
Respeitam o poder de meu cajado.”

Liras – Alvarenga Peixto (Enéias no Lácio)

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“Bárbara bela,
Do norte estrela,
Que o meu destino
Sabes guiar,
De ti ausente,
Triste, somente
As horas passo
A suspirar.”

Caramuru – Santa Rita Durão

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“Bárbaro (a bela diz) tigre e não homem…
Porém o tigre, por cruel que brame,
Acha forças no amor, que enfim o domem;
Só a ti não domou, por mais que eu te ame.
Fúrias, raios, coriscos, que o ar consomem,
Como não consumis aquele infame?
Mas pagar tanto amor com tédio e asco…
Ah! Que corisco és tu…raio…penhasco”

Vila Rica – Cláudio Manoel da Costa

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“O conceito, que pede a autoridade,
Necessária se faz uma igualdade
De razão e discurso; quem duvida,
Que de um cego furor corre impelida
A fanática idéia desta gente?
Que a todos falta um condutor prudente
Que os dirija ao acerto?”

Como esse texto tem apenas a intenção de se tornar uma mola propulsora para que seus leitores se interessem mais pela poesia da escola literária do Arcadismo, listo abaixo alguns dos links para maiores informações sobre o tema:

http://www.itaucultural.org.br/aplicexternas/enciclopedia_lit/index.cfm?fuseaction=definicoes_texto&cd_verbete=12157&lst_palavras=

http://educacao.globo.com/literatura/assunto/movimentos-literarios/arcadismo.html

http://guiadoestudante.abril.com.br/estudar/literatura/arcadismo-resumo-autores-dicas-questao-comentada-598999.shtml

http://www.suapesquisa.com/artesliteratura/arcadismo.htm

http://www.brasilescola.com/literatura/arcadismo-brasil.htm