Por que Jimmy Page é o maior guitarrista de banda de todos os tempos

 
Hoje não é aniversário de Jimmy Page, não é nenhuma data de suma importância para o ex-guitarrista do Led Zeppelin e nem aconteceu nada de especial ligado a este homem.
 
O motivo para este post existir tem a ver com a relevância deste fulano para o mundo da música e para o rock em especial. Liga-se essencialmente ao fato de que é muito por causa dele que os shows de arena começaram a ocorrer e outras bandas tiveram a mesma vontade de realiza-los.
 
Mas também há o proposito de simplesmente homenagear o cara que toca seu instrumento de uma forma única e pessoal e que criou conceitos e maneiras de reinventar o ato de introduzir a guitarra na música contemporânea.
 
Page já era um grande instrumentista quando ingressou no Led Zeppelin no final dos anos 70.
 
Com menos de 18 anos tinha tocado com Cyril Davis All Stars, Alexis Korner’s Blues Incorporated e com os guitarristas Jeff Beck e Eric Clapton. Nesse mesmo período, após ter recebido um convite de Mike Leander da Decca Records, Page começou a ter trabalho certo como músico de estúdio, o que perdurou por tempo suficiente para realizar trabalhos que se tornariam eternos para a história da música.
 
Trabalhou em clássicos do rock como “Twist and Shout” de “Brian Poole and The Tremeloes”, “Just like Eddie” dos Heinz e, em 1964, participou de  “Heart of stone” dos Rolling Stones, “As tears go by” de Marianne Faithfull, “Tobacco road” dos “The Nashville Teens”, “The crying game” de “Dave Berry” e “Shout”, de Lulu.
 
Há, inclusive, algumas histórias sobre possíveis participações de Page em gravações que normalmente são atribuídas a outros músicos. “You really got me” dos Kinks, por exemplo, pode ter tido o solo de Pagem, embora seja considerada como uma produção saída das mãos de Ray Davies.
 
Além disso, gravou as partes de guitarra de “Baby, please don’t go” dos Them e o solo de guitarra no primeiro single do The Who, “I can’t explain”, apesar de que, neste caso, também exista um desacordo sobre a utilização ou não dessa gravação.
 
No ano de 1965, Page foi contratado pelo mesmo empresário dos Rolling Stones, Andrew Loog Oldham. Este pulo na carreira de músico de estúdio proporcionou a Jimmy a atividade em faixas de John Mayall, Nico e Eric Clapton, através da recém-formada Immediate Records.
 
Até composições e gravações para John Williams ele realizou. Por este motivo é que se estima que Jimmy Page tenha participado em 60% das gravações de rock geradas na Inglaterra entre 1963 e 1966.
 
E é aí que acontece a virada na carreira do músico inglês.
 
Após ter sido convidado a substituir Eric Clapton nos Yardbirds em março de 1965, Page declinou a oferta e sugeriu o seu amigo Jeff Beck, mas em Maio de 1966, o baterista Keith Moon, o baixista John Paul Jones, o teclista Nicky Hopkins, Jeff Beck e Page gravaram “Beck’s bolero”.
 
Tal experiência deu a Page a ideia de formar uma banda com John Entwistle no baixo (em vez de Jones), porém a falta de um vocalista de qualidade e problemas contratuais afundaram, pelo menos por enquanto, o projeto.
 
Então a oferta dos Yardbirds ocorreu novamente e Page ficou tocando guitarra com o grupo após a partida de Paul Samwell-Smith, fazendo uma das maiores duplas de guitarristas de todos os tempos com Jeff Beck.
 
A coisa era tão genial que não durou muito por conta dos conflitos relacionais dentro da banda. A falta de sucesso comercial também pesava nessa insatisfação generalizada da banda.
 
Apesar da partida de Keith Relf e Jim McCarty em 1968, Page preferiu continuar com o grupo com uma formação mais enxuta (sob o poder dele) e com o nome The New Yardbirds. Em 1968, a banda muda o nome para Led Zeppelin.
 
Nascia a lenda de uma das maiores bandas do rock’ and roll. Através da mão pesada do músico britânico atuando como produtor, compositor e guitarrista do grupo o cara transformou um banda de virtuoses em um dos mais rentáveis sucessos da história da música.
 
A guitarra Gibson Les Paul e os amplificadores Marshall viraram uma extensão do corpo de Jimmy Page. É a partir deste momento que o uso de diversas técnicas diferenciadas, inovadoras e inusitadas para a época começaram a pipocar no som do Zeppelin. A banda se torna um projeto ambicioso e este britânico tem muita culpa para que o resultado tenha dado certo.
 
Tanto nas apresentações ao vivo quanto em estúdio variações de sons orientais como o uso de experimentações na forma de tocar os instrumentos foram essenciais para a magia contida na sintonia que os membros do Led Zeppelin passaram a ter entre eles e com o público e a crítica.
 
Não havia algo maior que o Zeppelin nos anos 70 (talvez o Pink Floyd tivesse o mesmo tamanho) e a banda virou um protótipo para as futuras bandas de  rock de arena, em especial para o chamado Hard Rock.
 
Page se tornou conhecido por sua maneira única de tocar sua Les Paul, sua outra guitarra com dois braços ou a inovação ao toca-la com um arco de violino.
 
Jimmy fazia gato e sapato dela. E ela respondia apaixonada pelo músico, algo que entra para o rol das coisas inesquecíveis que o rock é capaz de produzir.
 
Page provavelmente seja o ser humano que mais produziu riffs importantes até hoje. Podemos passar o dia todo citando passagens de músicas do Led Zeppelin nas quais a guitarra é o “ser” mais necessário.
 
A agitação de “Whole Lotta Love” (que foi considerado pela BBC inglesa como o melhor riff de todos os tempos), o clima de blues pesado de “Bad Times, Good Times”, a ambientação forte de “Immigrant Song”, a clássica profundidade de “Stairway to Heaven” ou os riffs matadores de “Bring It On Home” são todos exemplos de notas musicais que ficaram eternizadas na história.
 
Há inúmeros outros casos de canções do Led Zeppelin em que a sofisticação deu espaço também ao ritmo compassado do teclado ou do baixo de John Paul Jones ou à bateria pujante de John Bonham e há as situações nas quais a voz de Robert Plant se torna um novo instrumento no meio da balburdia sonora do super-grupo, mas nada disso faria o menor sentido e se não fosse a beleza encandecida do dedilhado da guitarra de Jummy Page.
 
“Kashmir” guarda consigo a técnica e o estudo precisos do guitarrista antenado, “Black Dog” é uma porrada com ritmo acelerado, ‘’No Quarter” é uma viagem ao núcleo do cérebro de Page,  “Dazed and Confused” promove uma confusão que arrepia cada fio de cabelo de nosso corpo.
 
Enfim, a guitarra de Jimmy Page é letal.
 
Algumas notas tocadas por ele e você já se torna prisioneiro de sua técnica e de seu ambiente. A produção do instrumentista também faz isso, com suas distorções sonoras e a limpeza com que focaliza cada uma das ferramentas (isso mesmo, ferramentas) bem manuseadas pelos integrantes do Led, mas é a facilidade com que defere golpes em sua Les Paul que a intriga faz com que cocemos nossas cabeças.
 
Aliás, ver Page tocando provoca queixos caídos até com feras como Jack White e The Edge, como pode ser visto no documentário “It Might Get Loud” de Davis Guggenheim. Veja abaixo:
 
 
As próprias paradas características no som do Led Zeppelin conseguem definir o quanto a limpeza do som da guitarra de Jimmy Page importa para a música contemporânea, já que nossos ouvidos conseguem sentir exatamente o quanto ele é frio e calculista na maneira de inventar riffs e cometer canções extremamente experimentais e que, curiosamente, tornaram-se comerciais e vendáveis igualmente.
 
Numa entrevista ano passado ao jornalista David Fricke para a Rolling Stone americana Jimmy chegou a dizer que é difícil quando perguntam a ele sobre qual a faixa preferida do Led, pois “todas elas eram as minhas preferidas. Todas foram feitas para fazer parte daqueles álbuns, (…) mas suponho que “Kashmir” deva ser uma delas. Eu sabia que não era só uma música baseada na guitarra. Todas as partes de guitarra estariam lá. Mas a orquestra precisava estar lá, refletindo as outras partes, fazendo a mesma coisa que as guitarras estavam fazendo, mas com as cores de uma sinfonia. John Paul Jones fez o arranjo. Mas eu disse: ‘John, é assim que vai ser’. Eu sabia, e eu ouvi. Como foi que Jeff Beck e eu aprendemos naquele tempo, se ele mal conseguia tocar o solo em ‘My Babe’? Nós aprendemos ao nos escutar através dos alto-falantes, no salão, com aqueles músicos. Era sedutor, sentir que você estava aprendendo junto com eles. O que fazíamos era naturalmente estender o espírito da música para as nossas próprias interpretações – eu, Jeff e Eric. Você acessa e agarra. É ótimo ouvir isso no seu próprio trabalho. Você sente que fez a coisa direito”.
Portanto, daí vê-se o tamanho da precisão e da necessidade de perfeccionismo que tomam conta de Jimmy até hoje.
 
Na verdade, ele diz que riffs saem “do nada, do éter”, mas se não houver a habilidade intrínseca na alma do guitarrista o resto se torna banal, esquisito ou apenas megalomaníaco. Vira uma coisa apenas para aparecer.
 
E se no Led Zeppelin (ou antes no Yardbirds) Page fez isso o realizou com tanta maestria que o resultado mágico conferiu à música um toque de simplicidade final que promove a qualidade da canção em si. Quem a escuta apenas por prazer não imagina quantos elementos técnicos estão incluídos ali.
 
Dificilmente teremos um guitarrista de banda novamente como é Jimmy Page simplesmente pelo fato de que é complicado suprir todas as peças com as quais ele sempre trabalhou: destreza, técnica, habilidade, perfeccionismo e criatividade são elementos imprescindíveis para estar num grupo dessa magnitude, mas saber se esconder um pouco lá atrás e conseguir reunir isso tudo para dar certo em prol de um sucesso é deveras complexo.
 
Jimmy Page conseguiu ser o dono do Led Zeppelin deixando todos aparecerem, pois sabia que sua atividade só funcionaria se deixasse fluir o trabalho dos outros também. Ele próprio diz que sentiu isso quando realizou em 1983 uma turnê com Eric Clapton e Jeff Beck e percebeu que só ele não tinha trabalho solo.
 
Pois é, mesmo o maior de todos os guitarristas pode sentir falta de um pouco de companhia para seu instrumento.
Led Zeppelin – The Song Remains the Same in Concert – Madison Square Garden – July 1973
 
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Um comentário em “Por que Jimmy Page é o maior guitarrista de banda de todos os tempos

  1. Republicou isso em Outros Sonse comentado:

    No dia do aniversário de Jimmy Page o blog republica o texto do ano passado sobre a importância deste artista único na história do rock mundial.

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