“Interestelar”: o abacaxi espacial

 
Confesso que tinha desistido de Christopher Nolan desde “A Origem”, mas como este “Interestelar” era uma das estreias mais aguardadas do ano e tinha como estrela principal o ressuscitado Matthew McConaughey dei um crédito à produção e fui assisti-la.
 
Também é importante salientar que fui, de certa forma, influenciado pela excelente análise do parceiro André Barcinski que, em seu blog, cometeu um dos melhores textos sobre cinema de 2014 com o maravilhoso título “Didi, Dedé, Mussum e Christopher Nolan”.
 
Está bem que Barcinski desce o reio no filme, mas a sua crítica é tão bem construída que é impossível não lembrar dela durante a rodagem da película, algo que farei o possível para evitar nas próximas vezes em que for ao cinema, pois isso interfere no meu próprio texto.
 
Além disso, o filme foi vendido como o projeto mais ambicioso da carreira do diretor. Sabendo de sua megalomania e de seu apreço por promover discussões filosóficas em seus trabalhos fiquei especialmente tentado a verificar o produto final.
 
Realizadas todas essas ponderações iniciais não há como negar: “Interestelar” é o pior filme deste ano.
 
Claro que não vou compará-lo com qualquer comédia brasileira com Leandro Hassum ou a nova incursão de Regina Casé no cinema com seu neo-clássico “Made in China”.
 
É obvio que falamos aqui de produções distintas. Uma mambembe e sem o mínimo esforço para ter qualidade e a outra favorecida pelos milhões e milhões de dólares injetados pela indústria cinematográfica americana.
 
Nolan tem à sua disposição todo e qualquer investimento possível para fabricar seu bem de consumo, fruto também da bilheteria que já conseguiu angariar ao longo da carreira, tanto que “Interestelar” é seu pior lançamento desde “Amnesia” com um retorno pouco menor do que 60 milhões de dólares, somente nos EUA.
 
Pois bem, espera-se que uma atividade rodeada de tanta grana também possua qualidade em seu roteiro, elenco, direção e estética. Nem falo a respeito dos efeitos sonoros e visuais, pois estes são perfeitos, mesmo que possamos argumentar são utilizados de maneira equivocada ali e aqui.
 
A qualidade estética também pode ser absolvida já que os filmes de Nolan (e este não foge ao esquema) têm esse adjetivo quase que no superlativo, situação que confere pontos também à direção, afinal de contas, o rapaz não é somente um louco grandiloquente e possui seus méritos artísticos.
 
Mas uma parte do elenco e o roteiro são pontos fracos demais para um filme tão grande.
 
A escolha de Anne Hathaway como a mocinha do filme confere tanto açúcar à história que você pode ter elevada sua taxa de glicemia ainda na metade do filme, mas ela é bem atrapalhada pelo seu papel, uma cientista que acredita mais no amor do que na razão. Não que não possa haver cientistas mais sensíveis pelo mundo afora, mas que os roteiristas carregaram nas cores amorosas com ela isso não há dúvida.
 
Além disso, temos um McConaughey meio inquieto com seu papel de piloto da NASA que vira fazendeiro e depois volta a pilotar para a agência americana. Aliás, o modo como tudo isso acontece é tão inverossímil que nem em desenhos da Disney a coisa é maniqueísta a este ponto.
 
Outra coisa que me incomoda na escolha do ator e que pode parecer algo estranho para quem ainda não assistiu ao filme é que quando ele está de capacete no espaço ele se torna indefectível e confunde um pouco o telespectador. Isso pode parece fútil, mas quando você assiste a um filme de ficção científica em que as coisas precisam se tornar claras em poucos segundos acaba por fazer a diferença para pior.
 
O roteiro, enfim, é confuso e preguiçoso, sem dar muitas explicações para algumas situações, mesmo no início da produção (como o motivo para as coisas estarem naquele estado apocalíptico na Terra ou o fato que levou a essa queda de produtividade agrícola) e extremamente didático em partes em que isso seria desnecessário (em diversos momentos de alta tensão e ação alguns personagens só faltam pegar uma lousa para explicar o que está acontecendo).
 
A história trata de uma viagem estelar em que a maior missão é encontrar um novo lar para os terráqueos. A subtrama foca a relação entre o personagem de McConaughey e sua filha vivida no primeiro momento pela Mackenzie Foy e depois por Jessica Chastain.
 
Por outro lado, o fato de termos atores consagrados e bons como Casey Afleck, Michael Caine e John Lithgow em papeis que não servem criteriosamente para nada confere tons cruéis ao longa.
E transformar esse proposito todo em três horas de filmagem é extremamente uma prova da megalomania de Nolan. O fim fica parecendo as despedidas intermináveis do último “Senhor dos Anéis” em que parecia que Peter Jackson não queria se desfazer de seu brinquedinho.
 
Por outro lado, um filme de ficção-científica, e ainda mais um filme do subgênero Viagem Espacial precisa ter um pouco de imaginação para se fazer possível, mas a verossimilhança e o abraço da realidade (ou da possibilidade dela) têm que acompanhar o roteiro para que não pareça um bicho sem pé nem cabeça.
 
E esse talvez seja o pior contido em “Interestelar”. Se no início você até admite que de uma sala de reunião abra-se uma porta com um foguete por trás dela as coisas vão ficando piores e altamente pedantes.
 
As explicações para alguns dos acontecimentos vêm acompanhadas de frases que parecem ter sido tiradas de algum livro de filosofia que Nolan irá lançar em breve e algumas conversas não fazem o menor sentido. E quando cita poetas ou filósofos de verdade a coisa parece acontecer forçadamente somente com o intuito de emprestar alguma seriedade para esse pastelão.
 
Em algum momento do filme fiquei imaginando Albert Einstein ou Stephen Hawking assistindo ao filme e ambos coçando a cabeça incrédulos com o besteirol.
 
A própria explicação final para os acontecimentos que levam ao desfecho se assemelham com qualquer piada muito mais bem construída pelo Monty Python. Eu realmente acreditei que algum momento tivessem trolado a fita.
 
Essa situação dos minutos finais soa tão absurda que tenho certeza que muitos telespectadores tenham torcido para que a cena seguinte, em que o protagonista acorda num hospital, revelasse que tudo não passou de um sonho. Ledo engano, pois Nolan é teimoso.
 
Não vou me alongar muito, pois poderia entregar alguns pontos cruciais da história e acredito que esta deva ser uma análise mais relevante (se é que alguém a considerará para tal) para quem já assistiu à obra do que para quem ainda não ficou com o bumbum quadrado de tanto se revirar na poltrona durante a sessão.
 
Por fim, só quero deixar minha indignação quanto ao final do filme, pois se este a história toda é envolvida pela relação pai-filha é de se indignar que a solução para a trama seja um encontro entre ambos em que a filha manda o pai ir atrás da mulher com quem ele realizou a viagem espacial.
O pior é que ele vai mesmo. Vai morrer de diabetes o infeliz!
Veja o trailer abaixo:
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Um comentário em ““Interestelar”: o abacaxi espacial

  1. Republicou isso em Outros Sonse comentado:

    Texto postado originariamente em 11 de novembro de 2014. O Blog volta com novos textos a partir de amanhã (05).

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