Geração Beat: como esses representantes da contracultura americana mudaram a literatura mundial

 
O termo “geração beat” foi cunhado pela primeira vez quando de uma conversa entre Jack Kerouac e John Clellon Holmes a respeito das ideias introduzidas por um grupo de autores que pensavam mais ou menos parecido uns com os outros. Em 1952 Holmes publicou um artigo sobre o assunto na revista New York Times.
 
Na verdade, a origem do nome vem da expressão beaten down”, mas Jack expandiu seu significado, como criando um novo termo por meio de “upbeat”, beatfic”, ou até a expressão musical de estar on the beat”.
 
É a partir daí que uma série de autores americanos começou a ser conhecida como o Movimento Beat.  
 
O termo passou então a ser usado tanto para descrever escritores e poetas, que só tiveram maior reconhecimento em fins de 1960, mas que já tinham profícua produção literária desde 1950, quanto ao fenômeno cultural que eles inspiraram (é importante destacar que posteriormente estes mesmo escritores foram chamados ou confundidos aos beatniks, nome este de origem controversa, considerado por muitos uma forma pejorativa).
 
Algumas considerações sobre as características estilísticas e pessoais destes autores são importantes: estes artistas levavam vida nômade ou fundavam comunidades; eles também foram o embrião do movimento hippie, e até mesmo se confundiram com este movimento posteriormente.
 
Também é bom salientar que muitos remanescentes hippies se auto intitularam beatniks e um dos principais porta-vozes pop do movimento hippie, John Lennon, acabou se inspirando na palavra beat para batizar o seu grupo musical, The Beatles.
 
Portanto, na verdade, a “Beat generation”, tal como os Beatles, o movimento hippie e, antes de todos estes, o Existencialismo, fizeram parte de um movimento maior, hoje chamado de “contracultura”.
 
Mas esta é uma outra história muito mais ampla e complexa para se explicar em poucas linhas.
 
É necessário entender aquele momento americano para compreender o início da geração Beat: o contexto político e social nos EUA da época do começo temerário da Guerra Fria era bastante repressor e conservador.
 
Este grupo de jovens intelectuais, entre eles escritores, poetas, dramaturgos e boêmios em geral, cansaram-se da monotonia da vida ordenada e da idolatria à vida suburbana na América do pós-guerra.
 
Desta forma, eles resolviam a partir dali, em meio à inspiração de um ambiente permeado pelo jazz, drogas pesadas, sexo livre e o conceito de “pé na estrada”, ou para ficar mais explicado, a exploração física do território americano para, a partir disso, fazer sua própria revolução cultural através da literatura.
 
Os principais representantes deste movimento (e suas respectivas obras) foram, sem ordem de importância, Allen Ginsberg com “O uivo” (“Howl”, 1956) e “Kaddish” (1960); Jack Kerouac com “Pé na estrada” (“On the Road”, 1957); William Burroughs com “Viciado” (“Junkie”, 1953) e “Almoço Nu” (“The Naked Lunch”, 1959); Gregory Corso com “Marriege” (1960) e Gary Snyder com “Riprap” (1959).
 
A maioria destes autores era publicada pela City Lights Books, editora de San Francisco, pertencente ao poeta beat Lawrence Ferllinghetti.
 
Outra questão imprescindível para entender a literatura destes caras é observar que a tal geração beat representou a única voz dentro dos EUA a gritar contra o macartismo, aquela política de intolerância governamental introduzida pelo senador Joseph MacCarthy, que promoveu a chamada “caça às bruxas” a partir do início da década de 1940.
 
Essa política que resultou num período de intensa patrulha anticomunista, perseguição política e desrespeito aos direitos civis nos Estados Unidos durou até meados da década de 1950 e possível constatar que muitos dos  “beats” eram de uma ideologia mais voltada ao comunismo ou à esquerda como um todo, chegando a uma boa parte ter um espírito de tendência anarquista.
 
E se torna engraçado se percebermos que mesmo os comunistas ortodoxos, como Fidel Castro, por exemplo, nunca os considerou verdadeiramente esquerdistas, talvez até pelo fato de serem americanos.
 
No que diz respeito à formalidade da escrita, a poesia beat de Ginsberg, Gregory Corso e Lawrence Ferllinghetti se aproxima muito da poesia surrealista, assim como ocorre com a prosa com certo tom caótico de Burroughs.
 
Por outro lado, a prosa de “On the road”, de Kerouac, é simples e espontânea, reveste-se de uma analise politicamente corajosa e mostra que muitos poderiam exteriorizar sua inconformidade e expressar seu próprio “eu” sem serem propriamente eruditos ou rebuscados através da arte.
 
Dessa forma, o “kitsch”, a escrita mais empobrecida em comparação com outros autores contemporâneos dos beats e as suas temáticas mais situadas com um cotidiano mais cru e controverso poderiam se elevar a uma visão e ilustração sublime.
 
Estes mesmos escritores enfatizavam nos seus textos e na sua estilística um engajamento visceral em experiências e a busca de um entendimento espiritual mais profundo, (e muitos deles desenvolveram interesse inclusive no Budismo e outras ideologias orientais).
 
Assim como o poeta francês Rimbaud, muitos deles acreditavam que poderiam alcançar um “grau maior de elevação da consciência” através do desregramento dos sentidos, e a partir daí, não dispensavam o uso das drogas, em seus primórdios.
 
Essa forma de ser, agir e pensar ainda teria ecos em muitas manifestações de outras subculturas ao longo dos anos subsequentes, como o que é visto em algumas características dos punks, por exemplo.

 Resumo para entender a Geração Beat
 
As características do movimento:
– Intensidade em tudo: no estilo narrativo, nos temas, nos personagens;
– Escrita compulsiva;
– Fluxo de pensamento desordenado, por vezes caótico;
– Linguagem informal, cheia de gírias e palavrões, ou com o chamado “hip talk” (um vocabulário típico do submundo marginal da cidade de Nova York);
– Grande valorização da transmissão oral;
– Apoio à igualdade étnica, à miscigenação e às trocas culturais entre raças.
 
O Ícone
 
JACK KEROUAC (1922-1969) – Principal obra: On the Road (1957)
 
Seu mais importante livro, que viria a se tornar a “Bíblia hippie”, fala sobre sua viagem de sete anos cruzando os EUA, com descidas frequentes ao México. Kerouac o redigiu em apenas três semanas, com uma máquina de escrever e dois rolos de papel (para não ter de parar para colocar novas folhas na máquina). Seu “estilo-avalanche”, sem preocupação com pontuação e parágrafo, foi estimulado pelo uso de benzedrina, um tipo de anfetamina.

 
O Poeta
 
ALLEN GINSBERG (1926-1997) Principal obra: Uivo e Outros Poemas (1955-1956)
 
Ideólogo, pensador e agitador do movimento, ele foi também o responsável pela chamada “extensão” do beat às gerações futuras. Diz-se até que foram seus cabelos compridos, sua barba e suas batas coloridas (adquiridas em uma viagem à Índia) que teriam inspirado o típico visual dos hippies. Para compor suas poesias, provou todo tipo de droga (até distribuiu LSD nas ruas!), mas depois “viciou-se” em ioga e meditação.

 
 O Junkie
 
WILLIAM BURROUGHS (1914-1997) Principal obra: Almoço Nu (1959)
 
Foi o que mais sofreu com as drogas – passou por várias reabilitações e tratamentos. Em uma viagem ao México, tentou acertar um tiro em um copo equilibrado sobre a cabeça de sua mulher, Joan Vollmer, mas acabou matando-a. Veio à América do Sul estudar o alucinógeno vegetal ayahuasca e também iniciou (mas não completou) vários manuscritos sobre a homossexualidade.

 
O Editor
LAWRENCE FERLINGHETTI (1919-) – Principal obra: Um Parque de Diversõesda Cabeça (1958)
 
É o maior expoente vivo do beat, talvez por nunca ter levado o mesmo estilo de vida desenfreado que os outros. Sem sua coragem, nunca conheceríamos as loucuras de seus colegas: sua editora, a City Lights, publicou as principais obras do movimento. Algumas lhe deram muita dor de cabeça – ele chegou a ser preso após lançar Uivo, acusado de obscenidade.

O Rebelde
 
GREGORY CORSO (1930-2001) – Principal obra: Bomb (1960)
 
Abandonado pela mãe ainda recém-nascido, ele passou por vários lares adotivos e orfanatos até ser preso, na adolescência, por furto. Na cadeia, tornou-se autodidata e descobriu a literatura. Foi o mais jovem dos beats e, assim como seu amigo Ginsberg, que o introduziu ao grupo, tornou-se poeta.
 
Revoltado e insubordinado, Corso também chegou a ser internado em hospícios mais de uma vez.

 
Fontes de Pesquisa:
 
 
 
 
 
 
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