Com Amor, Hugo

Capítulo 1 – Bons e velhos desconhecidos

Era um dia comum de inverno. Hugo tinha esperança de encontrar a rua repleta de neve, daquela neve bem branquinha que dá pra fazer anjos deitando no chão e mexendo braços e pernas. Mas a rua estava limpinha. Na verdade, estava até calor. Isso era uma coisa que ele não conseguia colocar na cabeça.

Seria um dia como qualquer outro, não fosse o entusiasmo que o garoto não conseguia conter. Era seu primeiro dia de aula!

Seguia confiante à escola. Sério, mas sem despachar seu adorável sorriso. Não levava nada nas costas, nem trazia consigo material algum.

Depois de chegar à escola e ser levado até a sala de aula, Hugo escolheu uma carteira próxima a lousa. As pessoas diziam que ele precisava usar óculos, mas ele discordava completamente. “Eu não sou cego. Enxergo muito bem”, comentava o menino.

Não levou mais do que quinze segundos para que uma mulher ruiva de jaleco entrasse na sala. Era a professora, supôs Hugo. Ela escreveu algo na lousa que ele não entendeu. Não por não saber ler, pois ele sabia e muito bem. É que eram símbolos estranhos. Mas todos pareciam compreender. Devia ser algum tipo de código secreto. Contudo, esse continuava sendo um dia especial para ele.

Com uma voz delicada a moça pediu aos alunos que desenhassem o mais importante para cada um em seu caderno.

Hugo não hesitou.

O desenho fluía em sua mente. Antes que ele pudesse perceber, já estava pronto: três bonequinhos de palito com rostos sorridentes de mãos dadas e, no topo, estava escrito “mamãe e papai”.

Ele entregou a atividade que foi recebida com espanto. Hugo não entendeu a expressão confusa da professora. Depois disso todos foram dispensados.

– Que estranho… – pensou ele – Dez minutos de aula – e foi caminhando em direção à porta.

– Espere um pouco, Hugo – disse a moça tocando-lhe o ombro – Qual é o seu nome?

– Ãhn? – Hugo ficou confuso com tal colocação.

– Você sabe quem sou eu, não é? – ela parecia preocupada.

Hugo negou com a cabeça. A mulher colocou a mão sobre sua própria cabeça e começou a puxar o que aparentava ser uma máscara que cobria todo seu rosto. Por baixo, tudo o que se via era um espaço vago, talvez um buraco negro, ou apenas uma surreal ausência de matéria.

– Me reconhece agora? – sua voz ficara mais grossa e estridente.

O medo possuiu Hugo. Ele ficou parado por alguns segundos, depois começou a tremer, mas somente quando seu nome foi pronunciado novamente Hugo começou a correr. Ele sequer sentia suas pernas, tampouco reconhecia o lugar onde estava e iria, porém sentia a inexplicável necessidade de sair correndo até não restar-lhe fôlego. A única esperança que tinha era a de despistá-lo. Na verdade nem era certo que ele estava sendo perseguido, apenas um eco lhe fazia fugir daquela sala.

Ecos gritantes. Gritantes e provavelmente imaginários.

Seu coração disparou.

Tudo ficou escuro, quieto, e tremendamente assustador.

Capítulo 2 – O lugar de sempre

– AAAH! – Hugo deu um pulo da cama, olhou em volta, estava em seu quarto – Pesadelo idiota!

Após três segundos observando em redor para ter certeza se estava realmente acordado, Hugo abraçou sua coberta contra o peito deixando a ponta arrastar no chão, sentou-se na beira da cama, tocou delicadamente seus pés no chão gelado e, um pé após o outro, dava passos curtos e silenciosos.

Estava à porta do quarto de seus pais. Hesitou um instante antes de bater na porta. Sem resposta. Empurrou a porta lentamente, de modo que o rangido produzido lhe causou calafrios.

– Mamãe? – ele deu um passo adentro – Papai? – mais outro passo.

Nada… Apenas silêncio.

Eles deviam estar dormindo. Hugo entrou no quarto e fechou a porta. Subiu na cama como em um pulo, e encaixou-se entre os dois, inicialmente em silêncio. Depois de uns dez minutos sem conseguir dormir, Hugo voltou a chamá-los. Nada de resposta. Eles deviam estar realmente muito cansados, afinal, não foi nada fácil convencer Hugo de que aquele vulto não apareceria novamente, e esperá-lo dormir levou ainda mais tempo. Enfim fechou os olhos.

– Hugo! – uma voz rouca o chamava – Hugo! – e ficava cada vez mais alta – HUGO! – até que se tornou um grito ensurdecedor!

– Sai daqui! – Hugo fechou os olhos com força – Me deixe em paz! – usou todas as suas forças.

– Hugo? O que aconteceu? – a mesma voz, agora suave, o chamava. Hugo abriu os olhos lentamente, receoso.

– Mamãe? – disse tentando assimilar as coisas – O que aconteceu?

– Tudo foi apenas um sonho. Um terrível sonho.

– Onde estamos? – ele olhava em volta. Apesar da presença de sua mãe à sua frente era impossível conter o pânico de estar num lugar desconhecido.

– No lugar de sempre, Hugo.

– Lugar… – ele reparou que havia pessoas gritando e rindo sozinhas – …de sempre?

– Onde você sempre deveria estar.

– Para sempre? – Hugo fechava os olhos involuntariamente.

– Isso mesmo. Para sempre.

Hugo abriu novamente os olhos. Estava no quarto de seus pais. Maldito pesadelo! Ele simplesmente não aguentava mais isso.

Um raio de luz fosca entrava no quarto por uma brecha na janela. Quatro e meia da manhã, deduziu Hugo. Estava decidido em ficar acordado até que amanhecesse e pudesse contar tudo para mamãe e papai, mas acabou cochilando.

– Hugo, não é? – cochichou para o teto – Esse é o meu nome, certo?

Capítulo 3 – A proposta

Desistiu de continuar dormindo ou de ter pesadelos. Estava sozinho na cama. Saiu do quarto e desceu as escadas bem devagar, prestando bastante atenção em qualquer detalhe possivelmente perigoso. Chegou à sala, pegou o controle remoto e pulou para o sofá.

Na televisão não tinha nada de interessante, ao contrário, cada canal com péssimas notícias só fazia Hugo querer voltar a dormir. Mas ele não podia. Com certeza seus pesadelos eram bem mais assustadores. Finalmente achou um programa infantil, não totalmente agradável, mas certamente menos pior.

– Hugo – um sussurro o chamou.

– Ãhn?

– Hugo… Hugo… Hugo…

– Quem está aí? – ele estava claramente assustado.

– HUGO! – o último grito fez com que os olhos de Hugo se fechassem forte, bem fortemente, tão fortemente que chegou até a doer. Então, abriu-os novamente.

Estava numa sala. Tentava decidir o que era mais assustador: o branco imaculado que cobria as paredes ou a ausência de qualquer objeto. Decidiu então que o vencedor seria a criatura à sua frente. Nada se via além de um manto negro sobre si.

– Seja bem-vindo… – olhou em volta -… ao lar.

Hugo podia jurar que no intervalo de palavras ele ouvira uma risada ao longe.

– Q-que lugar é esse? – gaguejou.

– Não reconhece? – soltou uma risada cínica – É uma pena – percebeu o pânico nos olhos do garoto e retornou à sua fala séria – Pois bem, há um motivo para você estar aqui. Quero lhe fazer uma proposta – Hugo olhava para ele, de modo que interpretou a expressão como um “prossiga” – Sabe aqueles seus pesadelos? Eu posso sumir… Com todos eles!

– Mentiroso – sussurrou.

– Mentira? Cadê? Em mim? – começou a rir.

– Você está mentindo. – encarava o ser à sua frente. – Era você nos meus pesadelos. O tempo todo.

– Você não entende mesmo, não é? – soltou um riso discreto que ecoou pela sala e fez com que Hugo sentisse um calafrio. – Ora, ora. Só quero te ajudar.

Acredite, algo bem pior poderia acontecer se eu não aparecesse. E eu posso sumir da sua vida para sempre, só precisa aceitar minha proposta.

– Qual proposta? – Hugo começara a pensar se valeria a pena.

– Ah, nada demais. Só quero sumir com um problema aqui, outro ali. Nada que te faça falta onde você está. – Hugo parecia medir a ideia – Aceita?

– Hmm… O que tenho a ganhar?

– Sumirei da sua vida para sempre. E o que você tem a perder?

– Eu acho que nada.

– Então… – a criatura lhe estendeu a mão – o que me diz?

Hugo respondeu ao aperto. Ele tinha certeza de que era só mais um daqueles pesadelos, e que essa era a única maneira de acordar. De repente, tudo escureceu.

“Pesadelo idiota!”, ele pensou, depois emudeceu.

Capítulo 4 – Algo mais assustador que groselha

Depois de um tempo, Hugo voltou a ver as coisas. Era como se as luzes do mundo tivessem se acendido novamente. Percebeu que estava do lado de fora de casa. A porta se abriu. Ele devia entrar, pensou.

– Seja bem-vindo! – disse o ser de outrora como se Hugo fosse uma visita

– Ãhn? – Ele olhou em volta e se certificou se não havia nada de estranho.

Deu uns passos a frente e esperou uns segundos até que a conversa continuasse. Percebendo que não receberia resposta, Hugo olhou em volta novamente, e agora andava pela sala de estar, como se procurasse alguma coisa. Aproximou-se do sofá e percebeu que havia duas pessoas sentadas.

– Mamãe? – silêncio – Papai? – nada.

Colocou-se na frente da televisão desligada e começou a balançar os braços, pular e gritar. Parecia que Hugo era invisível. Como última tentativa resolveu chacoalhar o braço dos dois.

– Que estranho… Não está tão frio assim hoje. Por que é que vocês estão tão gelad… – tudo se escureceu novamente. Hugo soltou um grito involuntário.

A claridade retornou. Hugo não estava gostando nada daquela brincadeirinha de mau gosto.

O vulto se transportou à sua frente com uma bola de cristal em mãos, tomando totalmente a atenção do garoto. Apontou para o lado, Hugo olhou. Uma poça de líquido vermelho. Ele demorou um pouco para seguir o rastro e chegar até o outro lado da sala.

Estava sem reação. Não podia fugir, nem gritar, tampouco pedir ajuda. As únicas pessoas que lhe poderiam ajudar estavam caídas aos pedaços à sua frente, banhadas com algo um pouco mais assustador que groselha.

– Eu quero acordar agora! – gritou expressando seu pânico. Fechou seus olhos fortemente, muito fortemente.

– Quero sair desse pesadelo! – sentiu uma mão em seu ombro.

– Acalme-se, garoto. – ria ironicamente – Olhe – mostrou a bola de cristal para Hugo. Se ele chegasse bem pertinho ela poderia ouvir alguns gritos abafados.

-O que você fez com eles? – Hugo enfiara seu pânico no bolso e agora estava disposto a fazer o que fosse necessário, mesmo que o necessário fosse gritar tão alto até perder a voz. – Me diz! O que você fez?

– Bem… Apenas… paguei-lhes uma dívida do passado. – Hugo não parecia convencido – Você é criança demais para entender.

– Eu não sou criança. – disse calmamente – Eu já tenho dez anos.

Aproximou-se do vulto, tomou o objeto de sua mão num gesto rápido e com toda sua força o jogou no chão.

Parecia que havia aberto uma bomba de fumaça e ativado uma sinfonia de vozes horríveis.

-Até logo – ouviu por último e desmaiou.

Capítulo 5 – Diga adeus aos pesadelos

Hugo acordou. Estava sentado. Percebeu que seus braços e pernas estavam atados a algum tipo de raiz.

– Reconhece este lugar? – Hugo procurava a voz em silêncio.

O vulto se colocou à frente do garoto e um portal se abriu atrás dele. Era a sala de estar de Hugo com os corpos esquartejados jogados ao chão.

– O que… aconteceu? – ele tentava lembrar como foi parar ali. De repente uma onda de memórias inundou a cabeça de Hugo. – Foi você, não é?

– Claro que sim.

– Mas por quê?

– Olha garoto, essas situações que envolvem negócios são muito complicadas para você. Porém, essa é a hora de eu cumprir a minha parte do trato.

– Como eu sei se posso confiar em você?

– Você não pode, mas o trato está feito. Sumirei de sua vida para sempre. – instantaneamente Hugo percebeu que estava muito calor ali e havia várias pessoas gritando, e talvez até chorando.

– Então vai me deixar voltar pra casa?

– Também não é bem assim, garoto. Lembre-se de que são negócios. Você não leu as entrelinhas?

O vulto entrou pelo portal e se ajoelhou perto dos dois corpos. Retirou seu capuz e um rosto começou a aparecer. Hugo se sentia olhando em um espelho ao ver tamanha semelhança. Seu reflexo começou a chorar enquanto Hugo não entendia o que estava acontecendo.

– O que você está fazendo? Deixe-me sair daqui!

As cordas que prendiam Hugo se soltaram, porém ele estava bem mais distante do portal desde que ele acordara, e o portal estava se fechando. Hugo corria em direção a ele na esperança de voltar para casa. Depois de correr por um bom tempo Hugo se cansou, mas parecia não ter saído do lugar. Desistiu de correr.

– Tudo o que eu queria era parar de ter esses pesadelos idiotas! – murmurou consigo mesmo

O vulto então penetrou os olhos de Hugo de modo a deixá-lo paralisado. E sua voz ecoou por todo o local.

– Boa sorte no Tártaro!

Então, soltou uma risada terrivelmente assustadora que fez com que o garoto sentisse um calafrio percorrendo toda a sua espinha.

Hugo sentia seus pés queimarem e seus ouvidos passaram a doer com todos os gritos de pânico à sua volta. O vulto começou a passar o dedo no líquido do chão. Era como se seu universo agora se resumisse à sala em que estava, e como se Hugo fosse invisível.

– Foi para o nosso bem – disse o vulto com a voz de Hugo deixando algumas lágrimas se misturar com o sangue.

Hugo continuou andando com suas últimas forças. Quando estava bem perto do portal conseguiu ver por sua última brecha o vulto bem de perto. E antes que o portal se fechasse totalmente Hugo viu seu reflexo escrevendo delicadamente no sangue frio de seus pais. Deixou uma lágrima rolar, emudeceu.

Enfim, seus joelhos cederam. E antes que seus olhos se fechassem e tudo se escurecesse novamente ele conseguiu ler o que o outrora vulto escrevia. E dizia: “Com amor, Hugo”.

Karina Ab – 9E

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18 comentários em “Com Amor, Hugo

  1. Esterzinha zika da balada $$$ Rocha disse:

    *O*
    Oi migs, vim aqui votar na sua história porque sou fã dela desde que você me mostrou pela 1° vez
    2bjs aí loví iu

  2. um oferecimento DEEEELTA stardust disse:

    oi rogrigueeeexxx,hugueeettyyy si ferrou,mai se salvou

  3. pernas d moçoila-dicas d beleza,gwiyomi e depilação disse:

    um oferecimento TRIAANGULOO stardust,amo-ti essa historieta DDD: ❤

  4. Muitas reviravoltas e um final perspicaz. Muito boa, Karina!!!

  5. Gosteii dessa Historia . Voto e aprovo essa historia De terror , minhas preferidas
    Beijos
    Missionária ( Tu que me chama u.u )

  6. Kev disse:

    Simplesmente incrível. Adoro a sua escrita, Azula! xD

  7. Mayara Fernandes disse:

    Daora, estranho, envolvente e assustador haha ♥

  8. BekaBbk disse:

    Pera, pera, pera. tem tantos pesadelos sem dormir, tantas vezes que ele acorda e parece acordar em outro pesadelo… buga o cérebro de quem não está acostumado. Tortura psicológica vey ;-; pro Hugor principalmente kk
    E, só para esclarecer.. quem matou os pais foi ele mesmo? O reflexo que ele via era o vulto sem o capuz? Ouve algum momento desde quando ele entrou na sala que ele saiu? Pq constantemente falava como se ele ainda estivesse em uma sala. Desculpe as perguntas, gostei da história em si… vc tem uma ótima escrita, muito criativa! Onde eu, uma mera mortal, conseguiria algo que chegasse aos pés disso? Não se tem nem oque discutir. Se tive problemas com a coerência ou msm em entender o final, foi pq eu não estou acostumada com histórias assim :/
    Parabéns pela história o/

  9. joel disse:

    parabens incrivelmente otima

  10. May Ramos disse:

    Show ><

  11. Mariana disse:

    Me vi um pouco na história com meus constantes pesadelos, haha.
    Eu nunca li uma história nesse estilo macabro antes, me senti assistindo a um filme de terror cheio de elementos psicológicos, adorei! Obrigada pela boa leitura e boa sorte no concurso!

  12. Lucas disse:

    Parabéns muito boa historia.

  13. Anderson Munroe disse:

    gostei adorei muito incrivel em Karina

  14. Helen disse:

    Muuiiito legal .. kk , Amei Karina !!
    😉

  15. BarbaraC disse:

    Gostei muito até agora, mal posso esperar para ler mais! 😛

  16. Barbara Cristina disse:

    Gostei , legal mesmo !!!

  17. Julio Cesar disse:

    maneiro

  18. Mayumi-Chan disse:

    Gostei muito :3

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