Black Crowes, obrigado por ter existido!

 
No último dia 17 de janeiro, o guitarrista Rich Robinson, um dos líderes do Black Crowes, anunciou o fim das atividades da banda formada em Atlanta (Georgia – EUA) em 1984 por ele e o irmão Chris.
 
A interrupção dos trabalhos dos caras pegou muita gente de surpresa, mas quem acompanha o grupo há muito tempo sabe bem que as disputas internas entre os irmãos é que provocaram o afundamento do barco.
 
“É com grande desapontamento e lamento depois de ter tido o privilégio de compor e tocar a música do Black Crowes pelos últimos 24 anos que eu me acho na posição de dizer que a banda se separou”, disse Robinson, em um comunicado oficial que foi retransmitido por revistas como NME e Rolling Stone.
 
A partir dessa declaração a informação se tornou discreta o suficiente para que não houvesse discussões mais profundas acerca do tema. Mesmo no site oficial do Black Crowes não há menção sobre o fato.
 
Mas como é que uma banda que já vendeu mais de 30 milhões de álbuns termina e ninguém fala nada a respeito?
 
A questão é que o Black Crowes sempre foi um grupo na dele. Mesmo tais brigas entre Rich e Chris não eram muito comentadas pelas revistas e sites especializados. O motivo pode ser muito simples: a trupe toda era muito competente quando entrava em estúdio ou subia a um palco.
 
Mesmo quando, no próprio comunicado, o guitarrista é claro quanto ao que acontece ninguém o questiona: “Eu amo o meu irmão e respeito o seu talento, mas seu presente demanda que eu devo ceder minha parte igualitária da banda e que nosso baterista há 28 anos e original parceiro, Steve Gorman, renuncia a 100 por cento da parte dele, o que o reduz a um empregado assalariado. Não é algo com que eu concorde”, explicou o guitarrista.
 
Mas discussões e egos à parte, acabamos de perder uma banda que conseguia trabalhar a música dos anos 60 e 70, toda cheia de grooves e riffs inteligentes e criativos com a balada bluseira de um período que tratava o rock com mais virtuosismo do que nos tempos atuais.
 
A própria vestimenta e trejeitos dos integrantes fazia supor que estivéssemos diante de gente recém-saída de uma máquina do tempo.
 
A voz aguda (e por vezes esganiçada) de Chris possuía uma modulação sonora que nos fazia viajar, além do que ainda auxiliava na ambientação com sua atividade com o instrumento que, às vezes tocava: a harmônica. Essa facilidade vocal sincronizava perfeitamente em torno da instrumentação bem arranjada e eficaz de Rich Robinson (guitarra solo), Jeff Cease (guitarra base), Johnny Colt no início e depois com Sven Pipien comandando o baixo, além de Steve Gorman (bateria) e a psicodelia do teclado de Eddie Harsch.
 
Aliás, essa transição entre a barulheira formidável das guitarras funcionava perfeitamente com os toques psicodélicos de todo o resto da cozinha instrumental e isso fez com o grupo angariasse diversos fãs famosos, dentre os quais se destacam Jimmy Page, Robert Plant, Tom Petty e Steven Tyler, entre outros.
 
Curiosamente, tanto fisicamente quanto na parte performática Chris Robinson se parece com o vocalista do Aerosmith, além do que possuir um estilo e até um timbre próximo do veterano cantor escocês Rod Stewart.
 
O Black Crowes lançou alguns discos que se tornaram clássicos não só por possuírem uma qualidade de harmonia difícil de encontrar hoje em dia, mas muito também pelo resgate do rock básico entre o Hard e o Psych Rock.
 
Apesar de já passear pelo underground americano durante a década de 80 quase inteira, o primeiro trabalho apenas foi possível em 1990, mas valeu a pena esperar. “Shake Your Money Maker” vendeu aproximadamente 4 milhões de cópias e promoveu o grupo a revelação do ano pelos críticos ianques.
 
Uma banda que debuta na indústria com clássicos como “Twice As Hard” (abertura do disco cheia do riff de slide característico de Rich Robinson) e ainda tem a belíssima “Jealous Again” com a voz sufocante de Chris só poderia obter inúmeros aficionados ao longo do tempo.
 
O segundo disco “The Southern Harmony and Musical Companion” (1992) conta com a curiosidade de ter sido gravado em apenas 8 dias e ainda nos brinda com “Remedy”, canção que alçou o grupo a sucesso mundial, além das ótimas e poderosas, “Thorne in my Pride”, Sometimes Salvation”, “No Speak No Slave” e “Sting Me”, entre outras.
 
Vieram ainda “Amorica” (1994) que contava com uma capa que inclusive foi censurada em alguns países, o meio que esquecido “Three Snakes & One Charm” (1996), uma mudança de ares para a Columbia e a gravação de “By Your Side” (1999) e a parceria perfeita com Jimmy Page “Live at the Greek”.
Capa do Álbum Amorica (1994)
 
No novo século, os irmãos Robinson e sua trupe foram menos profícuos em estúdio e só lançaram “Lions” (2001) pela V2 Records, “Warpaint” (2008) e o último “Before The Frost… Until The Freeze” (2009).
Nesse meio tempo a banda chegou a lançar inúmeros álbuns ao vivo, aproveitando uma de suas qualidades mais latentes. São os casos de “The Black Crowes Live” (2002) e “Freak’n’Roll… into The Fog – Live at The Fillmore, San Francisco” (2006), por exemplo.
 
A banda deixa uma lacuna imensa na música mundial, mas parece que conseguiu se tornar essencial o suficiente para influenciar gente mais nova que tem aparecido atualmente. Veja que apesar de Temples, Tame Impala e Pond terem características alusivas ao rock psicodélico dos anos 50 e 60 é claro que tiveram um empurrão da coragem que o Black Crowes teve ao se transportar a um tempo que não lhe pertencia.
Veja abaixo uma apresentação da banda em 2013, numa de suas últimas aparições ao vivo:
 
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