Sepultura e seu álbum do caos

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Que o Sepultura é considerado o grupo brasileiro de maior repercussão no mundo nos últimos 25 anos ninguém tem dúvida, mas de vez em quando é bom passar a limpo a história desses caras para entender que nada aconteceu do dia para a noite.

A banda mineira de influências que vão desde o black e death metal, passando pelo thrash metal com inspirações como hardcore, nu metal, música tribal africana e até japonesa e música indígena brasileira não venceu na vida mundial da indústria fonográfica e dos festivais pelo mundo afora apenas pelos lindos olhos verdes. Teve que ralar muito.

A formação clássica da banda que continha Paulo Jr. (baixista), Igor Cavalera (baterista), Max Cavalera (vocal e guitarrista) e que desde 1987 tinha também Andreas Kisser, foi se estabelecendo no cenário do rock pesado bem aos poucos, mas através de seu carisma e da qualidade de suas músicas cativou fãs para sempre. Neste ponto os dez anos em que atuou junto foram importantes para esse respeito mundial que o Sepultura possui até hoje mesmo tendo outros integrantes atualmente.

Este elenco de ótimos instrumentistas já havia tocado, em 1991, para mais de 50 mil pessoas no Rock in Rio II, lançara, dois meses depois o retumbante Arise, que chegou a vender cerca de 160 mil cópias nas 8 primeiras semanas, tendo, ao final da turnê, chegado ao número expressivo de mais de 1.000.000 de cópias, além de ter figurado na posição 119 no top 200 da Billboard.

Não havia como esperar outra coisa senão um ótimo sucessor para tal sucesso entre os fanáticos ouvintes de metal.

É com esse estímulo e essa pressão que os rapazes entram em estúdio e lançam em 1993 Chaos AD.

A expectativa gerada para o álbum já havia rendido frutos muito antes de sair nas lojas, pois o Sepultura já era uma banda respeitada pela maioria dos metaleiros do mundo e inúmeros shows ao lado dos principais nomes do rock (Ozzy, Pantera, Slayer, Alice in Chains) já estavam marcados.

Deste modo, não dava para não se empolgar com as primeiras batidas do coração de Zyon (filho de Max) no início do álbum. São elas que introduzem Refuse/Resist, forte míssil jogado ao ar pelas baquetas de Igor Cavalera que parece se virar em dois, três para violentar sua bateria seguido de uma letra desesperada incitando a revolta bem interpretada pelo vocal de Max Cavalera.

Estamos diante de uma mudança no conceito de Inferno abordado pelo Sepultura anteriormente. Agora é aqui e agora o fogo que queima diante de nossos narizes. E o diabo é muito vivo para os nossos olhos.

São as guerras, a poluição, o poder das grandes corporações e governos ao nosso redor que fazem da nossa vida um processo infernal. A violência policial e o tormento pelo qual vivemos nas metrópoles se tornam mais reais do que os relatos dos discos anteriores.

Chaos A.D. pode ser até considerado conceitual, já que é manifestado pelas suas canções o repúdio com que são tratados os países do terceiro mundo. É um projeto altamente politizado e ciente do que está falando, além de uma iniciativa experimental no que diz respeito aos sons e instrumentos usados durante a bolacha.

Vê-se uma mistura do metal com o hardcore e o rock industrial seguido de sons mais brasileiros e uma primeira incursão pelas manifestações sonoras indígenas (mais praticado ainda no álbum Roots).

Pois bem, o registro segue com o hit “Territory” que não parou de tocar na MTV e que falava dos problemas eternos vividos pelo povo da Palestina. Tão atual e tão difícil de terminar.

Posteriormente, nos deparamos com o hino “Slave New World” contra a escravidão do mundo moderno promovido pelas mídias de massa e a forma como somos tratados pelas grandes corporações que cuidam daquilo que vamos ou não ver. Uma censura diferente no admirável mundo novo no qual começávamos a viver.

Tanto nesta quanto na música anterior não se pode esquecer da vibração e rapidez intensa de todos os instrumentistas, além do trabalho vocal quase perfeito.

“Amen” se torna mais pesada, mas menos rápida e se condensa muito bem através do trabalho de baixo e guitarra e a troca de compasso realizada por Igor. É uma oração contra a religião e suas idiossincrasias e contradições. Bela música!

“Kaiowas” é o protesto contra a situação dos índios dessa tribo que, devido a situação em que se encontravam, com a ocupação de suas terras pelo homem branco, estavam se suicidando.

A próxima música é “Propaganda” que se engaja a relatar os perigos da manipulação da publicidade na vida das pessoas. “Não, não acredite no que você vê” é o que o vocal possante que Max grita no refrão.

“Biotech is Godzilla” é um hino contra os absurdos causados pela indústria farmacêutica e a sua necessidade de perpetuar doenças.

Posteriormente, vê-se um passeio por outras influências no trabalho do Sepultura, como em “Nomad” que é lenta numa clara alusão aos riffs de guitarra do Black Sabbath dos primeiros discos e mudanças de ritmo em coerência com a batida mais africana.

Logo após, “We Who Are Not As Others” se torna um mantra hipnótico para nos mostrar que não somos como os outros, em clara relação ao papel do terceiro mundo com o restante da humanidade enquanto “Manifest” faz um relato do dia do massacre do Carundiru num hardcore que se intensifica com a guitarra mais aguda de Andreas Kisser.

“The Hunt” e “Clenched Fist” fecham o disco com o primeiro sendo um conto sobre vingança embalado por uma tendência menos trash e mais pesado de todos os instrumentos e o segundo promovendo uma luta entre o baixo de Paulo e as guitarras consonantes da banda. Desnecessário falar da excelência da bateria de Igor.

Na versão brasileira do álbum “Chaos AD” terminava com um cover dos Titãs para “Polícia”. Uma paulada de um minuto e pouco.

É importante dizer que a partir de Chaos A.D. que o Sepultura seria visto como uma vanguarda do Metal mundial tanto pelo trabalho instrumental quanto pela experimentação de sons e temas abordados.

O disco é considerado por muitos como influência básica para o que viria a ser o new metal de Korn, Slipknot e outros. Isso fica evidente pelo fato de que as afinações graves e as baterias quebradas que viriam a povoar as rádios depois possuem alguma iniciação no penúltimo álbum de Max Cavalera como vocalista do Sepultura.

O clima mais soturno do álbum também mostra que o virtuosismo da guitarra de Andréas Kisser deu lugar para novos timbres um instrumento mais minimalista e o baixo de Paulo Jr se tornava mais denso e grave com uma batida muito forte nas cordas. A fúria constante da voz de Max se junta neste disco à intensidade da bateria de Igor Cavalera, mesmo que nesse registro sonoro sua paulada com as baquetas tenha uma levada mais próxima do ritmos africanos e brasileiros do que nos trabalhos anteriores.

“Chaos A.D”. marcava um pulo mais alto do Sepultura no cenário mundial, mas também fazia com que os rapazes pudessem penetrar mais profundamente no mainstream nacional.

Pena que depois só teríamos mais um álbum (“Roots”) com a formação clássica e que todas as brigas e discórdias posteriores tenham atrapalhado a banda de reunir artistas que funcionassem tão bem em conjunto.

Refuse/Resist

Territory

Slave New World

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