Carolina de Jesus: a escritora que não baixou a cabeça à sociedade hipócrita

Carolina Maria de Jesus

Se com a obra “Quarto de Despejo” (1960) Carolina de Jesus é conhecida tanto aqui quanto lá fora pela forma crua e desinibida com que fala da favela e da sobrevivência dentro dela é sua vida que parece um livro.

É isso e muito mais!

Carolina nasceu em 1914 na cidade de Sacramento, Minas Gerais, fruto de uma relação extra-conjugal que a sociedade fez com que sentisse na pele a ação de seus pais. Foi durante muito tempo rejeitada por ambas as famílias e exposta a isso pelas pessoas do ambiente onde vivia.

Isso fez com que construísse ao redor de si uma personalidade agressiva e arredia.

Tendo frequentado escola particular dos sete aos nove anos, por conta da benevolência de uma mulher rica, esposa de uma fazendeiro, que decidiu pagar os estudos de várias crianças da região, a menina largou a escola ainda no segundo ano, mas não antes de aprender bem a ler e a escrever.

Conviver com a hipocrisia e preconceito daquela época estava difícil para Carolina, seus irmãos e a mãe por conta da última ter sido expulsa da Igreja Católica (também por causa dos filhos ilegítimos), mas isso não influiu na devoção religiosa que a escritora manteve durante sua vida toda. A morte da mãe em 1937 forçou a jovem a migrar para São Paulo e cuidar de tudo o que estava ao seu alcance.

Construiu a própria casa usando madeira, lata, papelão e qualquer coisa que pudesse encontrar.

O trabalho disponível que lhe deu o que comer era a coleta de papel pelas ruas da metrópole. E foi nesse vai-e-vem diário que teve a ideia de iniciar os relatos escritos do que via no dia-a-dia.

Os primeiros textos tinham como base a vida na favela, o convívio com os vizinhos e as situações periclitantes que cada um era forçado a aguentar. Muitos dos moradores da comunidade tinham certa inveja de Carolina ou a achavam metida por conta disso, já que poucos eram alfabetizados e não tinham como saber do que se tratava sua escrita.

Foi por meio de inúmeros relacionamentos amorosos que descobriu que não daria certo para uma mulher de tanta fibra e coragem ter um casamento cheio de imposições machistas e por temer que os casos de violência doméstica presenciados no lugar onde morava se repetissem com ela. Dessa forma, cada um dos seus três filhos era de um pai diferente, sendo um deles um homem rico e branco, mas nunca teve vergonha disso ou tentou esconder dos outra a sua volta.

E, enquanto as coisas iam acontecendo em sua vida, sua literatura ia sendo desenvolvida.

As descrições acerca dos moradores da favela, o relato e a crítica aos fatos políticos e sociais da época, a indignação com a pobreza e a fala sobre o desespero daqueles que passam fome e que fazem de tudo (tudo mesmo!) por um prato de comida eram as principais formas de Carolina preencher seus papeis com sua escrita simples, porém sincera e forte.

Foi, portanto, num dia de abril de 1958 que o diário de Carolina de Jesus foi descoberto pelo jornalista Audálio Dantas.

Dantas estava próximo à favela para cobrir a abertura de um pequeno parque municipal e presenciou a entrada de uma gangue de rua que chegou para aterrorizar a área dizendo-se dona do local a partir daquele momento.

Quando viu no meio do alvoroço Carolina de pé gritando “Saiam ou eu vou colocar vocês no meu livro!”, enquanto os intrusos partiam em silêncio, Dantas a questionou o que aquilo poderia significar. Mesmo que tímida no início, Carolina o levou até em casa e mostrou tudo o que escrevia.

Daí em diante, foi tudo muito rápido. Ele pegou uma amostra e correu para o jornal. Aquela nota virou uma coleção de textos até chegar em 1960 com o lançamento de “Quarto de Despejo”. Há quem diga que a primeira tiragem de dez mil cópias tenha acabado em menos de uma semana e outras fontes indicam que esse número tenha passado de trinta mil.

Apesar do sucesso e da notoriedade, tendo chegado a traduções em 13 línguas e lançamento do livro nos Estados Unidos e Europa, Carolina sofreu com a antipatia dos vizinhos que se reconheceram nas descrições contidas no livro. E, por ter conseguido melhores condições de vida com a vendagem de sua obra e ter se mudado para uma casa no subúrbio de São Paulo, muitos dos moradores da favela ainda infernizaram sua vida dizendo que ela seria uma traidora da favela.

Negra, mãe solteira e independente, Carolina Maria de Jesus teve ainda publicado em vida mais três livros: “Casa de Alvenaria” (1961), “Pedaços de fome” (1963) e “Provérbios” (1963), todos ainda com a mesma temática da vida sofrida da periferia da capital paulista e dos problemas advindos do preconceito, racismo e discriminação contra ela, seus filhos e as pessoas ao seu redor.

Posteriormente à sua morte ainda teve o lançamento das obras póstumas “Diário de Bitita” (1982), “Meu estranho diário” (1996), “Antologia pessoal” (1996) e “Onde Estaes Felicidade” (2014) que são basicamente constituídas de compilações de textos encontrados dentre seus pertences ou de coletâneas de coisas lançadas anteriormente.

Deste modo, não só a literatura de vanguarda da escritora é uma pérola dentro de um mercado literário brasileiro que quase nunca deu voz à periferia, seja na escolha de seus personagens ou cenários, seja na voz ativa para os autores deste canto da cidade, mas também a biografia desta mulher pode ser considerada como um exemplo de superação e força de vontade no âmago de uma sociedade que renega as mulheres, os negros e as diferenças.

Fontes: Wikipédia, O Globo e EBC Agência Brasil

Anúncios

2 comentários em “Carolina de Jesus: a escritora que não baixou a cabeça à sociedade hipócrita

  1. Ótimo post! Não conhecia a escritora e já fui conferir no acervo da Biblioteca Pública aqui de Curitiba se havia livros dela! Obrigada pela dica de leitura!

  2. […] Fonte: Carolina de Jesus: a escritora que não baixou a cabeça à sociedade hipócrita […]

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s