O Som, a Fúria e William Faulkner

Se o nome do meio não lhe diz nada (Cuthbert), talvez ele completo te chame à atenção: William Cuthbert Faulkner é daqueles autores que não podem passar desapercebidos.

O cara recebeu um Nobel de Literatura, o National Book Awards em 1951 por “Collected Stories” e em 1955 pelo romance “Uma Fábula” e, ainda, foi vencedor de dois prêmios Pulitzer, o primeiro pelo mesmo “Uma Fábula” e o segundo logo depois com “Os Desgarrados” (1962).

Um dos baluartes do modernismo universal, ele utiliza a técnica do fluxo de consciência, forma consagrada por outras forças do mesmo tipo de literatura: James Joyce, Virginia Woolf, Marcel Proust e Thomas Mann.

Desse modo, Faulkner narrou com maestria toda a decadência que assolava de maneira crua e profunda o sul dos Estados Unidos, demonstrando certa inferioridade em seus personagens (ou o modo como são tratados uns pelos outros), e trabalha em seus enredos as situações desesperadoras vividas pelas pessoas de suas histórias.

O conhecimento do Mississipi (sua terra natal) ajudou muito nessa descrição triste e negativa, mas sua imaginação também auxilia na caracterização de seus cenários.

Outra questão importante em seus livros é a densidade com a qual trata os fatos ocorridos e, por muitas vezes, a variedade descrita dos múltiplos pontos de vista, e até mesmo simultâneos, daquilo que ocorre e que pode ser percebido pelo leitor.

Acontece, invariavelmente, uma perda periódica de localização e uma confusão mental naquele que lê sua obra e tenta imaginar a fundo o que está acontecendo. As próprias alterações bruscas na temporalidade narrativa fazem com que a viagem no tempo do leitor se torne algo indigesta, mas muito desafiadora.

Até mesmo, os elementos sobrenaturais contidos em seus contos e histórias prendem a atenção de quem segue os fatos que permanece ainda imerso e perdido no espaço-tempo.

Nesse quesito, é óbvio que o nascimento do escritor trinta anos após o sul dos Estados Unidos ter sido derrotado na Guerra da Secessão depõe a favor de seus escritos tão embebecidos nessa água turva.

Se antes do ocorrido toda a região apresentava uma rígida estrutura social conservadora, construída sob a supremacia dos brancos de origem inglesa e religião predominantemente protestante agora se tentava entender como ficaria essa nova sociedade dividida entre a bagunça criada pela guerra e a nova condição entre negros e brancos.

Sua extensa obra se passa, na maioria das vezes, no fictício Condado de Yoknapatawpha.

A área e localização geográfica, no extremo norte do estado de Mississippi, correspondem praticamente ao Condado de Lafayette, cuja cidade principal, Oxford, serviu de modelo para Jefferson, a sede de Yoknapatawpha.

É incrível e curioso que, nas poucas vezes em que escolheu um cenário diferente, Faulkner tenha produzido obras em que não tenha conseguido os melhores de seus grandes momentos descritivos e narrativos.

Assim sendo, estilisticamente, a literatura de Faulkner se caracteriza por uma escrita complexa e longos períodos e parágrafos produzidos sob pontuação irregular e, por vezes, inexistente, que promove o chamado “fluxo de consciência” (stream of consciousness), que já se fizera presente anteriormente no trabalho de Proust e Joyce, mas também mantida sob vários aspectos em Woolf e outros escritores que acabariam sendo muito bem identificados com a escola modernista.

Por este motivo, o leitor que tenta se debruçar sobre seus escritos precisa ter empenho, cumplicidade e firme concentração para não se perder em alguns de seus pontos de vista ou não se complicar na identificação de quem toma voz no ocorrido. Até mesmo por causa disso, o leitor não familiarizado com o autor deve ser introduzido em sua obra por meio de contos e romances menos estruturados como “Santuário” e “Os Desgarrados”.

O retorno de personagens constantemente liga suas obras e de certa forma teria bastante facilidade para se agregar à literatura atual, pois sabe bem como utilizar tal técnica recursiva em muitos dos nossos autores contemporâneos: são os casos, por exemplo, do velho Bayard Sartoris, apresentado em “Sartoris” (1929) e personagem/narrador das histórias de “Os Invencidos” (1932), em situações que remontam à sua infância e Quentin Compson que se suicida em “O Som e a Fúria” (1929) para reaparecer em outro estágio de sua vida em “Absalão! Absalão!” (1936).

Com uma obra dividida em três fases, podemos perceber que o primeiro momento consiste mais de aprendizado e influência da literatura do final do XIX tendo no já mencionado “Sartoris” e em alguns contos de “These Thirteen” seus pontos mais elevados. Também consta dessa primeira incursão literária sua contribuição para o periódico inglês “Yellow Book”, que possuía linguagem elegante e estilizada.

Daí, a segunda parte de sua carreira conta com a mais pesada e importante obra de seu currículo, “O Som e a Fúria” (1929) até chegar em “Palmeiras Selvagens” (1939). São estes livros nos quais o caminho da violência, cenas cheias de horror e, por vezes, até mesmo uma comicidade fora do comum, enchem as páginas e transportam o leitor para sentimentos opostos em poucos segundos. Um verdadeiro tapa na cara de quem lê.

Versão em Português do clássico “O Som e a Fúria”

A partir da terceira parte de sua obra na qual “A Aldeia” (1940) é o início de uma busca de Faulkner por uma humanidade mais esperançosa, ou que lhe dava mais esperança. É uma fase que já tinha se mostrado vagamente em “Os Invencidos” (1939), mas que transparece mesmo em obras como “A Mansão” (1959) e “Os Desgarrados” (1962),

Também são deste período histórias de vertente mais policial “O Intruso” (1948) e dos contos de “Knight’s Gambit” (1949).

A importância de William Faulkner também se alonga ao trabalho de cooperação com o cinema para o qual realizou roteiros para filmes filmes de Howard Hawks como “Uma Aventura na Martinica” (1945) e À Beira do Abismo” (1948) e o clássico “O Mercador de Almas” (1958), longa conhecido pela atuação de Paul Newman, Joanne Woodward e Orson Welles e direção de Martin Ritt.

Além disso, poucas tentativas na poesia foram realizadas (casos de “The Marble Faun”, “This Earth, A Poem” e “Salmagund”).

Deste modo, este autor que fez de tudo e ficou conhecido pela forma profícua e qualitativa com que cuidava de seus trabalhos se beneficiou de uma carreira (que teve seus altos e poucos baixos), mas nunca cometeu desvios drásticos em seus estilo forte e profundo em perceber e descrever a alma humana.

Hoje, tanto no Brasil quanto em outros países ao redor do globo há um resgate de suas obras. Isso tem levado a diversas reimpressões de seus livros, muitas coletâneas e inúmeros ensaios acerca do que esse senhor do Mississipi entregou para a sua, a nossa e as muitas gerações que ainda há por vir.

É hora, portanto, de se apossar de seus escritos e sair da comodidade da vida tranquila e do comodismo com que a tratamos para imergir na montanha russa de emoções que é a literatura de Faulkner.

Fontes: Wikipédia, Site Editora Cosac Naify, Site Portal da Literatura e Site UOL Educação

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