Monstros do Desrespeito

Um dia de sol numa manhã de outono parece fazer povoar em minha cabeça ótimas expectativas para os shows que virão logo mais.
 
Estamos no dia 25 de abril de 2015, e faço meu planejamento para chegar à Arena Anhembi: saio de casa às 16 horas, chego às proximidades do local indicado por volta das 17 horas e consigo entrar até, mais ou menos, umas 18 horas.
 
O mote deste texto tem a ver com o festival Monsters of Rock na sua nova versão depois de ter ficado inúmeros anos sem acontecer e inflado pela participação de bandas como Judas Priest, Motörhead, Accept, Kiss e do madman Ozzy Osbourne.
 
A ideia inicial era falar apenas sobre os shows dos artistas em cima do palco e realizar uma crítica acerca de suas atuações frente a uma plateia poderosa como é a dos headbangers em eventos em São Paulo.
 
O problema é que não dá para fazer isso por conta da quantidade irritante de erros e desrespeito cometidos pela organização da atividade.
 
Meu plano vai dando certo até o momento em que estaciono o carro numa concessionária na avenida que dá acesso ao Anhembi e lembro de ter ouvido pelo rádio minutos antes que juntamente ao evento de rock também acontece o Feirão da Casa Própria promovido pela Caixa Econômica Federal no Pavilhão do mesmo local.
 
Algo faz coçar minha cabeça e não se trata de piolho ou caspa (eu lavo meu cabelo direitinho, pessoal).
 
Caminho até o portão número 9, que fica bem no começo do Sambódromo e fico estarrecido com a quantidade de gente espremida por ali.
 
Começa a via crucis!
 
Ao me informar a respeito do que ali acontece eu sei que já passamos da quarta apresentação do festival (De la Tierra, Primal Fear, Coal Chamber e Rival Sons já haviam subido ao palco até aquele momento). Aparentemente, daria para ainda pegar a apresentação de Black Viel Brides, antes de ir para o arrebento com a trinca final de Motörhead, Judas Priest e Ozzy Osbourne.
 
Daria!
 
Sigo o fluxo de pessoas procurando o final da fila e percebo que se inicia o show da banda citada anteriormente. Será que pego um pedaço da apresentação?
 
Ando, ando e chego até a entrada do tal Feirão. Já percebo certa bagunça entre os organizadores de lá, os agentes da CET e os produtores do Monsters. Sabe-se há muito tempo que esses dois eventos aconteceriam no mesmo dia? Quem deixou que isso acontecesse? Custava pular uma semana para que um ou outro fosse feito? Anhembi e Produtores dos dois eventos deveriam responder a essas perguntas em respeito aos participantes das duas atividades.
 
Mas a minha maratona ainda não chegou ao fim. Vou até o fim do Centro de Convenções na avenida Olavo Fontoura que fica de frente com a Praça de Bagatelle e meus pés já doem após mais trinta minutos andando.
 
Pois bem, não é ali o final da fila. Ainda teria mais de trinta minutos até encontra-la. Quando isso acontece ao dar a volta no Anhembi há pessoas que até comemoram como se fosse um gol.
 
Começa outra corrida, essa mais lenta, muito mais lenta.
 
São mais uma hora e meia de fila até chegar num ponto em que há uma rua que faz ter uma ruptura onde pessoas mal educadas aproveitam para furar a ordem das coisas e entram na fila.
 
Dá-se início a uma correria insana e absurda que dura mais ou menos trinta minutos. Imagina a condição dos pés da galera.
 
Pronto: chegamos até a entrada do evento e a portinha pela qual adentramos se transforma numa imensa confusão de alambrados e cancelas que direcional o pessoal até a revista (muito mal feita) e a verificação dos ingressos.
 
Quando entro finalmente a primeira coisa que me vem à mente é ir ao banheiro, mas o atendimento desse quesito é tão mal feito que só quatro banheiros para os homens e apenas dois para as meninas.
 
Havia fila para os homens (o que é até estranho em eventos assim, pois a quantidade de banheiros químicos normalmente é enorme), imaginem então o transtorno que era para as mulheres. Um horror, um horror!
 
Muitos caras desistem de esperar para usar aqueles poucos banheiros e descarregam sua urina ali mesmo na porta. O cheiro se torna insuportável.
 
O show do Black Veil Brides já havia terminado e me informo com algumas pessoas como foi a apresentação. E fico sabendo que os caras não gostaram da vaia da galera e saíram do palco para voltar depois de um tempo e diminuírem o período do show. Penso somente o seguinte: se você é contratado para tocar num festival deste porte não importa qual é a reação do público, sua única atitude louvável é que termine profissionalmente o que de você se espera. Ficar ofendido com vaia de plateia é ridículo para uma banda profissional.
 
Ao mesmo tempo sou informado de que Lemmy havia passado mal durante a noite, o que fez o Motörhead cancelar seu show. Primeiro penso: porra, o cara é um Highlander e a única vez que resolve ficar doente é aqui no Brasil? Depois desejo melhoras ao mestre do metal e, por fim, pergunto se já houve alguma alteração em horário ou troca de banda para suprimir a lacuna deixada pelo cancelamento. A resposta é sim e ainda me dizem que Andreas Kisser e Derick Greene do Sepultura assumiram o lugar de Lemmy para uma canja para a plateia.
 
Meu questionamento agora é: como assim “assumiram”???
 
E o que me respondem é que já fizeram o show, um show com três músicas (!!!).
 
Novamente, o desrespeito falou mais alto. É óbvio que ninguém conta com uma doença que atrapalhe a programação de um evento deste porte, mas o público merecia algo melhor como resposta a essa decepção de não ver o ídolo de perto.
 
Vou me aproximando da parte mais próxima do palco e qual não é minha surpresa que inventaram de colocar locais de venda de bebidas bem no centro em direção dele, o que inclusive atrapalha a vista de quem está longe e o equipamento de som também ajuda para que o problema da vista se torne maior.
 
Começo a entender que os organizadores quiseram imitar o esquema realizado (com sucesso) pela produção do Lollapalooza Brasil, mas a questão crucial é que em Interlagos há muito espaço de sobra e as barracas para venda de bebidas, comidas e souvenirs é bem afastada dos locais dos shows e mesmo aquelas irritantes cabanas patrocinadas até por absorventes ficam em espaços estratégicos numa distância segura e até numa altura diferenciada dos palcos. É claro que a geografia do lugar auxilia nisso, mas tenho certeza que tal situação foi pensada com antecedência pelos seus produtores.
 
Já no Anhembi o que falta mesmo é espaço e enfiar 40, 50 mil pessoas naquele lugar é um processo desgastante e complexo sem que haja nada atrapalhando, imagine com um monte de barraca parecendo uma feira mais bagunçada do que o normal.
 
Comecei a perceber que o público já estava irritado e tudo o que cercava a falta de organização do festival só aumentava a intranquilidade de todos.
 
Percebia, inclusive, uma falta de paciência e muitos já passavam empurrando uns aos outros quanto mais se chegava próximo do palco. Os pés que já doíam tomaram algumas pisadas que precarizaram ainda mais a sua utilização.
 
Os banheiros químicos colocados por aqueles lados eram muito poucos e eu percebia muita gente voltando para a parte longínqua do evento para poder usar o banheiro.
 
Fiz isso e só consegui adquirir as tais fichinhas para ser trocada por alguma bebida depois de mais meia hora de fila e é claro que a minha primeira cerveja só pode ser comprada quando já era aproximadamente 21 horas momento aproximado da entrada de Rob Halford e seus asseclas no palco.
 
Como as pernas não aguentavam mais me sentei num lugar muito distante para assistir ao show pelo telão, mas este era tão pequeno que parecia uma tv 14 polegadas daquelas que o povo mais aficionado coloca na cozinha de casa. Além disso, ainda tinham aqueles bloqueios que dificultavam a visão de que estava longe.
Para piorar, inventaram uma mini galeria do rock perto deste local onde eu estava e havia um DJ tocando clássicos do rock para quem ali estava. Não vejo problema nenhum de se fazer algo assim, mas quando há as apresentações a pessoa tem de se tocar e desligar a bagaça, certo? Não, errado! Precisou uma turma reclamar para que o Mané parasse com aquilo.
 
Pois bem, consegui assistir à apresentação bem perto a uns tiozinhos de uma equipe de motoqueiros que nitidamente são apaixonados pelo rock e que faz a gente ainda ter alguma fé nesse estilo que está foi esmagado por uma produção horrenda e desrespeitosa.
 
Assisti ao show completo, mas o estrago estava feito.
 
Ozzy que me desculpe, mas eu já o vi em carreira solo, em apresentação histórica com o Black Sabbath e mais um pouco eu teria de ser carregado por conta das bolhas em meus pés. Portanto, deixei que a garotada mais nova ficasse a cargo de ver o velhinho fazer o seu show que foi muito bom, segundo relatos variados.
 
Fui embora, não entristecido, mas cheio de ódio de uma organização que se preocupou tanto em colocar milhões de stands de patrocinadores que se esqueceu que no meio disso tudo havia um show no qual bandas e os fãs delas iriam participar.
 
A sensação é que os dinossauros do rock foram destruídos pelos monstros do desrespeito.
 
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