O Brasil e suas ideias fora do lugar na visão de Roberto Schwarz

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Roberto Schwarz, o crítico literário nascido na Áustria, mas radicado no Brasil, já é respeitado no campo da Teoria da Literatura há muito tempo, mas também se tornou especialista da obra de Machado de Assis. Algo que o persegue desde sempre.

Já em 1977, o recém-doutor pela Universidade de Paris III lançou o ensaio “Ao Vencedor as Batatas”, estudo sobre a primeira fase do autor fluminense.

Foi com essa obra que Schwarz passou a ser chamado de continuador das pesquisas realizadas pelo professor Antônio Candido, tamanho era o encontro de ideias de seu estudo com o especialista em literatura brasileira.

No estudo que virou livro (Editora 34) ele afirma que “ao longo de sua reprodução social, incansavelmente, o Brasil põe e repõe ideias europeias, sempre em sentido impróprio. É nesta qualidade que elas serão matéria e problema para a literatura. O escritor pode não saber disso, nem precisa, para usá-las. Mas só alcança uma ressonância profunda e afinada caso lhes sinta, registre e desdobre – ou evite – o descentramento e a desafinação”.

Desse modo, o capítulo “As Ideias Fora do Lugar” do qual foi tirado o trecho acima sinaliza uma análise profunda sobre a estrutura da literatura brasileira desde os seus primórdios e quantifica o processo de apropriação do pensamento europeu em nossos escritos e o que isso promove no resultado final de nossas obras literárias.

É uma crítica forte e pesada à nossa literatura como um todo, mas também um relato capaz de fazer raciocinar acerca das escolhas realizadas pela intelectualidade brasileira numa forma mais ampla do que o pensamento apenas estilístico.

Também é uma maneira de posicionar Machado de Assis como um dos grandes (senão o maior) visionários e pensadores de nossa história nacional.

Para Schwarz, no Brasil, as ideias estão fora do lugar. Ele se baseia na filosofia de Marx a partir de “O Capital” em que “a estrutura determina a superestrutura”.

E por este prisma que ele (Schwarz) verifica que Machado analisa o social como um molde para sua literatura.

O Bruxo do Cosme Velho teria visto a grande contradição que se instalava no Brasil desde o período colonizador: a estrutura era atrasada, enquanto que a superestrutura seria adiantada e liberal. Da mesma forma que existia o absurdo da escravidão, o parlamento era pintado com cores inglesas.

Capa do Livro “Ao Vencedor as Batatas”
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Havia, inclusive, uma influência em suas decisões do que já era praticado na Europa.

O escritor de “Dom Casmurro” tinha olhos abertos para isso e, aos poucos, sua ironia e o profundo sarcasmo com que tratava a sociedade da época e a corte carioca, pululariam ás páginas de seus primeiros livros para promover uma visão da grande contradição social que Schwarz chamou de “comédia ideológica”.

Schwarz procura observar que no Brasil as ideias estavam fora de contexto histórico em relação ao seu uso europeu.

As ideias liberais, em seu artigo, não se podiam praticar, sendo ao mesmo tempo indescartáveis do ponto de vista evolucional.

A própria situação da escravatura no século XIX, e sua posterior abolição, é vista por Schwarz como focos desse emaranhado de ideias que não conseguem se condensar.

A comunidade intelectual do país tinha vergonha dessa prática, mas demorou a tomar partido e Machado de Assis se situa nesse meio apenas através de sua fina facilidade de demonstrar a podridão da sociedade, mas sem que isso fique bastante claro para aquele que lê sem o envolvimento mais profundo da análise crítica.

Há quem reclame do escritor carioca por não ter participado mais profundamente das manifestações pró-abolicionistas, mas isso é tema para outro post.

Já Schwarz, por meio de seu “Ao Vencedor as Batatas”, consegue sintetizar o pensamento de que a literatura brasileira não tenha conseguido surfar na onda da audácia de Machado tanto quanto poderia ter conseguido se não tivesse ficado encalhada numa tentativa de estruturação mais europeizada que o Movimento Modernista conseguiu conter mais à frente.

Se o leitor não quiser se aprofundar no livro completo, a parceria da Editora Penguin com a Companhia das Letras está lançando apenas o capítulo “As Ideias Fora do Lugar” em formato Pocket Book.

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