Blur: onde o Blog estava com a cabeça que falou tão pouco de “The Magic Whip”?

Quando os rapazes do Blur apareceram no começo deste ano todos vestidos esquisitamente de sorvete de casquinha muita gente achou estranho.

Também achou-se irreverente a forma como foi lançado “The Magic Whip”, o novo álbum dos caras, cheio de referências à cultura pop japonesa e chinesa. A começar pela capa, pelo alfabeto chinês usado para escrever o título do trabalho e da banda, tudo tinha relação com o povo do outro lado do mundo.

É claro que até aquele momento ninguém havia ouvido todas as canções do disco e não tinha como realizar uma análise profunda do conteúdo.

Pois agora já é possível!

Tendo feito o anúncio do lançamento em pleno ano novo chinês (28/04) o álbum promove o retorno da banda ao estúdio depois de doze anos e produz a primeira atividade de Graham Coxon com o Blur desde 1999.

A peleja para a execução deste trabalho é interessante: em 2013 o Blur havia marcado alguns shows com sua formação original e algumas destas apresentações foram canceladas, dentre elas o espetáculo de Honk Kong. Já no ano seguinte, talvez para se redimirem do que aconteceu anteriormente, Dalmon Albarn, Graham Coxon, Alex James e Dave Rowntree voltaram à cidade e se instalaram no estúdio Avon para gravarem o álbum completo em apenas cinco dias.

Deu certo!

E digo mais: estamos diante de um dos melhores trabalhos de estúdio de 2015, talvez um dos principais lançados pelo Blur, em conjunto com “Leisure” (1991), o primeiro da carreira deles, a obra-prima do britpop “Parklife” (1994) ou o adulto “Blur” (1997).

A questão com “The Magic Whip” é que há de tudo nele: desde a volta às origens quando rivalizava com o Oasis a alcunha de melhor banda do britopop, passando pelas óbvias influências sessentistas, algumas introduções da música oriental e sintetizadores que lembram os seriados japoneses dos anos 80 até chegar à música havaiana, surf music, pós punk, shoegaze e algumas pescadas dos projetos pessoais de Albarn.

Aliás, as atividades individuais do vocalista tem feito bem a ele, pois principalmente a cadência e densidade do disco “Everyday Robots”, lançado ano passado, produz alguns ecos no trabalho vocal dele no oitavo álbum do Blur.

“The Magic Whip” inicia com uma associação conjunta de guitarra, baixo e bateria dignos dos melhores anos do grupo com a boa “Lonesome Street”, prossegue com mais tranquilidade e a voz densa de “New World Towers” e delicia os ouvidos com as distorções e gingados de guitarra que auxiliam Albarn a produzir uma música bem ao feitio de algumas bandas inglesas do final dos anos 80 e começo dos anos 90 com uma espécie de shoegaze atual.

A próxima sequência permite que presenciemos “Ice Cream Man” como uma canção contida semelhante ao que se produz ambientalmente com a boa “Thought I Was A Spaceman” e suas viagens “bowieanas”, para logo em seguida grudar na mente com a bublegum eletrônica e pesada “I Broadcast” que lembra um pouco as canções de “Parklife”.

“My Terracota Heart” é uma faixa ambient que se sustenta pela bateria e pelo belo trabalho agudo da guitarra de Coxon em conjunto com a voz tranquila de Damon e antecede o hit “There Are Too Many Of Us” que já pode ser considerado um novo hino na discografia da banda por conta de sua aptidão de música de “estádio” e seu trabalho orquestral para dar uma ideia de complexidade maior.

“Ghost Ship” se situa entre a surf music, a música havaiana e o uso de metais que, juntando tudo, dá bastante balanço a ela, enquanto “Pyongyang” se torna um prog-enigmático com suas linhas de baixo profundas bebendo também da fonte pós-punk do Joy Division. Posteriormente a isso, o Blur nos presenteia com uma música a la Beatles que é uma delícia de se ouvir do início ao fim e um refrão lindo de tão simples que é.

A finalização do álbum fica a cargo de “Mirrorball” e sua atividade quase acústica que desenvolve bem o violão com a voz menos acentuada de Albarn. Uma preciosidade também!

Enfim, um disco de rara beleza que parece ter sido fácil de se fazer, pois coloca o ouvinte para escutar do início ao fim sem que precise de tregua. Todas as músicas casam bem é há sintonia fina entre todas elas. E interessante que isso aconteça com um grupo que, pensava-se apenas estar fazendo um retorno caça-niqueis. Desde já, uma das melhores coisas feitas neste ano.

Blur – “The Magic Whip” (Tracklist)

“Lonesome Street”
“New World Towers”
“Go Out”
“Ice Cream Man”
“Thought I Was A Spaceman”
“I Broadcast”
“My Terracotta Heart”
“There Are Too Many Of Us”
“Ghost Ship”
“Pyongyang”
“Ong Ong”
“Mirrorball”


Lonesome Street


There Are Too Many Of Us


Ong Ong

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