E se alguns clássicos não tivessem sido publicados? A genialidade de Umberto Eco até numa situação hipotética

O texto abaixo foi extraído da Revista Status, edição número 1 de 1975 em sua página 88.

Trata-se de uma brincadeira proposta pelo saudoso escritor e pesquisador da Semiótica Umberto Eco.

A ideia é a seguinte: escolhia-se um livro clássico e se analisa a possibilidade de que aquela obra pudesse ter sido recusada por um editor qualquer. O que veremos aqui é a hipotética resposta desta pessoa ao ter de noticiar ao autor que aquele livro não será publicado.

Percebe-se que Eco conseguia desenvolver não só um relato bem esclarecido da situação, mas também é possível notar que sua veia sarcástica e irônica são audazes o bastante para fazer desta redação algo crível e de verossimilhança com o que poderia acontecer na realidade.

Desde a Bíblia passando por “A Divina Comédia” de Dante Alighieri e chegando ao modernismo com “Finnegans Wake” de James Joyce são deliciosas as fictícias ponderações do inventado editor para validar sua recusa.

Portanto, não se trata apenas de uma brincadeira tirada da mente criativa de Eco. É muito mais do que isso, pois utiliza elementos do contexto histórico de cada obra para fornecer palavras e expressões que em conjunto com as adjetivações a favor e contra o livro deliberam uma viagem da cabeça de quem lê.

Dessa maneira, torna-se tal experimento mais uma prova do quão grande foi este escritor que nos deixou há poucos dias e dá certa medida de que sua genialidade fará falta.


“Lamentamos comunicar-lhe que seu livro…”

ANÔNIMO

A BÍBLIA


Devo confessar que quando comecei a ler os originais, e durante as primeiras páginas, senti-me entusiasmado. Ali há ação pura e tudo o mais que o leitor de hoje exige de uma obra de evasão: sexo (muitíssimo), com adultério, sodomia, homicídio, incesto, guerras, etc.

O episódio de Sodoma e Gomorra, com os travestis que pretendem violar os anjos, é digno de Rabelais; as histórias de Noé são o mais puro Emilio Salgari; a fuga do Egito é uma história que, mais cedo ou mais tarde, acabará sendo filmada… Em resumo, trata-se do verdadeiro roman-fleuve bem estruturado, que não economiza efeitos, pleno de imaginação com aquela dose de messianismo que agrada, sem chegar ao trágico.

Mais adiante, no entanto, percebi que se trata, na verdade, de uma antologia de vários autores, com muitos, excessivos, trechos do poesia, alguns francamente lamentáveis e aborrecidos, choradeira sem pé nem cabeça.

O resultado é um feto monstruoso que corre o risco de não agradar a ninguém, porque tem de tudo. Além disso, será cansativo estabelecer a questão dos direitos de tão diferentes autores, a menos que o representante de todos eles se encarregue da tarefa. Mas nem no índice encontrei o nome desse representante, como se houvesse da parte dos autores interesse em manter seu nome oculto.

Talvez fosse possível publicar separadamente os primeiros cinco livros. Aí estaríamos pisando em terreno firme. Com o título: Os Desesperados do Mar Vermelho.


HOMERO

A ODISSÉIA

Pessoalmente,  o livro me agrada. A história tem beleza, é apaixonante, cheia de aventuras. Tem a dose exata de amor, fidelidade e de escapadas adulterinas (multo boa a figura de Calipso, uma típica devoradora de homens); tem, inclusive, um momento “lolitico”, na melhor linha nabokoviana, com uma ninfeta chamada Nausicaa: no episódio, o autor se permite algumas ousadias, mas em momento nenhum incorre em excessos. O conjunto é excitante. As cenas merecem figurar ao lado das melhores já produzidas no gênero western: a luta é violenta, a cena do arco explora, até as últimas possibilidades, o potencial literário de suspense.

Que mais poderia dizer? Leio essa de um sopro, melhor que o primeiro livro do autor, excessivamente estático em sua insistência de permanecer no mesmo lugar, cansativo pela exuberância de acontecimentos (na terceira batalha e no décimo duelo, o leitor já entendeu todo o mecanismo). Ademais, a história de Aquiles e Patrocio, com seu fio latente de homossexualidade, nos transmite um certo desagrado. Ao contrário, neste segundo livro, tudo caminha maravilhosamente; até o tom é mais sereno: pensado mas não reflexivo. Depois, a montagem, o jogo de flash-backs, o encadeamento das histórias! Em suma, muita categoria. De fato, esse Homero tem talento.

Talento demais, seria o caso de dizer… Chego a me perguntar se tudo ali será farinha do mesmo saco. Sabe-se como é: escrevendo, escrevendo, a gente melhora (quem sabe se o terceiro livro será um estouro). Mas o que me faz vacilar (e, afinal, me leva a opinar negativamente) é a confusão que pode resultar da questão de direitos.

Antes de tudo, é impossível localizar o autor. Os que o conhecem dizem que, de toda maneira, seria inútil discutir com ele as pequenas modificações que deviam ser introduzidas no texto, pois é cego como uma toupeira e, em mais de uma ocasião, deu provas de ser incapaz sequer de escrever. Dizem que tinha seus originais na memória, mas que não estava muito seguro do que havia escrito, alegando que o copista havia introduzido interpolações na obra. Terá ele sido o autor ou apenas um testa-de-ferro?


DANTE

A DIVINA COMÉDIA

O trabalho de Alighieri, embora de um típico escritor de fim de semana que, na vida sindical, está filiado ao órgão de classe dos farmacêuticos, demonstra indubitavelmente, certo talento técnico e notável “alento” narrativo. A obra (em florentino vu!gar) compõe-se de quase 100 cantos em tercetos rimados e se constitui em leitura agradável e interessante. Gosto, principalmente. de suas descrições de astronomia e certos juízos concisos e densos, que faz com freqüência, sobre teologia. Mais inteligível e popular é a terceira parte do livro, que diz respeito a assuntos mais do gosto da maioria, e que concernem aos interesses cotidianos do possível leitor (assuntos tais como a salvação, a visão beatifica, a devoção à Virgem Maria). Obscura e caprichosa é a primeira parte, com passagens de baixo erotismo, violência e trechos francamente grosseiros. Esta é uma das poucas contra-indicações para superar esse primeiro “canto”, o qual, quanto à criatividade, não diz mais do que já foi dito por milhares de manuais sobre o outro mundo.


DIDEROT

A RELIGIOSA

Confesso que não cheguei a folhear os manuscritos, mas acredito que um critico deve saber, até de olhos fechados, o que deve e o que não deve ler. Conheço esse Diderot: redige enciclopédias e agora tem em mãos um projeto de obra em não sei quantos volumes, que provavelmente jamais será editada. Anda por toda parte procurando desenhistas capazes de copiar o mecanismo de um relógio, ou as minúcias de uma tapeçaria de Gobelin, e levará à falência seu editor. Não creio que se trate do homem indicado para escrever algo divertido numa narrativa, especialmente para uma coleção como a nossa, na qual sempre incluímos coisas delicadas, um pouquinho picantes, como Restif de la Bretonne.


SADE

JUSTlNE

O manuscrito estava em meio a um monte de coisas que eu devia ver esta semana, e, para ser sincero, não o li todo. Limitei-me a abri-lo três vezes, ao acaso, em três  lugares diferentes, e vocês sabem que para um olho experimentado isso é mais que o bastante.

Bem, da primeira vez encontrei uma avalanche de páginas de filosofia da natureza com divagações sobre a crueldade e a luta pela sobrevIvência, sobre a reprodução dos vegetais e a evolução das espécies animais. Da segunda vez, deparei com pelo menos 15 páginas sobre o conceito de prazer, sobre os sentidos e a imaginação, e mais coisas desse gênero. Da terceira vez, outras 20 páginas sobre as relações de submissão entre o homem e a mulher, nos diferentes países do mundo… Acho que isso basta. Não estamos procurando uma obra de filosofia; o público, hoje, quer sexo e mais sexo. Não importa a maneira como ele venha temperado.


CERVANTES

DOM QUIXOTE

O livro, nem sempre inteligível, é a história de um gentil homem espanhol e de seu criado, os quais vão pelo mundo perseguindo sonhos de cavalaria. Esse Dom Quixote é um tanto louco (sua figura é magnificamente concebida: de fato, Cervantes sabe narrar), enquanto seu criado é um simplório (dotado de certo e rude bom senso), com o qual o leitor logo se identifica, quando ele procura desmistificar as fantasias de seu amo. Até aqui o argumento, que se desdobra com alguns bons efeitos e com freqüentes episódios divertidos, parece bem. Mas a observação que quero fazer vai além de um juízo pessoal sobre a obra.

Em nossa bem sucedida coleção econômica Os Fatos da Vida, publicamos, com êxito notável, obras como Amadis de Gaula, A Lenda do Graal, O Romance de Tristão, etc. Agora temos opção de editar Reis da França, do mocinho de Barberino, livro que para mim será o grande êxito do ano. Pois bem, se nos decidirmos por Cervantes, poremos em circulação um livro que, não obstante ser muito bem feito, atirará no lixo o publicado até agora, fazendo esses outros romances parecerem coisa de idiota. Compreendo a liberdade de expressão, o clima de rebeldia e tudo o mais, mas não podemos nos prejudicar a nós mesmos. A última coisa que desejo é que, buscando novidades a qualquer preço, acabemos por comprometer uma linha editorial que até agora foi popular, moral e também rendosa. Recusar.


PROUST

EM BUSCA DO TEMPO PERDIDO

Trata-se,sem mais nem menos, de uma obra comprometida, talvez muito grande; mas é possível vendê-la através de uma série de livros de bolso.

Tal como está é impraticável. Falta nela um trabalho vigoroso de depuração. Toda pontuação, por exemplo, terá de sofrer uma completa revisão. Os períodos são muito cansativos e há alguns que chegam a ocupar uma página. Com um bom trabalho de revisão que os reduza a dois ou três linhas cada, com uma melhor utilização do ponto e do parágrafo, a obra teria muito a ganhar. Se o autor não concordar, o melhor será não editá-lo.


KAFKA

O PROCESSO

Não é mau essa livrinho; é policial, com momentos a Hitchcock: por exemplo, o homicídio final, passagem de público certo.

Parece, no entanto, que o autor o escreveu sob censura. Que significam essas alusões obscuras, essa falta de nomes, de pessoas, de lugares? De que crime acusam o personagem, afinal? Se esses pontos puderem ser esclarecidos, tornando a história mais concreta, a ação se tornaria mais límpida e mais certo o suspense.

Esses escritores jovens acreditam fazer “poesia”,  pois dizem “um homem”, em vez de dizer “o senhor tal, a tal hora, em tal lugar”.

Em síntese: se é possível fazer essas modificações, bem; caso contrário, devolver os originais.


JOYCE

FINNEGANS WAKE

Por favor, recomende à redação que tenha mais cuidado quando me envia os livros. Leio inglês e me mandam um livro escrito em sei lá que diabo da idioma. Em separado, estou devolvendo o volume.


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Mais algumas boas do dia: Daughter, Parquet Courts e Poliça

 

Vamos lá!

Para não ficarmos nos repetindo nos elogios e na descrição mais prolixa das novidades abaixo listamos apenas os lançamentos que têm  acontecido nos últimos dias e que ainda não tiveram tempo de ser comentadas por aqui.

 


 

Daughter – “Not To Disappear”

 

A voz rica e deliciosa de Elena Tonra prossegue linda e a produção enxuta e eficaz do novo álbum “Not to Disappear”fazem com que a parte instrumental de inspiração Indie Rock apareça mais e conclua com competência aquilo que a voz da musa inglesa inicia em todas as 10 faixas.

Destaque para os singles “Doing The Right Thing” (abaixo) e “Numbers”, partes de uma trilogia de videoclipes criados pelos diretores Iain Fosyth e jane Pollard, que já são experientes na realização de clipes, mas que ficaram mais conhecidos por causa do maravilhoso filme-documentário-imaginário “20 Mil Dias na Terra” sobre a carreira do não menos fantástico Nick Cave.

 

Not To Disappear

 

1 – New Ways

2 – Numbers

3 – Doing the Right Thing

4 – How

5 – Mothers

6 – Alone – With You

7 – No Care

8 – To Belong

9 – Fossa

10 – Made of Stone

 

 


 

 

Parquet Courts – “Human Performance”

A banda americana de punk rock não para nem para respirar.

Depois de lançar em 2014 o ótimo segundo álbum “Sunbathing Animal”,  o grupo do Brooklyn fez o EP Monastic Living ano passado e já se prepara para jogar no mundo o terceiro disco de estúdio “Human Performance”.

Parece que a qualquer momento este LP deve sair, mas ainda não foi definida a data oficialmente.

A questão é que já saíram algumas faixas do álbum em apresentações ao vivo feitas pela banda. Abaixo, “Dust” e “Outside” mostradas na Rádio WFUV de Nova York na última semana.

 


 

 


 

 

Poliça – United Crushers

A banda de Minneapolis que adora um discurso político em suas canções, mas que faz dançar com a voz bacana de Channy Leaneaghy traz a partir de 04 de março seu novo disco, intitulado “United Crushers”.

O anúncio é oficial e as informações dão conta de que a veia instrumental eletrônica tem mais pegada, mas que o reinado da bela voz de Channy não desmoronou.

Porém, são as letras que devem chamar à atenção, pois segundo texto da própria banda em seu site o LP é “fortemente político e profundamente pessoal com referências pesadas à injustiça social , às dúvidas internas e ao isolamento. Também estarão presentes nos temas do trabalho o crescente declínio urbano e a verticalização dos bairros. Porém, o que a banda quer mesmo é superar maquinações da indústria da música e encontrar o amor verdadeiro e honesto na sequência de tudo isso”.

Só pelo texto já dá curiosidade de como isso ficará no produto final. Ou seja, estamos empolgados para ouvir o álbum.


 

Lançamento da semana: Deep Sea Diver e seu novo disco

 

 

Sempre escrevo isso aqui e não canso de repetir: A Rádio KEXP FM de Seattle é das melhores coisas para se conseguir alcançar coisa boa mundo afora.

Cansado de ouvir as mesmas coisas no dial nacional? Ouça a KEXP; não sabe das novidades dos últimos dias? Dá um clique no site desta rádio americana.

Desta vez, o achado da hora é a banda Deep Sea Diver, banda liderada pela vocalista e guitarrista Jessica Dobson.

A banda nem está estreando e Jessica também não é uma novata. “Secrets”, álbum lançado dia 19 de fevereiro, já é o segundo do grupo proveniente de Los Angeles (que conta também com o marido Peter Mansen na bateria e John Raines no baixo. Posteriormente, e até hoje já são mais dois os integrantes para dar mais consistência à sua musicalidade.

O primeiro álbum “History Speaks” passou desapercebido por aqui em 2012, mas já tinha alguma publicidade pelo mundinho indie estadunidense desde “New Caves”, EP de 2009. Logo depois, em 2014, prosseguiu na mesma pegada com o EP “Always Waiting” e agora parece se estabelecer no mercado, até pelo fato de sua vocalista sossegar numa banda só desde algum tempo.

Como Jessica é destacadamente a líder da banda, suas aventuras em atividades com o The Shins e contribuições vocais para álbuns de Beck, Spoon e Yeah Yeah Yeahs atrapalharam a evolução de sua própria empreitada. Não é o que acontece agora, portanto.

Dona de uma potência vocal que lembra um pouco Siouxsie numa mistura (lá no fundo) com Chrissie Hynde, Dobson parece estar num paralelo próximo a outras cantoras da atualidade, como Channy Leaneaghy (Poliça) e Jenny Beth (Savages), meninas que aproveitam a influência do pós-punk e da música dark do início dos anos 80 para favorecer seu próprio estilo.

No caso da vocalista do Deep Sea Diver a sonoridade mais diversificada também auxilia na forma como sua voz funciona como produto final. Entre o Dream Pop cheio de ambientes criados por sintetizadores utilizados bem moderadamente há também muito groove em sua guitarra para que que o ouvinte não se limite a rotular o som da banda.

Existe confluência do pós-punk com a new wave sem que isso se transforme numa compilação piegas e datada.

Para que isso aconteça o baixo tem ótima participação e a bateria encerra a cozinha com batidas determinadas e bem compassadas.

Não é nenhuma vanguarda, mas parece que não se dispõe e achar isso também. Dessa forma, cria um estilo tranquilizante de som que explode não só pela alternância na velocidade dos instrumentos, mas também pela competência de se rearranjar da cantora.

O novo álbum acaba por registrar evoluções técnicas em relação aos anteriores trabalhos, mas conserva um frescor na maneira como entrega a sonoridade densa e ambientação que se aprofunda em nossos ouvidos tornando sua absorção instrumental numa espécie de mantra que é bem recebido por quem a escuta.

São ótimas as faixas “Notice Me” (primeira do disco), “Creatures of Confort” e “Great Lights”, mas “Secrets” é disparada a melhor da empreitada, pois se trata de uma viagem em que você acompanha Jessica sem ver passar o tempo.

Ponto para a banda que a deixa brilhar sem que se esqueça da parte técnica, pois a produção faz do LP uma obra limpa e concisa sem que se perca por parafernálias técnicas desnecessárias.

Dessa forma, saber que há qualidade assim ainda no mundo do rock e do pop sem que precise haver uma propaganda desgraçada em cima dos artistas envolvidos cria alento, mas também forma depressão, pois é importante que não foram engolidos pelo mercado fonográfico ainda, mas dá tristeza que um produto tão bem feito como este ainda esteja restrito a um público tão pequeno.

Portanto, pesquise e quando não conseguir achar nada que goste nas entrelinhas da internet continue pesquisando até achar.

 


 

 

Secrets

01. Notice Me

02. Wide Awake

03. Creatures Of Comfort

04. Secrets

05. Great Light

06. See These Eyes

07. Always Waiting

08. It Takes A Moment

09. Body On The Tracks

10. New Day


 

Só faltou ele mesmo: o dia em que Lorde cantou na banda de Bowie

Não há o que salve uma premiação musical nos dias atuais?

Pois coloque uma boa apresentação no meio daquele marasmo todo que a coisa toda não se perde. Melhor ainda se for um crossover de bandas ou um tributo inesperado.

No caso aqui até era de se esperar, já que desde o fatídico dia em que Bowie nos deixou pululam pela rede manifestações das mais interessantes e sinceras possíveis.

Mas se ainda mora em nossos corações aquela espontânea New Orleans Parade realizada pelo Arcade Fire como a melhor de todas até agora a acontecida no Brit Awards com participação da Neozelandesa Lorde chega bem perto.

Porém, ela tinha uma vantagem: seu show-tributo no palco do O2 Arena de Londres tinha como banda de apoio simplesmente a mesma usada ultimamente pelo mito britânico.

Já se sabia há alguns dias que muitos artistas estavam se reunindo para fazer algo por Bowie, mas não se fazia ideia do tamanho do evento. Desde quando Lady Gaga fez aquele pot-pourri semanas atrás e separou a rede mundial de computadores em defensores e detratores da mulher se acreditava que algo menos sofisticado seria mais adequado para homenagear o falecido cantor.

Então foi isso mesmo que aconteceu: a menina Lorde se apossou dos microfones e junto com a banda dele fez um tributo incrível em que o menos definitivamente pareceu ser mais.

Tudo começou com um discurso avassalador (de tão bonito) de Annie Lennox, a apresentação emocional de Gary Oldman, um sampler cheio de referências à discografia do inglês tocado pelos sintetizadores e instrumentos de seu grupo e um término eficaz, moderado, potente e lindo através da voz da cantora que não é mais promessa com a clássica “Life on Mars?”.

Percebe-se que o baque ainda é profundo em artistas mais próximos de David Bowie, mas é totalmente compreensível. Se para nós, reles mortais a notícia ainda parece fictícia imagine para quem conviveu proximamente dele.

Fique, abaixo, com alguns momentos da ótima apresentação de ontem que teve no restante da premiação (só um detalhe) a consagração de Adele com seu disco lançado ano passado:

 

Vamos falar de proibismo no Brasil?

Na verdade, tal verbete nem existe.

Escolhi me utilizar de tal neologismo para tentar explicar o que tem se convencionado a fazer aqui no Brasil quando algo dá errado ou se mostra muito problemático.

A questão não é nova e nem desconhecida: uma situação ruim começa a ser repetida num meio social e os três poderes do país (esqueçamos um pouco o quarto e o quinto poder) vêm logo para acudir com medidas (ahaaaa) proibitivas.

Ou seja, é melhor proibir algo do que analisar o problema e tentar resolvê-lo de outra forma.

Tive a ideia de escrever tão porcas e parcas linhas por conta de um caso que visualizei ontem através do canal de esportes ESPN Brasil: o repórter Flávio Ortega apresentava diante do Estádio Walter Ribeiro, em Sorocaba (SP), local onde aconteceria o jogo entre São Bento e Corinthians pelo Campeonato Paulista de Futebol, informações sobre a contenda, mas numa de suas intervenções citou um caso interessante, porém esdrúxulo, de uma proibição da entrada de pessoas vestidas com camisas de times que não sejam os dos respectivos adversários daquela partida.

A bem da verdade, a tal regra já está valendo desde o início do torneio paulista, mas além da quase nula divulgação de que isto está acontecendo ser um percalço para quem deseja ir ao estádio, também se percebe ser absurdamente imbecil sua prática.

Logo vêm as perguntas perplexas dos comentaristas do estúdio do canal (o excelente Antero Greco era um deles) e há uma resposta de um dos capitães da Polícia Militar do Estado de São Paulo dando conta de que tal regra se deve ao fato de que já houve no passado algum tipo de atrito entre torcidas por ter alguém vestindo tal indumentária.

Ok, quer dizer então que em frente a um problema mínimo como este a Polícia demonstra toda a sua incapacidade de lidar com a segurança pública (ué, não é esta sua função?) e decide então proibir o livre direito da pessoa ir e vir vestida da forma como deseja?

No próprio futebol há outras decisões cretinas como essa: se já houve alguma briga entre torcidas e alguma bandeira foi utilizada para desferir golpes em alguém então que se proíba a bandeira de entrar no estádio, se pessoas de uma torcida organizada brigam proíbe-se a organização, mas não a pessoa.

Vejam, que no último caso, o brigão poderá participar normalmente de jogos enquanto não uniformizado. Perceba que nos casos anteriores os violentos cidadãos continuarão a ir às praças esportivas, mas desde que sem a vestimenta que identifica sua torcida.

Se tal situação é recorrente no futebol então tal absurdo se visualiza na sociedade como um todo: se há assaltos acontecendo no período noturno dentro de bancos 24 horas então que se feche o banco (que tem o sugestivo nome de 24 horas), se há assaltos realizados por pessoas em motocicletas com duas pessoas então proibiremos a garupa.

O que dá a entender é que os governantes se deliciam com tais medidas, pois isso tira o buzanfã deles da reta e se torna um procedimento populista. Os mais desavisados e incautos até passam a acreditar que o seu político favorito está fazendo o bem sem olhar a quem.

Mas o que há por trás de tal conduta, seja ela feita por Executivo, Legislativo ou Judiciário é a assinatura do atestado de incompetência diante do caos. Ou da manutenção do caos sem que ele seja mais mencionado como parte do estorvo.

Tal questão pode ser mais debatida de maneira a encontrarmos na história brasileira pontos que explicam que a determinação para essa preguiça de ações vem de um Estado que se acostumou a fazer o mais fácil para o governo e mais difícil para a população.

Vem de um currículo nacional que já teve no Império de Portugal as migalhas para cá e a corrupção de seus governadores-gerais daqui; prosseguiu com um reinado tosco brasileiro que só enxergava na corte a dimensão do país; passa pela implantação de uma república que nem bem se acostumou a fazer algo de bom (ou não quis?) pelo brasileiro e que logo foi tomada pelo punho cerrado de Vargas; continuou pelas armas e pela repressão de uma ditadura que não enxergava nada além do lucro e de si próprio e ainda vaga desorientada pela redemocratização que se preocupou em enfiar dinheiro no bolso da população sem lhe dar Educação.

Somos um país onde o jeitinho também se tornou verbete, mas que o senhor de engenho tenta colocar a sujeira unicamente em nossas mãos. Realizamos um presente em que o passado não se redescobre e nem pode, pois logo Alckmin já vem para colocar sigilo por cima enquanto o futuro não se resolve já que Dilma e PMDB não se decidem se fodem ou se apenas nos fodem.

Dessa forma, o termo “proibismo” que acho ter inventado agora, acaba por ser uma ótima resolução dos governantes para que continuemos a implorar por restos de comida que caem dos pratos de vossas excelências, para que procuremos na religião, no futebol e na cachaça (alguém diria a Netflix) um bom estímulo para aguentarmos o baque e que, dessa maneira, possamos continuar recebendo as chicotadas sem nem reclamar.

Aliás, acredito que tal proibismo seja uma herança do próprio pensamento judaico-cristão no qual fica explícita pelos dez mandamentos, por bíblias e torás que há que se estabelecer um limite entre o que os deuses podem fazer deles próprios e conosco e aquilo que devemos realizar (para eles, de preferência). Assim, a Igreja angariou para si todo o poder na mente das pessoas através do medo de ultrapassar as barreiras do desconhecido e desagradar com suas ações (muitas delas inofensivas) os seus senhores dos céus e da terra.

Portanto, só teremos uma sociedade brasileira mais justa, igualitária e livre de burocracia e corrupção a partir do momento que tais proibições estapafúrdias continuarem a mascarar os verdadeiros entraves das ruas, escritórios e cabeças.

Sendo assim, que a luta civil seja por mais direitos sendo respeitados, que o governo se preocupe mais com suas questões administrativas para desfazerem os nós que enrolam o país e que deixem as pessoas viverem suas vidas com mais liberdade de expressão em contrapartida a colocar novamente o Brasil nos eixos.

Pois, ao nos proibir de fazer coisas simples do cotidiano como ler um livro ou censurar a apresentação de uma peça de teatro, os nossos juízes, autoridades policiais ou governantes nos tratam como crianças, não sei se para nos manter longe das coisas mais interessantes da  vida ou para nos afastar da condução de nossas próprias pernas. E isso antigamente tinha um nome: Ditadura!

Dê uma chance à Charli XCX. Ela quer mudar o Pop

O nome de batismo é mais complicado: Charlotte Emma Aitchison (nascida em Stevenage, Inglaterra, em 02 de agosto de 1992), hoje é mais conhecida como Charli XCX.

A  cantora e compositora já gravava sua primeira atividade musical (que na verdade, não chegou a ser comercializado) aos 14 anos de idade, contendo bons singles: “!Franchesckaar!”, “Emilline” e “Art Bitch”.

Porém, foi apenas cinco anos mais tarde, com “True Romance”, que se estabelece sua estreia comercial oficial. O disco sai pela Asylum em consonância com a Atlantic e obtém boa divulgação dentro de seu país. É considerado um bom pop para os padrões atuais, mas não muda a história da música.

Depois, em 2011, mais dois singles: “End Of The World” e “Lost In Space”.

Em seguida, a boa “Stay Away”, seguida por “Nuclear Seasons” (35º lugar nas melhores faixas do ano de 2011 pelo site Pitchfork) que se torna sucesso Europa afora e a entrada no mercado musical americano se faz presente.

Pois bem, a carreira da garota prodígio vai de vento em popa nos anos posteriores, pois tem inclusão de faixa em filme de terror e outras canções vão se posicionando bem nas paradas pelo mundo afora. O diabo é que a menina não gosta de se acomodar.

Nas últimas semanas, tem saído uma série de notícias a respeito de seu futuro e vem sendo feita a promoção de um EP – que será lançado nesta sexta-feira – contendo quatro faixas, no qual aparece “Vroom Vroom” nome da canção e do recém-criado selo da inglesa, além de músicas inéditas de RIVRS e Cuckoolander, outros contratados da gravadora que pretende dar chance para outros nomes do pop que queiram experimentar em favor de uma sonoridade mais ousada.

Imagem da cantora

Além disso, Charli XCX a outra faixa do EP acabou de ser disponibilizado através da rádio Beats 1. “Trophy” foi produzida em conjunto com SOPHIE e possui características soturnas no ambiente sonoro que (parece) fará parte de todas as faixas do terceiro disco da cantora.

A própria garota salientou em entrevista recente que pretende com este novo trabalho dar novas direções à música Pop.

Para deixar claro que não está blefando, há poucos dias, Charli se apresentou no Museu de Arte Moderna de Nova York apenas de roupão (ficou estranho, confesso) e cantou (ou fez uma performance?) de “Too Many Omens”, uma faixa melancólica e densa que prova que seu estilo sonoro tem algo mais para dar ao mundo de hoje.

Numa de suas declarações sobre esta reviravolta em sua carreira, Charlix XCX soltou um comunicado falando que “a Vroom Vroom Recordings é meu novo selo pop experimental e vai combinar meu gosto pelo pop chiclete com o mistério e obscuridade.”

Pode até não dar em nada mais à frente, mas pelo início da empreitada não custa deixar a menina se expressar, pois parece que daí pode sair coisa muito boa.


EP – Vroom Vroom

 


 

Trophy

 


 

Too Many Omens (trecho da apresentação)

Álbuns Clássicos: Lou Reed, Nico e “a banana de Warhol”

 

 

A história do Velvet Underground começa com um álbum que está entre as melhores estreias da história da música pop. O lançamento de 1967 prossegue sendo até hoje uma das mais felizes atuações de uma banda em vários quesitos: letras, sonoridade, experimentalismos e parcerias são incontestavelmente itens ricos demais durante todas as 11 faixas do disco.

Velvet Underground & Nico é um clássico que quebrou inúmeras barreiras por conta da coragem de apresentar ao ouvinte temas tabus do meio musical de até então.

Também é notável que essa sede por inovações tenha antecipado subgêneros do rock como o Punk, o Rock Alternativo, a galera do Shoegaze, o Noise e o Drone, além do Dreeam Pop e consiga ter sido captado por gente grande como Iggy Pop, David Bowie, Joy Division, Television, Sonic Youth, Nirvana e The Strokes.

A inspiração para um álbum que poderia ser considerado complexo pelas pessoas da época parte da obsessão de Lou Reed por nomes da literatura beatnik, como William Burroughs e Allen Ginsberg e como isso passou para as letras de suas músicas.

Dessa forma, entra no bojo das canções a sabedoria de ruas, a abordagem acerca do underground marginalizado e assuntos como o uso de drogas (“Heroin”, “Run Run Run” e “I’m Waiting for My Man”), prostitutas (“There She Goes Again”) e sadomasoquismo (“Venus in Furs”) se tornam mais reais do que apenas simples referências frias.

Outras faixas como “Sunday Morning” e “All Tomorrow Parties” se encaixam em modelos mais charmosos da discografia da banda e tratam da elite decadente e dos fracassados que já se arrastavam por Nova York.

Aliás, a cidade americana é cenário para ilustrar a base de todas as músicas do debut do grupo liderado por Lou Reed, mas que tinha em John Cale um pilar de experimentação sonora das mais criativas da época. Fechavam a equipe Sterling Morrison, que se dividia entre a guitarra, contrabaixo elétrico e vocal de apoio e Maureen Tucker na percussão.

E para adicionar elementos densos e profundos à obra, nada melhor do que a voz de Nico como artista convidada aparecendo como vocal principal em três faixas (“Femme Fatale”, “All Tomorrow’s Parties” e “I’ll Be Your Mirror”) e o vocal de apoio em “Sunday Morning”.

A forma conceitual do projeto tinha como principal chave-mestra a orientação de Andy Warhol – ele assina parte da direção artística da obra e a capa do registro – além de ter sido a insistência dele para que a cantora alemã tivesse parte na atividade.

O trabalho foi fracasso de venda e crítica à época de seu lançamento e levaria pelo menos duas décadas para ter seu posto elevado a sucesso de crítica e mais alguns anos para ser, enfim, saudado pelo público que não fosse o mais alternativo.

Hoje já é visto como um dos melhores registros de uma banda durante o século XX. Assim sendo, já na atualidade tem sido contemplado com comendas como a de 13º na lista dos “500 Maiores Álbuns de Todos os Tempos” e 5º Lugar na lista de “100 Maiores Estreias de Todos os Tempos”, ambas feitas pela revista Rolling Stone.

Portanto, tanto a competência artística dos músicos do grupo quanto a desinibição em falar abertamente sobre coisas com as quais a sociedade não tinha muito tato para abordar e mesmo a concepção estilística por trás de sua produção fazem do primeiro disco do Velvet Underground um trabalho para ser ouvido não só com ouvidos e sentimentos de fã, mas como um produto cultural dos mais qualitativos da história.

 


 

Velvet Underground & Nico (1967)

***Todas as músicas compostas por Lou Reed, exceto as indicadas de outra forma***

 

Lado 1

“Sunday Morning” (Reed, Cale) – 2:56

“I’m Waiting for the Man” – 4:39

“Femme Fatale” – 2:38

“Venus in Furs” – 5:12

“Run Run Run” – 4:22

“All Tomorrow’s Parties” – 6:00

Lado 2

“Heroin” – 7:12

“There She Goes Again” – 2:41

“I’ll Be Your Mirror” – 2:14

“The Black Angel’s Death Song” (Reed, Cale) – 3:11

“European Son” (Reed, Cale, Morrison, Tucker) – 7:46


 

Femme Fatale

 


 

 

Heroin 

 


 

 

Run Run Run