Relatos Selvagens: O melhor filme que você não verá neste ano

 
Todo ano é a mesma coisa: pululam nos cineclubes da cidade vários e vários filmes que fazem algum sucesso entre o público alternativo, mas que não conseguem ultrapassar a barreira da Rua Augusta para as salas dos shoppings e seu sistema de ar condicionado hiper-mega-gelado.
 
Além disso, mesmo estando na programação de bons cineclubes eles acabam ficando pouco tempo em cartaz já que a demanda por outros filmes encerra rapidamente sua estada por ali.
 
Deste modo, tal questão atrapalha um maior alastramento da cultura de filmes mais “cabeça” (ou qualquer outro termo que não pareça tão pejorativo), fincando cada vez mais por aí a necessidade do público brasileiro em consumir os blockbusters sem pensar no cinema como uma arte mais conceitual. A coisa se transforma pura e simplesmente em produto para ser consumido ferozmente para que dê lugar ao próximo e assim por diante, um método consumista ad-eterno.
 
Todo esse preâmbulo é necessário para falar sobre “Relatos Selvagens”, filme argentino de Damián Szifron que estreou na semana passada em pequeníssimo circuito aqui em São Paulo.
 
A película, campeã de bilheteria do ano no país vizinho, já havia estreado antes por aqui através de sua exibição na Mostra de Cinema de São Paulo no mês passado e traz ao espectador uma comédia bem diferente daquilo que se convencionou produzir para a tela grande no Brasil.
 
Se pusermos lado a lado “Relatos Selvagens” e “O Candidato Honesto” ficaremos claramente com pena de nossa produção nacional e sentiremos vergonha alheia pelos atores e pelo diretor do filme brasileiro.
 
O longa-metragem estrelado pelo onipresente Ricardo Darín ainda conta com um elenco de suporte que não deixa a qualidade cair em nenhum momento, algo que é raro quando se trata de um filme baseado em inúmeras histórias diferentes: Darío Grandinetti, Oscar Martínez, Diego Gentille e Erica Rivas, no papel de uma noiva que quer se vingar do marido, são ótimos em cada um dos seis capítulos apresentados ao longo das 2 horas de duração.
 
Todos os contos do filme apresentam um tema em comum: pessoas que se cansaram das agruras e das injustiças do cotidiano e decidem fazer justiça com as próprias mãos. Na verdade, é um pouco mais complexo do que isso, mas a expressão usada anteriormente cabe bem apenas para não deixar a coisa sem explicação.
 
É inegável que falar sobre desigualdade social nos dias de hoje pode provocar infinitas polêmicas e haverá debatedores de esquerda à direita para defender suas teses antropológicas, mas não se deve questionar os valores éticos que estão por trás de cada pequeno problema causado pela burocracia e ação indireta ou direta do estado em nossas vidas. O filme retrata como poucos outros fizeram anteriormente o quanto a loucura de nossa vida atual pode nos transformar em outra pessoa numa questão de segundos. E isso já vale o ingresso!
 
Deste modo, Szifron acertou em cheio em apresentar cada episódio por meio de um viés tragicômico. Visualizamos cenas que divertem ao mesmo tempo em que as reflexões passam pela nossa mente. A discussão sobre a injustiça social e a intolerância não se torna vazio e muito menos carregado demais e assim todos os outros problemas das cidades grandes conseguem ser vistos pelo cinéfilo sem que seja apenas desconfortável.
 
“Relatos Selvagens” nasceu com uma chancela importante já que faz parte do catálogo da produtora El Deseo do cineasta espanhol Pedro Almodóvar e seu irmão Agustín Almodóvar. Inclusive, ambos aparecem nos créditos como produtores do filme.
 
Não vou entrar no mérito da qualidade do cinema brasileiro atual, mas como dá inveja de ver uma produção tão bem feita, aqui ao nosso lado, enquanto minguamos com histórias requentadas dos folhetins globais e jogamos para escanteio (ou até mesmo para outros países) diretores talentosos que não conseguem espaço na produção existente por não atenderem à demanda de marqueteiros e publicitários das principais marcas da mídia brasileira.
 
Portanto, corra para assistir a “Relatos Selvagens”, pois não durará muito sua exibição nos dois ou três cinemas que preferiram a qualidade em detrimento do sucesso fácil e vazio.
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