A televisão venceu: True Detective é bom pra Cacete!

 
Sim, confesso meu atraso intelectual em perceber o quão importante é True Detective para a história das séries televisivas.
 
Mas, por outro lado, ter assistido posteriormente ao programa sem interrupções acabou por ser uma atividade mais agradável e menos aflitiva do que o quem teve que suportar a interminável espera entre um episódio e outro quando passou de forma inédita na HBO.
 
Por outro lado, deve ter sido mais produtivo o pensamento lento e divagador daqueles que assistiram à obra pausadamente, já que poderiam discorrer sobre as possíveis artimanhas do roteiro e os destinos de cada personagem.
 
Pois bem, a trama está saindo agora em formato de DVD (três discos) e não está á altura da potência de sua história. Os produtores da HBO deveriam ter tido cuidado maior não só com o lançamento, mas também com a qualidade da caixa. Não há nenhuma peculiaridade no lançamento que me faça tirar do bolso os tais cem reais em média que estão sendo cobrados por aí para adquirir o produto.
 
Ou seja, quem se dispuser a desembolsar o dinheiro será mesmo pela história da série (o que também já é dinheiro bem gasto também).
 
Outros lançamentos da própria HBO como “Game of Thrones” ou “True Blood” possuem uma qualidade muito mais intensa para ser entregue aos fãs: caixas estilizadas, cartazes internos com a ficha técnica da série e material de produção adicional.
 
No que diz respeito ao produto cinematográfico em si, não há o que discutir: é uma das produções televisivas mais bem apuradas e com melhor história dos últimos anos. Junta-se a isso a atuação de seus protagonistas e do corpo de atores coadjuvantes que empolga qualquer aficionado por suspense e tramas policiais de hoje e de sempre.
 
Estamos diante de um caso típico de simbiose artística: Mathew McConaughey (o enigmático e amalucado Rust Cohle) e Woody Harrelson (o pai de família que dá suas escapadas Martin Hart) estão perfeitos como os detetives que não se encaixam como dupla nem mesmo quando engatam certa amizade. O que Cohle tem de estranho e filosófico possui também de perspicaz e calculista ao desvendar alguns dos mistérios da trama. Por outro lado, Martin Hart é aquela alma que sempre procura ajudar aos outros e se sensibiliza facilmente, mas não aguenta um rabo de saia e destrói dia-a-dia sua relação com a esposa (Michelle Monaghan).
 
A história gira em torno de uma investigação que se inicia nos anos 90 e utiliza múltiplas linhas do tempo para traçar através de 17 anos a busca dos dois detetives por um assassino em série na Louisiana.
 
Nos primeiros episódios há uma cena recorrente de dois investigadores (os atores Michael Potts e Tory Kittles) nos dias atuais realizando depoimentos em separado com Rust e Martin, algo que provoca ainda mais tensão e suspense com relação ao que aconteceu anteriormente na vida de ambos que nem se falam mais.
 
Apesar de possuir na história de Nic Pizzolatto algumas viagens meio difíceis de entender ou se fazer verossímeis, a atuação do elenco principal é tão boa que o telespectador deixa isso passar e se prende ao âmago do roteiro: a procura pelos verdadeiros assassinos e a desconstrução dos personagens de McConaughey e Harrelson.
 
A direção de Cary Joji Fukunaga é tão precisa que acaba por se empolga em algumas cenas meio desnecessárias, como é o caso do plano-sequência do quarto episódio que, apesar de lindo, cheio de ação e bem feito, é profundamente desconexo do restante da série, que se baseia mais nas falas e nas divagações entre os personagens.
 
Enfim, não é uma série para acompanhar furtivamente sem se prender a ela: ou você se conecta profundamente com a vida e a atividade dos dois detetives ou se dissipa sua fluência com a história e isso pode levar ao tédio dos menos avisados.
 
A vitória de “True Detective” também se dá pela experiência de seu elenco principal que sabia desde o início que o negócio somente daria certo se realizassem a produção como se fosse um filmão de oito horas de duração sem que tivessem a pretensão de segundas, terceiras ou infinitas temporadas.
 
Ao contrário, por exemplo, de “Breaking Bad” que necessita de uma análise paulatina e gradativa da transformação psicológica e da personalidade de seu personagem principal, com True Detective acontece o inverso: nós vamos nos dando conta de que aquela casca mostrada dos protagonistas é apenas um invólucro para o que já está lá dentro desde sempre e meio que parafraseando o Dr House (para ficar em outra série) “Pessoas não mudam”.
Dessa forma, a tal desconstrução que se realiza ao longo dos oito capítulos da série não é em relação às características dos personagens e sim em relação ao que achávamos quem eles eram.
 
Uma pena que a indústria da televisão, apesar de tão criativa atualmente, ainda peca pelo conservadorismo nas premiações e não tenha promovido uma dobradinha de Oscar e Emmy para Matthew McConaughey que está perfeito em seu papel e que é alavancado pela experiência técnica da atuação precisa de Woody Harrelson.
 
Já pode ser considerado um marco para a televisão nessa década, ao lado de outras pérolas como “Breaking Bad” e “Game of Thrones”, cada um na sua área.
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