Desabafos em tempos de greve

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* Por Camila Lopes Pereira

Eu tinha um sonho, desde adolescente, e é na adolescência mesmo, segundo Piaget, que nós começamos a escolher quem seremos. Confrontamo-nos com várias opiniões, com várias posições morais e emocionais dos outros que estão em nosso convívio. E o sonho que eu escolhi foi o mesmo de tantos adolescentes: mudar o mundo.

Eu e meus contemporâneos adolescentes escrevíamos letras, e nos bicordes fazíamos músicas. Contra os “palhaços de colarinho”, com violência expressa nas escolhas imperativas “morte aos políticos”, com palavrões expressávamos nossa angústia.

Angústia inocente, não sabíamos o porquê de tanta injustiça, mas gritávamos “injustiça – é tudo que eles têm para nos oferecer”…

Sinto-me muito satisfeita em saber que aquela pessoa que eu venho construindo não morreu, que aquela pessoa ainda se irrita com a injustiça, que no convívio com os adultos, aprendeu que existem vozes de autoridade por todo canto que fortalecem a injustiça…

… mas aquela pessoa contínua aprendendo, aquele pessoa, que agora tem profissão, CPF, cargo público, declaração de imposto de renda, diploma e dívidas não se rendeu e não quer fazer parte da massa, não quer ser um robozinho do sistema.

Aquela pessoa, quase foi enganada, quase achou que a culpa era sua, que suas estratégias de ensino eram fracas, que a sua formação era ruim, que não tinha sido suficientemente inteligente na escola, na faculdade, etc.
Aquela pessoa, várias vezes se admirou ao ouvir de um aluno um discurso em construção, ao ler um conto popular de Pedro Malasartes, uma vez, ouviu desse aluno “isso é trabalho escravo”, “meu pai trabalha o dia todo e não ganha nada”.

Sabe que foi um professor de história que apoiou a construção desse discurso, em processo de entendimento pelo aluno. Mas sabe também que é o governo, que são os empresários que estão por trás do trabalho semi escravo ao qual é submetido os pais de seus alunos.

Ouviu de pessoas que admirava que estas eram de esquerda. Pesquisou na internet o que era esquerda,o que era direita, e chegou a conclusão que tem gente que se diz de esquerda mas é super direitista…
Foi então que teve a primeira destruição de um herói.

Heróis são construídos, heróis são destruídos o tempo todo…

Essa pessoa aprendeu passar batom, aprendeu o que são lugares lindos e socialmente valorizados pelos ascendentes, pelos que acham que serão burgueses um dia…

A pessoa em construção conheceu outras pessoas que estavam também em construção, que iam da indignação a revolução…

Pessoas que cansaram rapidinho, pessoas que pediram desculpas para aquele herói que estava em construção por decidir escondê-lo num cantinho bem escuro da consciência e ser feliz…

A felicidade falsa proposta pelo mundo capitalista, escolheram fotos bonitas, e pra tal, tiveram que comprar roupas novas, maquiagem, sapatos, passagens aéreas, sushi, hambúrguer, apartamento, marido ou esposa, cachorro…

… E as fotos foram curtidas, e os abraços foram calorosos, e os cargos de confiança foram conseguidos, Graças a Deus conseguiram esconder aquele herói que no mundo capitalista era um antagonista, isso sim.

Agora essas pessoas dizem “Ufa”, tenho meu sábado pra dormir em paz, pra passear com o cachorro, pra assistir um filminho na Globo (ou melhor, na HBO, pois sou professor da prefeitura e posso me dar a esses luxos), pra brigar com o marido ou com a esposa…

Pera aí… a briga não era prevista nesse herói capitalista…

A briga era uma posição daquele herói chato que queria mudar o mundo, que queria xingar o governo…
A pessoa sente um vazio, sabe que por trás daquelas fotos bonitas, existe um mundo de pessoas oprimidas, sem casa,
sem comida, sem saneamento básico…

Aí a pessoa pede desculpas pra Deus, faz uma oração pelos fracos e oprimidos e enche a lousa no dia seguinte, e briga com o aluno que não copiar, briga com os pais, briga com a direção que não toma atitude.

A pessoa faz uma festa, tira uma foto bonita e coloca no facebook, toma cafezinho com o secretário da educação, se ilude de novo, e esquece…

… Esquece que tem alunos semi analfabetos, alunos que vão pra escola pra poder comer…
E toma pra si um novo herói, o herói capitalista, que se indigna sim, mas agora se indigna com a falta de vontade de estudar e de trabalhar desse povo, que outrora considerara oprimido.

Ainda bem que a minha pessoa em construção não quer saber de ilusão, ainda bem que a minha pessoa em construção não tem medo da opressão, e mais ainda, não tem vontade de ser de confiança, porque para se obter confiança no mundo capitalista precisa de um sorriso bem político e de fotos bem bonitas, fotos que não mostrem o seu herói insatisfeito com as injustiças…

Ainda bem que a minha pessoa em construção conheceu pessoas inteligentes, engajadas, honestas e indignadas. Pessoas que numa roda de bar, num papo informal, sabem muito bem conversar, sabem discutir, porque são as pessoas que não deixaram esse herói morrer, porque não concordam com esse país de injustiças, e aproveitam cada oportunidade de mudança.

* Camila Lopes Pereira é professora de Língua Inglesa na prefeitura do município de São Paulo e companheira de luta.

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