Falar do tinhoso também é expressão artística?

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Para iniciar este texto é importante salientar que sou ateu, portanto não acredito em deuses e muito menos em demônios.

Dito isso, achei por bem fazer uso da escrita para defender uma causa acerca da expressão artística, pois nos últimos dias tenho visto muita gente falar a respeito do tema sem que se debruce de fato sobre questões caras do fato.

Tudo começou quando a artista transexual (que infelizmente não consegui colher o nome já que a polêmica instalada na web não deixou nem que tivéssemos informação sobre a pessoa difamada no caso) realizou uma intervenção durante a Parada Gay de São Paulo na qual se travestiu de Jesus Cristo e foi “crucificada” em processo tanto realista quanto bem feito.

Não é necessário dizer que a enxurrada de críticas realizada por homofóbicos, conservadores e fundamentalistas religiosos aconteceu de forma vertiginosa e preconceituosa por meio da internet e através dos porta-vozes com imunidade parlamentar (Marco Feliciano) e ignorância atroz (Silas Malafaia).

Tomo como partida da discussão do título este fato recente para demonstrar outro debate que visualizei na timeline do Facebook nos últimos dias por conta do lançamento do novo álbum do Slayer, “Repentless”, no qual há uma pintura em sua capa (realizada pelo artista brasileiro Marcelo Vasco, inclusive) na qual é retratado Jesus Cristo em seu leito de morte (a famosa crucificação) sendo mostrado na parte central enquanto no entorno vemos pessoas queimando em algo que poderia ser definido como o fogo do Inferno inventado por Dante Alighieri em A Divina Comédia.

Veja abaixo a imagem da capa:

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Muitas pessoas se indignaram com a ilustração (parece que nunca viram uma capa de disco de bandas de Black Metal) confirmando algo que já virou tendência por aí: estamos nos aproximando de uma nova Idade das Trevas, na qual o fundamentalismo religioso toma conta de todos e todas e dilacera qualquer possibilidade de discussão em bom nível sobre qualquer assunto.

Se um clérigo da Igreja Católica disse ou o pastor de sua seita evangélica afirmou então não há mais o que dizer contra, devemos mandar aquele sob o qual há uma acusação para a fogueira vingadora do Cristianismo para que arda eternamente.

Neste ponto, há de se considerar algumas bravas exceções de líderes religiosos, nas quais se enquadra o Papa Francisco que tem se dedicado mais a uma batalha com a ala mais tradicional da Igreja do que em se embrenhar com bobagens preconceituosas.

Dessa forma, a atividade artística pode seguir tendências, pode ser panfletária ou simplesmente narradora de uma história.

Músicas com temática pautada em mitologia também não fogem a tal regra.

Há inúmeras bandas que somente fazem uso da narração para contar algo (Black Sabbath é o pioneiro) assim como há outras em que o assunto é levado mais para o lado pessoal. O exemplo maior de tal situação talvez seja Varg Vikernes e seu Burzum, pois ele era quase que um militante contra a Igreja Católica, mesmo que para isso nunca tenha declarado claramente que fosse satanista.

O problema é que as pessoas tendem a achar que todo apreciador de Heavy Metal tenha um altar voltado para a adoração ao Capeta.

Isso é um estereótipo batido, mas que ainda leva muita gente ao erro.

Para fazer uma analogia ilustrativa: um diretor de cinema não precisa ser satanista ou algo do gênero para falar sobre demônios em seus filmes. Quando William Friedkin dirigiu “O Exorcista” houve muita celeuma por causa dos bastidores da trama, mas ninguém o acusou de servir ao capiroto.

Vou dar outro exemplo interessante na música: Nick Cave não é religioso (muitos dizem que ele é ateu), mas muitas de suas canções falam de Deus. O cara faz uso do Gospel (gênero musical normalmente entoado em Igrejas Pentecostais americanas) de forma tão brilhante que um desavisado poderia afirmar com toda a certeza de que se trata de um religioso compulsivo. A verdade é que o cantor australiano utiliza a música para não somente passar uma mensagem, mas também para narrar histórias.

E a questão que envolve contar histórias não precisa necessariamente ter a ver com a concordância de opinião com seus personagens, contextos e desfechos.

Assim sendo, o que seria de narrações em que o tema do nazismo está em pauta? Será que alguém já pensou que livros passados em diversos momentos históricos poderiam ter a conivência intelectual de seus autores com as atrocidades ocorridas em suas páginas? Tenho certeza que não.

Mas tudo só é possível por causa do conhecimento de mundo e da maneira como este pode ser visto depois de desvendadas algumas sombras a frente de nossos olhos.

Quem ainda é comandado pela ira incivilizada e medieval de líderes fundamentalistas que precisam de um rebanho manso e cabisbaixo para que possam regrar suas vidas ainda se ressente de compreensão acerca do que é expressão artística, do que pode ser analisada como liberdade de expressão e não entendem o que é ser livre para ter pensamentos opostos ao dele.

Mas mesmo que seja religioso e defensor de sua fé, a pessoa que consegue ultrapassar a usura do conservadorismo para ver algo além da própria igreja, pode depreender que num Estado democrático as pessoas podem se expressar livremente desde que não atinjam a liberdade alheia.

E neste ponto é importante salientar que mesmo uma crítica a uma religião não incorre em desagravo normativo ou em desacato da lei, pois discutir, fazer humor ou promover debates sobre instituições (quaisquer que sejam) não inflige nossa constituição já que é parte do jogo democrático e faz bem para o cérebro.

Aliás, uma pessoa tem direito, inclusive de adorar a qualquer deus ou demônio já que a lei permite liberdade de credo também. O que não se pode fazer de forma alguma é discriminar, agredir ou promover ódio contra quem não pensa igual a você. Neste ponto, caro apreciador do rock pesado, quando alguém vier falar para você que sua música é contra deus ou sua igreja já alguns argumentos para serem discutidos em prol de uma melhor visão por parte dele em relação ao que é expressão artística. Muitas vezes o que há tão somente é um escritor de textos narrados por um eu-lírico. E isso sempre existiu na literatura ou na música.

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