Três filmes para entender (ou não) Hollywood

 
Anteontem finalmente consegui assistir ao novo filme de David Cronenberg, “Mapas para as Estrelas”, película que fecha uma trinca de excelentes produções dirigidas pelo autor iniciada pelo intenso e profundo “Um Método Perigoso” (2011) e prosseguida pelo complexo e metafórico “Cosmopolis” (2012), trabalhados quase que em sequência.
 
O filme atual, por sua vez, é uma estória voltada para os holofotes do universo hollywoodiano. São mapeados desde os seus principais artistas, estrelas máximas de uma indústria podre por dentro e linda por fora, passando pelos seus produtores, figurões e agentes, que se estão preocupados com a carreira de seus pupilos, possuem mais profundidade de olhar para suas próprias contas bancárias e cagam e andam para a ética e a justiça.
 
Por fim, o filme também se encarrega de focar seu caleidoscópio para aqueles que buscam um lugar ao sol, as pessoas que sonham em colocar em prática o slogan americano de que há oportunidade para todos que chegam até lá.
 
Nesse caminho das pedras temos atuações interessantes e sem caricaturas de Julianne Moore (que merecia uma menção ao Oscar muito mais por este filme do que pelo que ganhou) como Havana Segrand, atriz esquecida pelas grandes produtoras que luta contra um passado de relacionamento complexo com a mãe já falecida em circunstâncias não muito bem explicadas e a necessidade de pulverizar esses fantasmas atuando numa refilmagem em que a própria progenitora participou anos atrás.
 
Num outro núcleo conhecemos a figura de Benjie Weiss (Evan Bird) adolescente problemático que ficou famoso como a estrela de uma franquia descartável e que depois de passar por uma reabilitação contra drogas está de volta para fazer uma nova sequência de seu sucesso. Ao seu lado, conhecemos o pai Stafford Weiss (John Cusack), guru espiritual de estrelas e a mãe controladora, mas insegura Christina Weiss (Olivia Williams), que juntos guardam um segredo terrível dos holofotes da imprensa e dos olhares curiosos do filho.
 
Há também o motorista Jerome Fontana (Robert Pattinson), candidato a um lugar ao sol na cidade das estrelas.
 
Mas a chegada de uma jovem chamada Agatha (Mia Wasikowska) fará todos esses núcleos terem algum tipo de relação e é óbvio que coisas malucas acontecerão, assim como é de praxe na cinematografia de Cronenberg.
 
O filme todo é muito bem dirigido, editado de uma maneira que as explicações se tornam naturais e se há muita coisa que fica no ar é por intermédio da capacidade narrativa do diretor em dar nada de mão beijada ao espectador.
 
Essa visão da podridão da indústria do cinema e de todos os meandros para se tornar um animal com mais capacidade de viver nesse mundo povoado de egocentrismo e individualismo me fez lembrar de outras duas produções recentes que tratam do mesmo tema.
 
Houve quem fizesse relação forte entre o filme de Cronenberg e “Birdman” de Alejandro Gonzalez Iñarritu por conta do tema tratado, mas ao que tudo indica a semelhança acaba aí.
 
A profundidade com que é trabalhado o assunto da indústria do cinema em “Mapas para as Estrelas” direciona seu olhar para tudo o que cerca Hollywood (egoísmo, capitalismo selvagem, descarte, ascensão e queda de ídolos, falsidade, problemas psicológicos advindos da megaexposição, etc).
 
Por outro lado, “Birdman” se vale de contar muito bem como o egocentrismo e a inabilidade em tratar da própria queda na indústria afetam uma única pessoa. No caso, o personagem de Michael Keaton acaba por ser atingido pela loucura e pela autocomiseração como formas de não aceitar o próprio obsoletismo.
 
O próprio plano-sequência como é filmada a produção dá uma dimensão de como o que importa para Iñarritu é mais a percepção de como o cinemão americano atinge seus ídolos e não como um todo.
 
Mas Hollywood não vive apenas dos artistas que aparecem na frente das câmeras e quando se assiste ao excelente “The Bling Ring” (2013) de Sofia Coppola a mensuração de quanto vale Hollywood fica mais evidente.
 
O filme basicamente é a estória de uma gangue de adolescentes da classe média alta de Beverly Hills que se especializa em invadir casas de famosos para roubar pertences desses ídolos.
 
Se há o claro lado capitalista de afanar dinheiro não declarado dessas pessoas também existe o glamour de estar dentro do local onde Britney Spears ou Lindsey Lohan vivem ou, pelo menos, passam algum momento de suas fúteis vidas.
 
O desprezo por uma vida comum é o que leva a esses garotos e garotas a ambicionar a vida de seus artistas preferidos, mesmo que isso possa custar sua própria liberdade ou sua segurança.
 
A vida não é mais ser, ela precisa conjugar o verbo ter e mais do que isso ela precisa estar disposta a mostrar, vangloriar-se de possuir.
 
E é através deste método de análise que Sofia Coppola consegue filmar o quanto a ganância e a necessidade por ser o que o outro é são doenças graves não somente em Hollywood como no resto de nossa sociedade.
 
O que se prova em “The Bling Ring” é que a cultura do “selfie” em que cada um se sente superior chegou de uma maneira muito forte e dificilmente sairá de nosso convívio sem deixar sequelas sociais. Hollywood conseguiu não somente vender sua imagem, mas também deixou todos sedentos por ser também um pedaço dela.
Trailer – Mapas para as Estrelas (2014)
Trailer – Birdman (2014)
Trailer – The Bling Ring (2012)
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