“The Queen is Dead” ou “O tempo em que Morrissey e Johnny Marr olhavam um na cara do outro”

O que faz uma banda ser necessária para a música? O que um artista precisa para ser genial? Quando sabemos que a coisa está degringolando?
 
Estas perguntas acima podem ser respondidas de diversas formas por fãs e críticos, mas elas só seriam absolutas se as pessoas envolvidas tivessem a mesma ideia sobre os acontecimentos.
 
No caso dos Smiths, a situação então teria que ser analisada com mais parcimônia por Morrissey e por Johnny Marr, mas, visto que nem se falam mais, seria impossível chegar a um veredicto.
 
E se por acaso eles concordassem em alguma coisa nos dias atuais é óbvio que já estariam com a banda na ativa novamente.
 
Então esqueçamos as perguntas iniciais e nos atenhamos ao foco da questão: “The Queen is Dead” é um álbum que, se não chega à perfeição, está muito próximo disso.
 
Tudo convergia para isso: o momento da Grã Bretanha pedia uma obra de protesto importante ao governo trabalhista e à monarquia, a voz de Morrissey era perfeita, o som tirado da guitarra de Johnny Marr, além de inventivo, era também empolgante, e Andy Rourke e Mike Joyce seguravam bem a cozinha do grupo.
 
Além disso, o carisma de Morrissey era evidente e sua beleza fazia as fãs se desmancharem em frente ao palco. Para que o negócio ficasse ainda mais interessante, as letras das músicas eram ótimas e até mesmo a capa do disco dizia muito a respeito (uma foto de 1965 de Allan Delon deitado como se estivesse morto) fazendo com que a provocação fosse uma das marcas fortes da banda britânica.
 
“The Queen is Dead” já era o terceiro álbum de estúdio da banda e por isso puderam criar mais ao longo da produção.
 
O lançamento acontece em 1986 e os integrantes visualizavam aquele período como uma possibilidade de libertação das tradições aristocráticas da Inglaterra. Para eles podia ser o fim do período do tédio inglês.
O disco é o auge criativo de todos os envolvidos com os Smiths, não podendo deixar de ser aclamado até hoje como um dos melhores discos de todos os tempos realizados no Reino Unido, ao lado de clássicos dos Beatles, Rolling Stones, Black Sabbath, The Clash, Led Zeppelin, entre outros.
 
A faixa-título, que abre o disco de forma arrasadora, apresenta-se como um rock potente através de várias camadas de guitarra conduzida milimetricamente por Marr. A letra já destila o veneno em cima da Inglaterra dos anos 80, criticando instituições fortes como a monarquia e a igreja, produzindo um forte protesto em relação a todo o conservadorismo do governo daquele país.
 
Ao final da música Morrissey declara que “A Rainha está morta, e é tão solitário no limbo; A vida é muito longa quando você está sozinho”. Um poço de dualidade entre o otimismo e o pessimismo.
 
“Frankly, Mr. Shankly” foi escrita ironizando Geoff Travis, dono da gravadora independente Rough Trade, responsável por todos os discos dos Smiths. Através do pseudônimo ‘Mr. Shankly’, Morrissey ridiculariza o cara por meio de uma sonoridade mais alegre que soa diferente em relação ao restante da obra.
 
A terceira faixa é um contraponto com a anterior e nos presenteia com uma balada soturna e tensa: “I Know it’s Over” é considerada por muitos uma obra prima dos Smiths na qual Morrissey pede consolo a sua mãe por estar sozinho, sem amor, apesar de ser inteligente e divertido. Uma tristeza só.
 
Daí, temos na sequência “Never had no one ever”, balada lenta em que a guitarra de Johnny Marr compassa bem e se junta com a timidez do baixo de Rourke e a marcação bem feita de Joyce. De novo, vemos uma choradeira bem cantada pelo titio Morrissey.
 
Chega-se à metade do disco com “Cemetry Gates”, uma canção que celebra a prosa e a poesia, e toca no tema polêmico e sempre atual do plágio por meio de uma homenagem linda ao escritor Oscar Wilde.
 
Um dos grandes singles do álbum é “Bigmouth strikes again”, que foi escrita depois que a imprensa inglesa criticou um comentário que Morrissey fez, lamentando que a então primeira-ministra britânica, Margaret Thatcher teria escapado ilesa de um atentado a bomba. Para quem está acostumado com as polêmicas causadas por Morrissey hoje em dia aquilo era muito mais ácido e explosivo e o negócio perseguiu a carreira do músico por muito tempo, como um dos principais inimigos da política britânica.
 
Outro single do álbum é “The boy with the thorn in his side”, que pode ser traduzida como “o garoto com uma pedra no sapato”. A narração do vocalista sobre a tal pedra no sapato tinha como meta atingir a indústria musical mundial, que segundo o próprio integrante da banda, nunca acreditava no que ele dizia. Trata-se de uma faixa perfeita no sentido sonoro, com as marcações de guitarra simples e singelas de Johnny Marr e um acompanhamento perfeito de Rourke para fazer espelho para a batida descompromissada de Joyce. Uma música que marca aquela década.
 
Dentre as maiores virtudes de Morrissey como letrista está sua profunda capacidade de inventar poesias cheias de sarcasmo e ironia e “Vicar in a tutu” é exatamente isso. Um divertido relato sobre um vigário que se divertia usando um saiote de bailarina. E tome reclamação da Igreja e da parcela conservadora (maioria absoluta) da população britânica. Em consonância está a sonoridade tal qual um country-folk de faroeste. Muito boa!
 
A penúltima “There is a light that never goes out” é uma canção que define bem a carreira da banda e que pode ser considerada seu maior hino.
 
Fala sobre um passeio de carro durante a noite em companhia da pessoa amada. O cenário é tão perfeito que nem a morte poderia estragar. Uma ironia que tal situação possa ser usada para explicar a história do próprio grupo. Eles funcionaram tão bem juntos que mesmo as brigas absurdas  iniciadas por Morrissey não abalam a relevância dos Smiths para o rock.
 
O disco termina com “Some girls are bigger than others”, bem conduzida pela guitarra autoral de Johnny Marr. Até hoje, Marr pode figurar entre aqueles instrumentistas com uma marca pessoal, que pode ser identificado numa canção apenas com alguns acordes sendo ouvidos.
 
Enfim, um álbum que encerra um ciclo de poderio criativo de todos da banda. Ainda teríamos como lançamento inédito de estúdio o bom “Strangeways, Here We Come”, mas mesmo aí já se podia visualizar um desgaste da atividade de todos como grupo.
 
Um dos grandes alcances históricos de “The Queen is Dead” é que em 2013 o álbum foi classificado em primeiro lugar na lista dos melhores 500 discos de todos os tempos pelo semanário New Musical Express. Na lista figuravam nomes como Beatles e Led Zeppelin, para se ter uma ideia.
 
“The Queen is Dead” – Álbum faixa a faixa:
 
1 – “The Queen Is Dead” – 6:24
2 – “Frankly, Mr. Shankly” – 2:17
3 – “I Know It’s Over” – 5:48
4 – “Never Had No One Ever” – 3:36
5 – “Cemetry Gates” – 2:39
6 – “Bigmouth Strikes Again” – 3:12
7 – “The Boy with the Thorn in His Side” – 3:15
8 – “Vicar in a Tutu” – 2:21
9 – “There Is a Light That Never Goes Out” – 4:02
10 – “Some Girls Are Bigger Than Others” – 3:14
 
The Queen is Dead
 
Never Had No One Ever
 
Bigmouth Strikes Again
 
The Boy with the Thorn in His Side
There Is a Light That Never Goes Out
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