Cinema: Nessas férias esqueça os blockbusters americanos e aposte tudo em “Ida”

Enquanto não começam a pulular intensamente nos cinemas paulistanos a maioria das produções indicadas aos Golden Globes e ao Oscar, a grande parte do circuito é inundado por filmes arrasa-quarteirão.

Algumas exceções são os filmes estrangeiros que saíram no finzinho do ano passado e que ainda sobrevivem graças às poucas salas especiais lá pela Augusta e Paulista.

São os casos do visceral “Relatos Selvagens” já dissecado por aqui, do criativo e lindo “Boyhood” e deste singelo e bem construído “Ida”, filme polonês motivo do post de hoje.

O filme tem direção precisa e bem segura do experiente Pawel Pawlikowski que já havia feito relevante sucesso com “Meu Amor de verão”, que por sinal possui certa semelhança estética e de condução com a da película de agora. A questão é que “Ida” é mais profundo e a lentidão como é contada sua história demonstra uma contrapartida com o cinema atual cheio de cortes ligeiros e busca incessante da mudança de espaço por parte da câmera.

A história tem seu foco em uma orfã chamada Anna que é criada num convento afastado das fortes mudanças e complicações da Polônia comunista dos anos 60 (e que já havia passado por muito sofrimento nos anos 40 da guerra) e está prestes a se tornar freira. Percebendo a iminência do acontecimento a madre-superiora do local manda que a menina vá para a cidade grande conhecer sua única parente viva, sua tia Wanda, e assim possa passar alguns dias diferentes do claustro antes de receber seus votos.

A questão é que ao conhecer a tia, uma juíza recém-aposentada, Anna descobre não só que seu nome verdadeiro é Ida, como também fica sabendo de sua origem judaica. Além disso, ao informar à tia que irá visitar a cidade onde os pais viveram e morreram, acende na única parente viva uma necessidade de realizar suas pazes com o passado e esta oferece à sobrinha carona para que juntas façam a viagem.

Com o início deste inusitado road-movie (o que confere uma leve influência do cinema de Ingmar Bergman) também somos apresentados ao temperamento de Wanda, uma ex-comunista que auxiliou muito na instalação do regime, mas que diante de toda a censura e ditadura presenciada naquele momento ela se desgarra dessa ideologia abraçando ações e conceitos libertários fazendo do seu dia-a-dia um projeto mais indicado ao anarquismo.

Titia é adepta do amor livre (relaciona-se com alguns amantes durante a história), questiona a religiosidade e o celibato de Ida e possui comportamento inusual ao de qualquer mulher naquela época. Tem postura de liderança, frequenta bares sozinha e não se acanha ao enfrentar homens de igual para igual.

Tudo isso choca Ida. Ao mesmo tempo que sente repulsa por aquilo que a tia faz (e que a faz rezar fervorosamente para afastar-se daquilo), também começa a se pegar ouvindo fascinada a tudo o que a tia fala.

O problema é que junto a esta forma de vida mais liberal de Wanda há também muita melancolia por conta de coisas que aconteceram no passado que fazem ela se culpar demasiadamente. Ela fuma e bebe muito e revelando até mesmo certa depressão no comportamento dela.

Enquanto isso, Ida só observa e quer terminar sua missão da melhor maneira, mas quando ambas descobrem que achar onde os pais dela estão enterrados será um pouco mais difícil a relação entre elas também sofre altos e baixos.

A carona que elas oferecem ao saxofonista de uma banda de rock (Dawid Ogrodnik) também influenciará nas decisões tomadas mais à frente por Ida.

O filme pode ser melancólico e a postura da câmera que insiste em permanecer quieta e parada apenas observando a ação algo lenta das personagens ajuda nisso.

Mas não poderia ser de outra forma, não só por conta do conflito causado pelo relacionamento entre tia e sobrinha, suas diferenças e o florescimento da Ida mulher, mas também por conta de outras coisas ao redor disso tudo. O espectador percebe a vida desconfiada que as pessoas levavam naqueles tempos de ditadura na Polônia. Enquanto se vê todo mundo muito retraído sempre há o medo de que alguém esteja à espreita.

Pelo lado técnico, algumas curiosidades: o formato 1.33:1 deixa a tela quadradinha para quem vê o filme no cinema e a escolha de deixá-lo em preto-e-branco se mostra correta para demonstrar toda a vida cinzenta que se desenha naquele momento e naquela paisagem cheia de neve e visual triste. Além disso, o tamanho (80 minutos apenas) é outro ponto positivo e interessante, pois pela escolha de mostrar tudo devagar aparenta deixar o filme mais longo, mas não é algo que se torna pedante, pelo contrário, faz com que tenhamos maior percepção das coisas na tela.

Há uma cena em especial, a de quando Ida está assistindo à apresentação da banda de rock, em que os músicos são apresentados pela câmera estática enquanto ela é vista ao fundo. Tal imagem é uma das mais belas que eu já vi. É óbvio que o rosto quase angelical da atriz salienta tudo isso e sua covinha, motivo até de comentário da personagem da tia, traz todo um charme ao momento.

A atuação contida de Agata Trzebuchowska (Ida) em contrapartida com ao vigor e intensidade de Agata Kulesza (Wanda) traz uma pureza na maneira de perceber suas ações que impedem de identificarmos alguma forçação de barra na hora de escolhas drásticas feitas por ambas.

É isso que promove no espectador, não uma choradeira desenfreada, mas uma reflexão profunda acerca do destino de tia e sobrinha e em relação ao seu entorno.

O filme foi a escolha da Polônia para representa-la no Oscar de melhor filme estrangeiro e se não houver nenhuma maluquice dos senhores da academia (o que sempre acontece com aqueles velhinhos) deve ser barbada na disputa.

Anúncios

Um comentário em “Cinema: Nessas férias esqueça os blockbusters americanos e aposte tudo em “Ida”

  1. Ótima dica! Louca para ver o filme!
    Abraço.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s