“Nick Cave: 20.000 Dias na Terra” – O que mais é necessário para um filme ser indicado ao Oscar?

Bem filmado e dirigido, com edição fantástica, roteiro belíssimo, sem nem falar da perfeita trilha sonora. Este é “20.000 dias na Terra”, filme sobre Nick Cave, que nem está indicado ao Oscar.

Enquanto isso, bombas como “Birdman”, “Foxcatcher” e “A Teoria de Tudo” estão na disputa.

E o mais interessante é o seguinte: todas as películas citadas acima são sobre personagens extremamente interessantes, mas as produções descambam para soluções fáceis, roteiros mirabolantes que sabem mais ser visualmente vibrantes do que no conteúdo completo, além de dramalhões que bem podiam estar no horário nobre do SBT.

O que acontece com “20.000 Dias…” é que ele bem podia ser sobre um personagem fictício, um indivíduo inventado, inverídico e que poderia fascinar menos a plateia do que o próprio Nick Cave o faz durante a projeção do filme.

É ele o dono do roteiro em parceria com Iain Forsyth e Jane Polland, dupla que também dirige o longa travestido de documentário (ou seria o inverso?).

Tal script funciona inicialmente como um grande poema, mas vai se transformando numa narração entre a biografia do cantor australiano e uma divagação sobre assuntos etéreos e/ou transcendentais.

Discussões sobre Deus, o amor, a perda, o relacionamento familiar e paterno, a crise existencial da meia idade, a relação com as drogas e a Igreja são muitas das diversas falas entre Nick e seus interlocutores.

Além da óbvia e necessária apresentação de sua esposa, Susie, que interessantemente não possui nenhuma fala durante o filme, mas que recebe uma homenagem do artista numa das mais belas declarações de amor já vistas no cinema, até os encontros com Warren Ellis, amigo e companheiro de Bad Seeds, até os outros músicos da banda como Thomas Wydler,Jim Sclavunos e a D.R. com Mick Harvey (ex-integrante do grupo), num dos momentos tensos do longa, tudo é muito bem feito em “20.000 Dias…”.

As conversas com o psicólogo Darian Leader rendem questionamentos profundos e as sacadas de Cave só são possíveis por que o doutor realiza as perguntas necessários para isso. Isso rende reminiscências precisas do cantor e, mesmo sem revelar uma infância doída, traz à tona um saudosismo que, de vez em quando se vê em suas canções.

Aliás, muito do que é o repertório do artista se descortina por meio de suas conversas e monólogos narrativos.

Logo, tratar da saudade da infância não significa especificamente um sentimento ruim, mas um repeito ao passado, tanto que ao lembrar de tempos difíceis ligados ao envolvimento com todo tipo de droga pesada, não há constrangimento nem meias palavras. E este trecho revela uma das melhores sacadas do filme quando ele diz que costumava ir atrás de drogas pouco depois de ir à Igreja todos os dias: “Quando conheci Susie ela logo me disse que eu teria de largar isso de uma vez por todas, pois estava me fazendo muito mal. Ou eu parava de ir à Igreja ou iria ao fundo do poço”.

Até mesmo quando fala de seus diferentes locais de moradia, muita coisa interessante é lançada ao espectador: um causo sobre um momento em que morava em Berlim (e as fotos tanto da banda quanto de seu quarto são ótimas), quanto sua mudança para Brighton geram instantes mais do que reveladores sobre a essência do australiano.

Outras passagens que podem se tornar inesquecíveis são as conversas em seu carro (destaque para Mick Harvey e Kylie Minogue), a conversa sobre Nina Simone com Warren Ellis (que é apenas uma repetição da mesmo história contada ao psicólogo) enquanto comem uma deliciosa enguia e a visita ao seu arquivo pessoal.

O fato também de o filme ser realizado ao mesmo tempo em que os ensaios estão a pleno vapor para “Push the Sky Away”, serve para impulsionar a trilha sonora, pois estamos diante de uma das melhores fases da carreira de e Cave e da Bad Seeds.

Há também três ou quatro momentos de rara sensibilidade do detentor da câmera durante a passagem de som da banda no estúdio ou no palco antes de algum show que retratam a profunda transformação da qual Nick fala a respeito em duas ou três ocasiões.

Enfim, o filme pode parece lento para quem não conhece a relevância de Nick Cave para a música dos últimos quarenta anos, e pode ser que seja mesmo, mas este é o detalhe que talvez o espectador não perceba como mais importante para a beleza do filme. Está se tratando aqui não de uma ode a um artista, mas sim ao desnudar de sua condição como ídolo inalcançável.

Ao final da produção pode até não ser possível entender totalmente o que é este cara chamado Nick Cave, mas suas palavras não saem mais de você após a apresentação de tudo o que se viu. Vê-se, portanto, que a magnitude de uma carreira artística não precisa somente ser um sucesso total e global, mas carece de profundidade na forma e no conteúdo com que é demonstrado a quem se deixou levar pela sua genialidade. E isso Nick Cave tem de sobra (e o filme também).

Veja o Trailer:

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