O errático “O Abutre” vale pela atuação precisa de Gyllenhaal

A temporada de filmes candidatos ao Oscar começou e disponibiliza ótimas opções para o verão escaldante que está fazendo por estes lados do trópico.

Apesar disso, esta estreia de Dan Gilroy na direção de um longa pode ser considerada apenas ok, mas a forma como o ator Jake Gyllenhaal atua no filme vale o ingresso.

O diretor já era conhecido pelos roteiros de “O Legado Bourne” (bom) e “Gigantes de Aço” (horripilante), mas decidiu se aprofundar num terreno pantanoso que fora explorado inúmeras vezes no cinema com filmes sobre a imprensa e os limites da notícia.

No caso específico de “O Abutre” ele discute sobre o sensacionalismo e a gana das pessoas envolvidas na mídia em ter poder sobre a desgraça alheia para alçar novos degraus na escada do sucesso.

Vai um pouco além ao dissecar a cabeça de um jovem desesperado por um emprego que fará de tudo para conseguir melhorar de vida, mas que ao mesmo tempo transparece uma psicopatia social gradual durante os 117 minutos da história.

O problema em relação a tudo isso é que mesmo nas entrevistas dadas por Gilroy ele salienta mais a ideia de discussão sobre a busca pelo sucesso a qualquer preço do que a questão da ética da imprensa e dos profissionais envolvidos nas diferentes situações em que isso se expõe. Isso evidencia que o diretor perde um pouco a mão sobre o que quer mostrar e o que de fato é visualizado pelo espectador.

O próprio Gyllenhaal falou à imprensa especializada coisas mais relevantes sobre o tema do filme do que o seu próprio diretor. Em alguns momentos demonstra uma clara percepção que a loucura de seu personagem anda de mãos dadas com a demência do sensacionalismo que foge ao controle das editorias de jornais e canais de tv. Só nisso, a metáfora de sua insanidade faz mais sentido do que a visão de Gilroy tenta promover na tela grande.

O filme caminha bem toda vez que Gyllenhaal toma as rédeas da situação ou quando a ação se desenrola tensamente nos acidentes e incidentes propensos a se tornarem matérias no jornal dirigido pela personagem de René Russo (linda como sempre e com atuação discreta).

A própria parceria do personagem de Gyllenhaal com o de Riz Ahmed, algo que rende os únicos momentos de humor durante a fita, é pouco utilizada e em alguns momentos poderia dar impulso para melhores cenas durante o filme, que acaba se tornando um pouco cansativo em sua metade, ganhando terreno novamente em matéria de empolgação do espectador após a cena dos assassinatos da mansão de Beverly Hills.

Dessa forma, a montanha-russa emocional que se torna o personagem Lou Bloom (alguma inspiração no protagonista do célebre livro de James Joyce?) com sua inconstância no modo de falar e de agir, mas com um plano centrado na forma de pensar e planejar seu futuro, são elementos fundamentais para que o espectador consiga terminar a visualização do filme sem achar tudo muito pedante.

Portanto, pode-se afirmar que as atuações dos atores (com a própria inclusão do Bill Paxton que aparece pouco também) juntamente com a câmera nervosa e a fotografia que produzem ótimas sequências são pontos altos consideráveis durante a produção.

Mesmo assim, o roteiro errático e cheio de lacunas não é ajudado em momento algum pela edição entrecortada e povoada por cenas meio sem sentido e descartáveis.

Por fim, a ideia de filmar prioritariamente à noite é acertada já que mostra uma Los Angeles cheia de mistério, mas que é pouco glamourosa e ao mesmo tempo brilhante por conta de sua iluminação forte. Independente disso, ao se visualizar estradas e ruas que não são os pontos turísticos famosos dos astros de Hollywood o visual é da percepção de uma cidade grande como outra qualquer inundada pelo crime e pela tragédia.

Não é um filme genial e nem chega perto disso, mas causa um debate importante acerca do sensacionalismo e da busca pelo reconhecimento mesmo que isso não seja gerado por algum trabalho concreto e relevante. Sinal dos tempos.

Nota do editor: É impossível não lembrar do filme argentino “Abutres”, filme argentino de 2010 com Ricardo Darín, que, apesar de discutir a relação entre sucesso e morte diferentemente do filme de agora, tinha a ver com a ação de um advogado especializado em processar companhias de seguro e governo por conta de mortes de seus segurados em acidentes, o que promove uma semelhança na discussão com este “O Abutre” e o próprio nome parece evidenciar esse parentesco.

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