Sunbathing Animal: A prova de fogo do Parquet Courts é de pegar fogo mesmo

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Quando se coloca o ótimo “Light up Gold” (2012) para tocar inteiro é impossível não se apaixonar pela espontaneidade desses garotos que tiveram a coragem de fazer algo cru e simples numa cena atual que prima muito mais pela necessidade de inventar, nem que seja para se produzir um resultado inócuo e desnecessário.

A obra em questão nos apresentou aos nova-iorquinos do Parquet Courts e a cena indie norte-americana adorou a ideia. Foram parar em inúmeros festivais e logo estrearam nos principais programas noturnos de entrevistas dos EUA.

Pois bem, como bem já se sabe, a carreira dos caras teve uma alavanca fora de série, tanto que o próprio “Light up Gold” foi relançado em 2013 por um selo maior e a projeção foi ainda mais avassaladora no mundinho alternativo mundial, mas ainda havia quem discordasse da crítica especializada empolgada por se tratar de uma banda nova que não passara por uma prova de fogo.

O tal registro que funcionaria como teste final para que o Parquet Courts figurasse finalmente entre as grandes bandas da atualidade viria no mês passado com o lançamento de Sunbathing Animal (2014, What’s Your Rupture?).

Nesse sentido, Sunbathing Animal parece uma continuação do álbum anterior, mas isso não pode ser considerado uma preguiça artística dos caras.

O processo de continuidade funciona quase como uma evolução musical.

Se naquela época de “Light up Gold”, o vocalista Andrew Savage e seus companheiros de banda se posicionavam numa ideia de apresentar um disco álbum forte e intenso musicalmente, cheio de raiva sonora, mas despreocupado com uma letra mais poética, agora a atmosfera desse processo evolutivo parece se impor mais naturalmente.

Aquela batida potente do baixo ainda sobrevive. A loucura vocal permanece presente e as idas e vindas da guitarra entre o peso do Fugazi e a malemolência de um Gang of Four se traduzem melhor no resultado final.
Por fim, a bateria se intensifica e passeia junto com os outros instrumentos sem que se perca no ritmo. Ainda é um som de moleques inconsequentes e isso deixa o ouvinte aliviado.

Aliás, essa variação rítmica que prevalece na obra atual ainda nos impõe nuances de nos apegar aos anos 70, 80 e 90. Os versos ditos de maneira junkie soam como muitas coisas que já se ouviu antes, mas ainda assim, possui uma identidade própria que faz valer ao lado da sonoridade do trabalho instrumental.

Há, sim, um pouco de Melvins, existe um ajustamento com as letras de Lou Reed em sua época de Velvet Underground, e alguma lembrança de Nirvana em seu início, mas Andrew Savage, Austin Brown, Sean Yeaton e Max Savage já sabem trilhar caminhos únicos através daquilo que parece terem aprendido nesses últimos dois anos.

Este passeio sonoro se inicia com os arranjos mais intimistas de “Bodies Made Of” que produzem um colorido diferente ao álbum, além de passagens de guitarra incríveis.

Por outro lado, também se encontra ali o lado engraçado no baixo-astral do tédio em “Into The Garden”, promove falas amorosas desleixadas em “Dear Ramona” e busca a pura diversão em “Always Back In Towm”.

A faixa-título, “Sunbathing Animal” é uma volta pela cidade grande, “She’s Rolling” é a tentativa de análise que fazemos das pessoas e “Instant Disassembly” é o mesmo processo só que tentando entender os sentimentos.

Há ainda as ótimas “Always Back in Town”, “Ducking & Dodging”, “What is Colour is Blood”, a quase introdutória “Vienna II”, além de “Raw Milk” e a atual música de trabalho “Black and White” (que possui um vídeo muito bacana).

No que diz respeito à produção o álbum parece ter sido gravado num supetão só, quase como se fosse ao vivo, numa característica próxima do que já havia acontecido com o primeiro disco.

Dessa forma, não há nem o “One, Two, Three, Four” que os Ramones gritavam para separar uma música da outra em seus trabalhos de estúdio. “Sunbathing Animal” é uma coisa mais rápida e crua.

Algo que li recentemente parece fazer sentido, pois o crítico dizia que algumas das faixas podiam até parecer um pouco cansativas, às vezes. Para ele isso poderia ser algo que soaria meio desconexo se escutado de maneira solta, mas no que se refere à audição do início ao fim, sem interrupção, não há o que corrigir, parece uma ópera raivosa.

Por fim, é importante mencionar que o trabalho instrumental agora tem um acompanhamento muito mais maduro por parte das letras e isso se deve a uma evolução evidente de Savage e Brown, que demonstram buscar situações do cotidiano para que seja feita uma exposição inquietante da opinião que o ser humano possui das coisas ao seu redor.

O som, com certeza, soará ainda mais interessante ao vivo e a troca de passagens mais alongadas e lentas com as empolgações sonoras mais rápidas tem mais liga ainda neste álbum.

É um trabalho extremamente seguro que ousa justamente pelo fato dos meninos não terem se separado de suas raízes e por haver a manutenção da qualidade de uma ambientação instrumental que se fazia presente anteriormente.

Black And White – Parquet Courts

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