Conhecendo um pouco da rica literatura angolana

Quando se fala de literatura africana logo se acha que os escritos são apenas sobre um continente devastado pela fome e guerras civis, mas além desse tema pertinente e real também há muito a se explicar acerca de um território rico em cultura e manifestações artísticas em geral.

Como diz a escritora nigeriana Chimamanda Adichie “a literatura africana não tem que ser lida por que vai te fazer bem (ou mal), mas sim por que é boa. A maioria dos livros de histórias sobre a África foram escritos por pessoas de fora da África, isso tem de ser mudado”.

Pegando o gancho da autora de “Americanah” (2013), é tão importante conhecer a verdade de um lugar por meio daqueles que lá vivem que se faz necessário uma maior educação para este tipo de prática.

Mais ainda isso é imprescindível quando se fala da própria língua e da linguagem usada nos textos sobre tais lugares. No nosso caso nacional acostumamo-nos tanto com a literatura importada de Portugal desde a época colonial que quando conseguimos nos desvencilhar deste processo não reparamos mais ao que era feito em nossa língua fora daqui.

Tirando o caso de José Saramago (até por ser um autor de fama universal), a literatura lusófona ficou em segundo plano para os brasileiros. Pior ainda, se citarmos essa mesma atividade oriunda de outros países que não seja aquele da Península Ibérica.

Por esse motivo, quando há possibilidade de discursar a respeito de literatura africana e, ao mesmo tempo, isso se mistura com as nações dali que falam nossa língua, o caso se torna mais complexo ainda para quem não está ligado diretamente a essas duas culturas.

O Blog escolheu falar de Angola, pois tal país tem uma das mais qualitativas listas de escritores modernos e criativos do continente africano atualmente, mas por que estes escritores não se prendem primordialmente aos assuntos rotineiros que as pessoas de fora de lá preguiçosamente se acostumaram a ler.

A literatura por lá nasceu antes que houvesse a Independência em 1975, com um projeto de ficção de cunho político e social que pregava a soberania do homem africano. Tal movimento surge por volta de 1950 com o nome de  “Novos Intelectuais de Angola”.

Porém, quando se ultrapassa o período de empolgação dos primeiros anos da independência e se percebe que houve fracasso na experiência socialista em conjunto com as guerras civis devastadoras, muda-se o rumo das conversas entre os intelectuais de lá e os autores advindos das classes trabalhadoras se atêm às injustiças do quadro da realidade local e presente.

Essa literatura de Angola chega ao leitor através de muito realismo que se captura na imagem do preconceito, da dor causada pelos castigos corporais, do sofrimento pela morte dos entes queridos e da exclusão social.

O fato de que o angolano tenha vivido, por algum tempo, entre duas realidades – a sociedade colonial europeia e a sociedade africana – também fez com que os seus escritos tenham sido tomados por essa transfiguração humana, mas que pode ser considerada uma visão antitética que busca, no fim, uma ruptura por meio da dialética de seus escritos.

Para isso, muitos escritores nos últimos 20, 30 anos têm servido como preparadores dessa quebra de paradigmas da sociedade angolana, além de serem pessoas preparadas para a discussão em alto nível nos campos politico, cultural e social.

Estão entre eles Artur Carlos Maurício Pestana dos Santos, conhecido pelo pseudônimo de Pepetela, escritor dos mais notáveis daquele país e autor de obras que falam do período colonial angolano como Lueji (1990) e “A Gloriosa Família” (1997) e Ondjaki, escritor que acabou se radicando no Brasil por causa da influência que tomou do país sul-americano para fazer seus livros. Em 2010 ganhou por aqui o Prêmio Jabuti de Literatura, na categoria Juvenil, com o romance “Avó Dezanove e o Segredo do Soviético” e em 2013 recebeu o Prêmio Literário José Saramago por seu romance “Os Transparentes”.

Também faz parte dessa lista o sociólogo Paulo de Carvalho, intelectual investigativo responsável por um trabalho de pesquisa e estudo ligado principalmente à área de exclusão social, relações étnicas e ensaios a respeito de ética. Dele são os livros “Até você já não és nada!” (2007) e “Exclusão Social em Angola: O Caso dos Deficientes Físicos de Luanda” (2008).

Há casos como os de Isabel Ferreira, poetisa nascida em Luanda e que pegou em armas para lutar pela Independência do país, mas que causou furor com obras ricas como “Laços de Amor” (1995), “Caminhos Ledos” (1996) e “Nirvana” (2004) e a historiadora Ana Paula Tavares que usou sua experiência profissional para criar obras poéticas belíssimas e profundas como “Ritos de passagem” (1985), “Sangue da buganvília: crônicas” (1998) e “O Lago da Lua” (1999).

Porém, talvez, o mais famoso dentre os autores angolanos seja mesmo José Eduardo Agualusa, pois seu ecletismo de gêneros abordados em seus livros, sua facilidade com que conta histórias e a maneira como prende a atenção dos leitores proporcionou a tradução de seu trabalho para inúmeras línguas. Hoje, faz sucesso tanto aqui em nosso território, como é reconhecido em sua terra natal e ainda em locais mais distantes culturalmente.

A lista de obras relevantes dele é grande, mas é tranquilo citar o primeiro romance “A Conjura” (1989), “A Feira dos Assombrados” (1992), “Estação das Chuvas” (1996) e “O Vendedor de Passados” (2004) como alguns de seus grandes feitos literários.

Enfim, se há espaço para o que se escreve e o que se pensa nos países africanos por causa de sua relevância discursiva e pela forma criativa como são realizados também é importante que haja tribuna para que os países lusófonos como Angola possam mostrar sua gama qualitativa de autores para nosso público consumidor de cultura leitora.

Assim, fica a sugestão de que sejamos mais abertos para o trabalho de quem sempre foi visto pelos olhos europeus e que, tendo agora voz para falar sobre si próprio, pode movimentar mais reflexão em nossas cabeças.

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