“In Utero”: o último suspiro do rock através das derradeiras palavras de Kurt Cobain

O que faz a maior banda do mundo depois de ter vendido milhões de cópias de seu último disco?

A maioria pode sentar em cima do seu sucesso e fazer mais do mesmo, realizar turnês caça-niqueis ou simplesmente nadar em dinheiro.

O Nirvana tinha exatamente a condição relatada no primeiro parágrafo quando começou o ano de 1993. E os louros de sua vitória não eram apenas musicais: o estilo dos integrantes era plagiado pela maioria dos adolescentes do mundo daquela época, as frases de Kurt Cobain eram repetidas exaustivamente pelos gurus da música e a MTV amava a banda por sua rebeldia que vendia bem.

Tudo muito bom e extremamente rentável aos três representantes de Seattle.

A gravadora Geffen, detentora dos direitos do grupo, queria algo novo para aproveitar o sucesso dos caras, tanto que no ano anterior havia lançado um álbum de sobras dos primeiros dois trabalhos do Nirvana chamado “Insesticide”, já que Cobain, Grohl e Novoselic demorariam para lançar coisa nova. Valia tudo para surfar na onde grunge do Nirvana.

A coisa era tão séria que bandas como Pearl Jam, Soundgarden, Alice in Chains, Mudhoney e Screaming Trees saíram dos buracos empoeirados da cidade fria localizada no estado de Washington para fazer tours pelo mundo graças ao anseio da indústria em achar novos Nirvanas. Claro, não foi só por isso, mas que teve um empurrãozinho isso teve.

Desta maneira, a resposta dada por uma grande parte dos artistas do mainstream mundial seria a do segundo parágrafo para satisfazer os donos da fonografia global.

Mas estamos falando de Cobain, um cara extremamente genial e genioso. Uma pessoa difícil de lidar, mas extemamente sincero naquilo que fazia e dizia.

Tratava-se de um cara confuso com sua própria vida, muito por causa de uma depressão que aumentava naquele momento, mas também pela ideia de que estava traindo todo o movimento underground de onde surgiu e que tinha medo de decepcionar não só aos seus fãs mais antigos como aos ídolos alternativos de grupos como (the) Melvins, Mudhoney e Pixies,

Na cabeça de Cobain o que girava era uma ideia de que sua banda precisava parar de crescer, voltar às origens.

“Que se foda a indústria, que se fodam os fãs de ocasião” – dizia o diabinho que habitava na mente dele.

E foi mais ou menos o que Cobain fez: ele queria um trabalho sujo, uma sonoridade mais próxima das bandas de garagem das quais ele gostava e tentava ser parte, um estilo mais próximo do punk rock e da simplicidade de tocar os instrumentos com menos efeitos de estúdio.

Trocando em miúdos. Ele queria um Nirvana mais roots. E o terceiro álbum de inéditas sai disso tudo.

Para capturar um som mais natural, o grupo contratou o produtor Steve Albini Albini para gravar “In Utero durante um período de duas semanas, em fevereiro de 1993, no Pachyderm Studio em Cannon Falls, Minesotta.

Todas as canções do álbum foram gravadas muito rapidamente quase sem efeitos de estúdio.

Assim que as gravações terminaram não foram poucas as notas da imprensa especializada sobre um possível veto da gravadora ao álbum, muito por conta do resultado não ser comercialmente viável. Embora o Nirvana negasse publicamente as declarações, o grupo não estava totalmente satisfeito com o som que Albini tinha capturado. Albini se recusou a alterar o álbum novamente e então, a banda contratou Scott Litt para fazer pequenas alterações para o som do álbum e o remix dos singles “Heart-Shaped Box” e “All Apologies”.

Curiosamente, a primeira canção citada foi a escolhida como carro-chefe do disco.

Após o lançamento, o álbum entrou no 1º lugar da parada Billboard 200 e recebeu aclamação crítica como uma drástica mudança de Nevermind. O álbum foi certificado cinco vezes platina pela Recording Industry Association of America, e já vendeu mais de quatro milhões de cópias nos Estados Unidos.

Na boa? O álbum não é um clássico do rock por causa da sua qualidade em todas as faixas. Ele soa até meio irregular, mas a coragem e tentativa de volta às raízes efetuada por Kurt Cobain e assinada embaixo por Dave Grohl e Krist Novoselic é algo para ser louvado numa indústria que engole seus ídolos e os vomita em forma de produto jogado em prateleiras para consumo rápido e voraz. E é por isso que ele está aqui na sessão de álbuns clássicos. Não é somente uma auto-sabotagem, mas um trabalho sincero de uma mente genial perturbada.

É realmente um dos últimos suspiros desse estilo de fazer rock, algo que, de fato, morreu.

No que diz respeito às letras, “In Utero” é mais específico quanto aos seus temas. Enquanto “Nevermind” dava conta de assuntos ligados à adolescência e aos problemas ligados a esse “teen spirit”, com este último trabalho Cobain fala muito de si. Muito por causa da culpa que sentia por ter modificado o seu som em favor de uma maior comercialização, mas também por se considerar uma pessoas fora da caixinha que é este mundo. Ele não conseguia se encaixar nos padrões pré-definidos da sociedade e sofria muito com isso. Até mesmo seu relacionamento atribulado com Courtney Love parece influenciar na poesia do álbum.

Logo na abertura, a primeira nota de “Serve the Servents” parece demonstrar que não se trata mais do Nirvana de “Nevermind” por meio de uma guitarra propositalmente desafinada e mais suja. Além disso é uma canção que solta frases como “I tried har to have a father but instead I had a dad” para deixar clara a intenção autobiográfica de Cobain no trabalho todo. nesste caso um relato sobre a relação conflituosa de Kurt com Don Cobain, seu pai.

“Scentless Apprendice” é a única música creditada a Krist Novoselic e Dave Grohl, além de Kurt Cobain. A faixa inicia com um solo bem compassado de bateria feito por Grohl, mas logo surgem a guitarra e a voz sujas do vocalista. A letra parece falar em códigos sobre algo da infância de Kurt e, provavelmente, acerca de seus traumas familiares.

Mas o que a indústria queria eram hits e “Heart-Shaped Box” é perfeito neste sentido. Além de possuir um vídeo-clipe lindo visualmente falando, também promove certo alinhamento sonoro com “Nevermind”, apesar de ter um refrão altamente pesado e forte sonoramente. Essa foi uma das concessões do líder da banda para os diretores da Geffen, até por que ele mesmo não havia gostado da primeira versão dessa e de outras músicas.

Em seguida temos a potente e polêmica “Rape Me” que faz com que o ouvinte seja obrigado a ouvir o eu-lírico da canção pedir insistentemente para ser estuprado. Na verdade, era uma provocação de Cobain ao mesmo tempo em que pode ser interpretado como a sensação do viciado em relação à heroína, principal droga com a qual o vocalista tentava fugir de sua realidade. É uma canção muito bonita e cantada com profundidade.

A incapacidade de algumas plateias entenderem que a letra não é uma apologia ao estupro promoveu a necessidade da banda explicar antes de algumas apresentações que era contra o estupro.

A microfonia prossegue com “Frances Farmer Will Have Her Revenge On Seattle”, homenagem à atriz local que teve certa fama em Hollywood na década de 30, mas que passou seus últimos dias de vida por vários hospitais psiquiátricos. A vida de Frances se tornou uma obsessão para o músico, não sendo nenhuma maluquice achar que o nome de sua filha seja em homenagem à antiga estrela de Seattle.

A próxima canção, “Dumb”, que ficou mais conhecida por conta da versão acústica do álbum feito para a MTV, retorna aos tempos de escola de Kurt e de sua dificuldade de se encaixar no padrão aceito pelos outros meninos. Assim como “Rape me” e outras faixas do disco há citações que não foram bem aceitas pelos críticos mais conservadores, pois cita uma passagem em que o nosso herói grunge pede para cheirar um pouco de cola. O baixo pesadão de Novoselic também é bem marcante.

Posteriormente, o disco é invadido por “Very Ape”, “Milk it”, “Pennyroyal Tea” (que inicia lenta, mas descamba para a paulada) e “Radio Friendly Unit Shifter” – músicas que acompanham a linha de dissonância sonora e microfonia e que soam bem estranhas e de certa confusão melodiosa numa primeira audição.

Uma curiosidade sobre “Pennyroyal…” é que o tal chá do título é abortivo pode ser uma figura de linguagem para falar da necessidade de Kurt evitar todo o sofrimento pelo qual vinha passando. O chá em questão o traria morto ao mundo.

Há de se reparar que a bateria mais seca de Grohl e o baixo acelerado de Krist auxiliam na audição de um som mais sujo.

“Tourette’s” – música escrita e composta com base numa doença conhecida como “Síndrome de Tourrete”, na qual seus portadores incontrolavelmente distribuem palavrões e resmungos é uma bela desculpa para Kurt Cobain desferir alguns gritos que parecem desconexos, mas que alguns juram que eram direcionados à sua esposa.

O segundo single do disco ficou a cargo de “All Apologies”, um pedido de desculpas de Kurt Cobain a todos do mundo alternativo que consideravam que o rapaz havia se vendido às tramoias comerciais da indústria fonográfica. Realmente, trata-se de uma tentativa de Cobain ficar bem com um universo do qual nasceu artisticamente e para o qual sonhava retornar. Algo humanamente impossível após o sucesso de “Nevermind”

Por último, há uma faixa-bônus chamada “Gallons Of Rubbing Alcohol Flow Through The Strip” que havia sido gravada nos estúdios da BMG Ariola do Rio de Janeiro durante a conturbada e histórica passagem da banda pelo Brasil em 1993. A canção soa mais como uma jam session efetuada por músicas bêbados e com instrumentos propositalmente desafinados do que uma música trabalhada para um álbum. É, de fato, um pandemônio sonoro tal qual uma montanha russa que ora se baseia na lentidão com que guitarra e bateria são tocados ora se fixa no baixo quase imperceptível de Krist Novoselic que situa para onde devem ir Cobain e Grohl.

Por ser o último trabalho de estúdio do Nirvana é claro que “In Utero” pode ser superdimensionado por algumas pessoas, mas não podemos esquecer em que contexto ele foi criado e de que maneira ele é conduzido por Cobain. A participação de Krist Novoselic e Dave Grohl parece ser a de bombeiros que tinham de lidar com a genialidade e o gênio do cantor e que sabiam estar diante de um vulcão prestes a ter uma erupção.

Mas “In Utero” tem sua qualidade através de um trabalho sincero e cheio de letras importantes para a história do rock e acaba por ser um álbum formador de ótimas músicas. Se há estranheza e experimentações atípicas para um grupo que já convivia há algum tempo no mainstream é também a vontade de fazer jus ao seu berço alternativo que essa produção pode ser considerada relevante para a história da música.

O adeus de Cobain que se tornou o maior representante do rock de sua época e o último suspiro do rock da maneira como conhecemos até os anos 90. Ele nunca mais foi o mesmo, sem dúvida!

“In Utero”

1 – “Serve the Servants”

2 – “Scentless Aprentice”

3 – “Heart Shaped Box”

4 – “Rape me”

5 – “Frances Farmer Will Have Her Revenge On Seattle”

6 – “Dumb”

7 – “Very Ape”

8 – “Milk It”

9 – “Pennyroyal Tea”

10 – “Radio Friendly Unit Shifter”

11 – “tourette’s”

12- All Apologies”

13 – Gallows of Rubbing Alcohol Flow Through the Strip”

Heart-Shaped Box

Rape Me

All Apologies

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