Umberto Eco e a necessidade de se aprofundar numa história

 
Quando assisti ao filme “O Nome da Rosa” pela primeira vez, ainda no final dos anos 80, também foi a primeira vez com a qual me deparei com o nome de Umberto Eco.
 
A sorte de ouvir um nome tão importante para a literatura mundial tanto como escritor de ótimos livros quanto no papel de crítico e estudioso da semiótica e da estilística tem muito a ver com a boa adaptação que Jean-Jacques Annaud realizou para o cinema do livro lançado em 1980 pelo autor italiano.
 
Não fosse o fato de ter sido bem representada para a tela grande uma história complexa que mistura fatos reais, pitadas de filosofia, religiosidade e tramas e subtramas baseadas em conspirações executadas dentro de um claustro medieval.
 
Na verdade, o enredo de Eco retrata um episódio, passado durante a Idade Média, no qual o riso era considerado um pecado por parte da Igreja. 
 
A coisa gira em torno das investigações de uma série de crimes misteriosos, cometidos dentro de uma abadia em que fica impossível não percebermos certo ar de suspense e genialidade que antes fora empregado por Arthur Conan Doyle nas aventuras de Sherlock Holmes na figura do frade franciscano Willian de Baskerville.
 
Ele é assessorado pelo noviço Adso de Melk, puro nas ideias e inocente na forma de lidar com as questões religiosas da Igreja Católica, para que ambos possam ir fundo em suas análises investigativas.
 
O problema são as complicações e a resistência impostas por alguns dos religiosos do local, para que não fossem desvendadas as verdadeiras intenções dos crimes cometidos lá.
 
É um livro que apesar de possuir alguma ação, prende-se principalmente aos momentos de diálogos travados entre os protagonistas e as ponderações filosóficas e os questionamentos da fé efetuados por Willian de Bakersville.
 
A descoberta da sexualidade e a perda da inocência por parte de Adso também são importantes para um aprofundamento dos temas discutidos no romance ao que diz respeito ao leitor.
 
É óbvio que outra comparação, a da obra com um toque quixotesco também se valida, mas o debate em torno dos escritos de Aristóteles acaba por tomar forma preponderante a quem se aventura nessa estória costurada milimetricamente pela pena hábil de Eco.
 
Mas o escritor italiano não é somente “O Nome da Rosa”.
 
O fato de ter se formado em Semiótica e atuar nesse setor da Linguística  como professor titular da Universidade de Bolonha até hoje suscitou no escritor um manejo muito bom para conversar sobre o tema e outras áreas interligadas.
 
Isso fez dele um colaborador usual da revista L’Espresso e a La Republica e proporcionou trilhar um caminho filosófico aberto por Luigi Pareyson no que tange aos estudos do período medieval e da atividade e pensamento de São Tomás de Aquino, além da discussão acerca do belo.
 
Foi através disso, e por conta do sucesso inesperado de “O Nome da Rosa”, já que se tratava de um teórico migrando para o romance, o que nem sempre dá certo no mundo da literatura, que Umberto Eco pôde se dedicar à complexidade de obras posteriores.
 
Se houve quem desconfiasse da possibilidade de Eco ser capaz de repetir a dose de ficção histórica em consonância com a investigação filosófica e até estilística já realizada em seu primeiro romance não ficou nenhuma dúvida de seu talento em criar uma investigação especulativa viável e segura através de “O Pêndulo de Focault”. Se hoje há quem venere os livros de Dan Brown por conta da inclusão de esoterismo e ideias conspiratórias para se contar uma aventura o autor italiano já o fazia muito bem em 1988.
 
Segue-se a esta obra o perspicaz e transcendental “A Ilha do Dia Anterior” (1994) que reflete sobre a loucura e acerca de qual é a verdadeira realidade numa estória captada através do olhar humanista que se iniciava pela Europa no Século XVII e por meio da relação sempre complexa de embate entre Ciência e Religião.
 
Neste romance percebe-se também a capacidade linguística e o aprofundamento das pesquisas do escritor com relação ao uso das diferentes línguas ao longo do tempo e do espaço e dos diferentes contextos sociais e históricos. Se sua facilidade em produzir boas discussões é plena a maneira como utiliza a palavra também se torna perfeita.
 
“Baudolino” havia sido o último livro lançado pelo autor ainda no ano 2000 e trazia novamente o retorno de Umberto ao mundo medieval, época mais bem trabalhada e conhecida por ele.
 
E não se pode apenas resumir o livro a uma história contada sobre um homem que se intitula “o maior mentiroso do mundo inteiro”.
 
O fato de ele ir contando seus feitos ao historiador Nicetas Coniates também a torna bela e cheia de efeitos semióticos por meio da íntima relação que tais acontecimentos por ele narrados se assemelham ou divagam junto com os mitos e alguns acontecimentos históricos.
 
Se há causos envolvendo guerras há igualmente uma viagem ao oriente por meio da visão de que é um mundo jamais imaginado. O livro perpassa pela aventura de um jovem adotado por Frederico I, o Barba Ruiva, em uma saga se iniciando na coroação deste imperador à invasão de Constantinopla pelas cruzadas e acaba por nos levar a tempos em que a geografia não explorada dava margens para pensamentos amalucados (não para os povos daquele período).
 
Agora, em pleno ano de 2015, Umberto Eco se envereda por um campo jamais explorado por ele: o romance contemporâneo.
 
Ele acaba de lançar um livro chamado “Número Zero” que retrata um caso envolvendo máfia, jornalismo e, como não poderia faltar, investigação e conspiração.
 
A história se passa em 1992, período em que se aplica a operação “Mani Pulite” (Mãos Limpas) na Itália. A investigação que arrasou boa parte da classe política por lá e que encontrou diversas transações entre os servidores do poder italiano e pessoas ligadas à máfia.
 
A trama é mais aprofundada por conta da ação de um jornalista paranoico que tenta desvendar até onde podem chegar tais investigações e quem eram as pessoas que podiam ser fisgadas pela atividade. Sua ação e seu afã de encontrar indícios de qualquer possível pauta podem, inclusive, gerar discussões sobre os manuais de bom ou mau jornalismo.
 
Além disso, ainda possui uma subtrama na qual se analisa o papel de Licio Gelli, temido ator dos meandros subterrâneos financeiros da Itália que era ligado à Maçonaria e tentava aplicar um “golpe branco” no governo do país.
 
Ainda não li o livro, mas assim que o fizer trarei a resenha completa a respeito dele.
 
Por outro lado, é importante sempre frisar que a obra literária de Umberto Eco possui a qualidade máxima de aprofundar temas tão complexos como a Filosofia, a Religião e o Poder constituído através de romances que não ficam apenas na discussão acerca disso, mas também se potencializam por causa da ação de homens que se questionam e desconfiam de que tudo é branco ou preto, sem que para isso sejam criados personagens caricatos ou simplórios. Estes mesmos possuem defeitos que os tornam humanos mais próximos do que o somos na realidade.
 
Se na pesquisa linguística, semiótica e semiológica o escritor italiano nos ensino muito ainda é na obra ficcional que ele nos proporciona uma leitura prazerosa sem que nos deixe apenas atividades superficiais. Ele nos quer afogados por sua profundidade e questionamento para que possamos submergir na riqueza de sua literatura. 
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