Você conhece Daniel Johnston?

 

Nos anos 90 ele foi citado em algumas revistas especializadas em música por aqui, pois se sabia que Kurt Cobain mantinha uma admiração e influência por causa de sua atividade artística.

Mas foi em 2006 que Daniel Johnston (nascido Daniel Dale Johnston, 22 de janeiro de 1961, Califórnia, Estados Unidos) se tornou mais visível aqui pelos nossos lados.

Por meio de um documentário intitulado “The Devil and Daniel Johnston”, dirigido por Jeff Feuerzeig, o músico e compositor foi finalmente conhecido por um público menos reduzido aqui no Brasil. A produção que retrata o dia-a-dia deste homem que sofre de esquizofrenia e transtorno bipolar chegou inclusive a vencer o prêmio da crítica do festival NatFilm. Isso se deveu principalmente por saber retratar de maneira singela e sem rodeios os conflitos do cantor com sua vida cheia de percalços por conta de seus problemas mentais.

Porém, a dificuldade de conviver consigo próprio não apareceu magicamente no filme de 2006, pois desde que fora diagnosticado com tais questões psíquicas Daniel tem lutado para manter uma realidade menos perturbadora.

Seu trabalho como compositor já rendeu tantas preciosidades que foi elogiado por Tom Waits e há gente muito boa da cena alternativa dos EUA como Beck, Wayne Coyne e Jeff Tweedy (Wilco) que o venera por ser o artista excêntrico que expõe em suas composições o conflito interno com seus demônios que vem e vão periodicamente.

Inicialmente, sua carreira teve bom êxito nos becos que parecem respirar música boa na cidade de Austin, Texas (local em que morou entre os anos 80 e 90 e onde experimentou LSD pela primeira vez), justamente por que o líder do Nirvana apareceu com uma camiseta de Johnston por lá e, como qualquer coisa da qual Cobain falava produzia curiosidade, esta também virou mania no circuito indie local.

Mas, conforme foi passando o tempo, a melodia residente entre a Surf Music e o completo Low Fi se juntou também à sua capacidade artística de desenhar. Muitas dessas obras começaram a estampar capas de discos alternativos, banners de apresentações musicais e suas próprias atividades como músico.

Há quem diminua sua capacidade de compositor, pois acha que sua condição clínica limita muito de sua arte e há percepção de que não possui a maestria necessária para empunhar o violão de vez em quando, mas a questão é que o processo pelo qual Johnston deve passar todos os dias para brigar com seu outro lado explica muito da emoção empenhada em suas canções e isso já é suficiente para respeita-lo mais do que muitos outros músicos de sua geração.

A dinâmica de seus shows é intimista e as conversas entre ele e o público não são poucas, pois ele parece se favorecer disso para poder amansar o fogo que teima em consumi-lo por dentro. As canções que falam de amores impossíveis e temas correlatos aos tempos de colégio em consonância com as falas sobre a não aceitação dos mais próximos fazem com que você se aprofunde junto com ele para esse universo de autodestruição (mesmo que não seja proposital).

Um resumo rápido do trabalho de Daniel Johnston foi explicado em duas palavras pelo jornalista Pedro Antunes quando este acompanhou o cantor num show realizado em São Paulo em 2013: “a dor envolvida de beleza”.

Agora, depois de oito anos de preparo (sendo dois apenas de produção), o ator e diretor Gabriel Sunday acaba de lançar “Hi How Are You Daniel Johnston?” com apenas 15 minutos de duração e tendo a seguinte premissa: o Johnston do presente conta suas histórias e promove conselhos para o Johnston de 1983 (vivido pelo próprio diretor).

Nesta empreitada financiada através de crowndfunding toda a filmagem se passa no quarto-sala do cantor, o que acaba tornando para o espectador uma experiência claustrofóbica que auxilia na compreensão do processo criativo de Daniel. Tudo isso envolvido pelas pinturas dele próprio.

Na atividade cinematográfica participaram artistas fãs do músico como a cantora francesa Soko, no papel do grande amor de vida dele e Lana Del Rey e o rapper Mac Miller funcionaram como produtores comerciais, já que bancaram parte da obra dos seus próprios bolsos.

A cantora nova-iorquina também fez uma versão para “Some Things Last a Long Time” que toca nos créditos do filme.

Johnston não é perfeito em sua atividade musical, mas é exatamente o que o torna tão autêntico e humano, fatores que comovem e envolvem quem se dispõe a escuta-lo (ou seria senti-lo?).

Músicas como “Don’t Let the Sun Go Down on Your Grievances” e “Life in Vain” são normalmente cantados em uníssono em suas apresentações, mas outras preciosidades como “Go” (que foi regravada pelo Flaming Lips) e The Friendly Ghost” também fazem sucesso entre seus fãs.

A possibilidade de se visualizar um cara real e coberto de problemas internos conseguindo vencer dia após dia para conseguir, através do órgão de seu sobrinho, produzir álbuns inteiros como “Yip/Jump Music” e “Hi, How Are You” é mais do que uma experiência única, trata-se de uma lição de vida  e ação necessárias para quem gosta minimamente de boa música.


Daniel Johnston “Hi, How Are You” (1983)

 


Trailer do filme “Hi, How Are You Daniel Johnston” de Gabriel Sunday

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