Dez contos memoráveis de Machado de Assis que não devem ser adaptados por ninguém

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Aproveitando que o assunto Machado de Assis ganhou corpo nas últimas horas por conta da matéria de Chico Felitti para a Folha de São Paulo neste último domingo (leia a matéria aqui: http://www1.folha.uol.com.br/colunas/cidadona/2014/05/1445858-escritora-muda-obra-de-machado-de-assis-para-facilitar-a-leitura.shtml) surgiu uma oportunidade de falar sobre o autor.

Não gosto de adaptações de autores consagrados justamente pelo fato de que isso violenta a ideia original de sua escrita. Já havia me manifestado contra a supressão de palavras que eram consideradas ofensivas e preconceituosas em textos de Monteiro Lobato e me mostro contrário também a essa questão envolvendo Machado agora.

Só faço a ressalva às adaptações realizadas em histórias em quadrinhos (que são de ótima qualidade), pois são outro suporte utilizado, assim como o seria numa série de tv, no cinema, no teatro ou coisa que o valha. Apesar de ser uma maneira de leitura próxima daquela feita em livro a HQ, por conta de seus desenhos, modifica totalmente a forma do texto, e isso é permitido já que não pode se prender a ideia original da escrita sob o risco de se tornar lento, algo que desafia o que qualquer gibi vende: sua rapidez de leitura.

Por conta de toda essa polêmica envolvendo a autora Patrícia Secco me ative a buscar obras do Bruxo do Cosme Velho para provar o quanto a alteração de simples verbetes atrapalharia o entendimento de quão genial é sua obra. E aqui não se quer tentar convencer ninguém de que sua escrita é fácil. E sua cadeira cativa no rol de grandes autores do mundo é fixa justamente por isso.

Daí o fato de que se torna um crime uma alteração mínima que seja em sua escrita.

Portanto, abaixo são listados dez contos de Machado de Assis imprescindíveis para compreender sua bibliografia:

Missa do Galo

E daí que as descrições nos textos de Machado são longas demais? Este conto maravilhoso do autor prova que isso essencial para a construção de suas histórias. Uma conversa entre um rapaz e uma mulher antes deste ir à Missa do Galo dá possibilidade de inúmeros devaneios, dele e do leitor. Brilhante!

A Igreja do Diabo

Essa não é única história de Machado de Assis em que há um diálogo amistoso entre Deus e o Diabo, mas o que torna este conto especial são as ironias e sarcasmos que se incluem nessas conversas, além da crítica velada ao estilo da própria Igreja Católica no que tange aos seus verdadeiros ideais.

A Cartomante

A citação de Shakespeare no início deste conto bem que poderia também ser “Macbeth” (e não Hamlet), mas isso estragaria seu final. A história segue Camilo numa tragédia grega transferida para o Rio de Janeiro do século XIX, mas perceber que as descrições do autor são tão imprescindíveis quanto a ação das personagens e sacramentar que sua capacidade de escrever sobre a alma humana é bem acima da média mundial.

Conto de Escola

Este conto prova de que Machado de Assis não pode ter modificações em sua escrita, pois ele poderia acompanhar os mesmo personagens em qualquer época da História, mas se não tivesse o texto dele não teria a mesma excelência. Falar de uma simples falta à escola com tanto conteúdo estilístico e figuras de linguagem tão bem explicitadas não é para qualquer um. Somente ele consegue desse jeito.

O Alienista

Simão Bacamarte, o alienista, é um médico que, depois de frustrar-se com a falta de filhos em seu casamento, resolve dedicar-se ao estudo da neurologia. É a partir disso que se inicia uma narração centrada na investigação da insanidade humana, dele e dos outros. A descrição é bem-feita do retrato da sociedade carioca daquela época, mas também uma profecia do que se tornaria a sociedade tempos depois.

Teoria do Medalhão

O diálogo entre pai e filho na noite em que o último completa a maioridade segue o padrão machadiano: uma análise profunda da eterna condição contraditória da alma humana. Os conselhos do pai são para que o filho mude seus hábitos, deixar de lado seus gostos e opiniões a fim de se tornar um “medalhão”, isto é, uma pessoa de fama e riqueza. Ate o final do conto é uma maneira de Machado conversar com o leitor. Depois de aconselhar, o pai pede para o filho ir dormir e pensar no que lhe disse. Uma forma do autor forçar quem o lê pensar nas escolhas que faz em sua vida. Será que você é um “medalhão”?

O Enfermeiro

Muitas vezes, Machado de Assis contrapõe dois personagens que seriam automaticamente ligados ao bem e ao mal pelo leitor. A questão é que ele analisa suas vidas, seus jeitos, sua forma de ser e percebemos que esta dualidade não existe no ser humano. É o que acontece neste “O Enfermeiro”. Procópio vai para uma cidade do interior cuidar de um velho rico e rabugento. A história é narrada pelo enfermeiro, já bem idoso e à beira da morte. A aparência com “Crime e Castigo” não deixa de povoar nossa mente, mas a forma de Machado narrar faz dela uma história bem original.

A Sereníssima República

Este conto destrincha o sistema eleitoral, mas é óbvio que se quer falar sobre o Brasil. A análise se inicia com o discurso de um cônego que vai da filosofia de Aristóteles à ciência do Darwinismo. Uma maneira de Machado falar sobre vários assuntos sem que deixe de promover uma discussão sobre a sabedoria. E as aranhas têm um papel importante na história por serem citadas na oratória do religioso como tecelãs “que vislumbram o dia em que poderão desfrutar de uma harmoniosa e incólume república.”

O Anel de Polícrates

Este conto se apoia no que seriam as limitações da felicidade humana e repete a lógica caprichosa do destino. Os relatos do personagem Cícero são exemplos de situações diversas da vida: o desapego em relação aos bens materiais e ironia diante das pequenas mentiras o nosso dia-a-dia. Além de ser um ótimo exemplar de crítica à sociedade da época. É o Machado de Assis ácido que conhecemos bem.

O Empréstimo

Uma história em que se vê versões diferentes para o papel do dinheiro na vida cotidiana. Em “O empréstimo”, o autor carioca apresenta o tabelião Vaz Nunes, em um final de expediente, recebendo a visita de Custódio, que veio lhe pedir dinheiro. O primeiro tem a capacidade de desvendar o interesse que se esconde atrás da aparência, enquanto o segundo tem a vocação da riqueza, sem que esta venha acompanhada do esforço do trabalho. Através desse confronto, é revelada a natureza de cada um deles. Também e um conto que poderia ser transportado para qualquer tempo, mas sem o texto de Machado não poderia ser igualmente genial.

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4 comentários em “Dez contos memoráveis de Machado de Assis que não devem ser adaptados por ninguém

  1. Heitor disse:

    Que espécie de jornalista escreve uma matéria sem pesquisar diretamente na fonte? Eis o texto do livro em questão: http://www.reciclick.com.br/portal/wp-content/uploads/2014/03/Alienista-completo-Pat.pdf Como se pode ver, a matéria é falaciosa!

    • Desculpe se eu não o entendi, mas você colocou um link com o conto “O Alienista”. O que você quis dizer com “não pesquisar diretamente na fonte”?

    • rildo polycarpo oliveira disse:

      Heitor, assim como Dhiancarlo, penso não entender a razão de sua indignação. Acaso Você sugere que a referência a cada uma das obras contempladas pelo texto do post deveria ser acompanhada da indicação bibliográfica? Nesse contexto e em se tratando das obras referidas pelo texto, todas elas clássicos da literatura brasileira e, ademais, facilmente acessíveis via web, devo dizer que tal preciosismo documental é supérfluo, se não improcedente. Talvez Você pretenda dizer que o autor do texto deveria ter resumido ele próprio cada uma dessas mesmas obras. Também isso é desnecessário, pois essas obras contam já com resumos de qualidade reconhecida, tais como os que constam de Os melhores contos de Machado de Assis, obra (também ela um clássico) organizada por Domício Proença Filho, amplamente aceita e já editada por pelo menos 13 vezes. Quem, conhecendo a obra, se valer da facilitação de resumos como os de Proença, não estará por isso incorrendo em nenhuma falácia. Aqui, uma outra questão se impõe: deveria Dhiancarlo acenar à autoria de Proença Filho? Penso que sim. Se eu souber citar de cor e salteado alguns versos de Os Lusíadas e entretanto não lembrar o nome do seu autor, não estarei por isso sendo falacioso, mas tão somente terei faltado com essa referência. De qualquer modo, esse é um outro assunto e a mera ausência dessa indicação não pode servir como argumento para a afirmação, esta sim falaciosa – porque desamparada de evidências – de que “a matéria é falaciosa”. Longe disso, ao recorrer a resumos de contos machadianos, Dhiancarlo articula bem a sua argumentação em defesa da afirmação de que adaptar contos do Bruxo do Cosme Velho seria incorrer em adulterações. Como se pode ver, as motivações para a implicância (permita-me o neologismo) Heitoral devem ser buscada alhures, não numa suposta negligência relativamente a fontes primárias.

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