Proibir “Mein Kampf” é uma boa ideia?

Não sou judeu. Nunca saberei o que significa a dor de um povo que foi perseguido e massacrado por um regime totalitário e racista que via na supremacia ariana a possibilidade de conquistar o mundo e visualizava o judaísmo (não somente ele, claro) como empecilho para isso.

Por outro lado, compreendo que a censura da obra que Adolf Hitler escreveu sobre ideias antissemitas e racialistas em 1925 faz reacender as chamas da ignorância que alguns promovem de tempos em tempos ao louvar a biografia do principal líder nazista de todos os tempos.

É mais do que isso: faz com que afirmações ridículas como a de que o político austríaco radicado na Alemanha era comunista ou de que seu nacional-socialismo tenha algo a ver com socialismo ganhem corpo entre gente mal intencionada.

A proibição do juiz Alberto Salomão Junior, da 33ª Vara Criminal da Capital, determinou que sejam proibidas no Rio de Janeiro a comercialização, exposição e divulgação do livro que fora traduzido para o português como “Minha Luta”. Quem descumprir a decisão terá que pagar multa de R$ 5 mil.

Uma situação que auxilia na ação realizada pelo juiz é que a disseminação de ideias de natureza discriminatória e de cunho nazi-fascista são proibidos por lei aqui no Brasil. O que é um acerto de nossa Constituição e que facilita a sanção contra pessoas que acham que isso é Liberdade de Expressão.

Tudo isso está certo, entenda. Porém, há algo que pode comprometer a questão como aconteceu na própria Alemanha, que sempre repudiou tal passado grotesco: tanto lá como cá o livro entrou em domínio público desde o início de 2016, pois segundo a lei tal acontecimento se dá no dia 01 de janeiro posterior aos setenta anos da morte do autor da obra.

Ok, mesmo assim ainda o texto continua ferindo a lei. Disso não há dúvida!

Mas o medo de que a censura ao livro possa criar a curiosidade e a simpatia de gente de mente fraca que venha achar que o general nazista estaria sendo discriminado ou que teria sendo limado em sua liberdade de expressão pode reanimar grupos neonazistas (e até promove-los pelas redes sociais) pelo simples fato de que a maioria dessa gente se sente atraído pela dificuldade de se conseguir algo (vide o caso das drogas).

Para não parecer apenas que a simples liberação do livro acabaria com a pretensão destes grupos em se infiltrar na sociedade há um meio termo.

Muitas associações alemãs de difusão da literatura propuseram que nas edições novas de “Mein Kampf” houvesse notas durante todo o texto explicando do que se tratava, realizando um contexto histórico e social, fazendo ressalvas a expressões e afirmações marcantes da ideologia nazista e pontuando situações criminosas provenientes de tamanha ignorância humana.

Talvez a questão que mais me cause temor é que há momentos da História que não podem simplesmente ser esquecidos ou colocados debaixo do tapete. Um acontecimento como o Holocausto e a carnificina comandada por Hitler e seus comparsas não pode figurar em nossos livros didáticos apenas como algo distante, inalcançável: deve haver ponderação sobre o que levou tanta gente a ser enganada por esses ideais para que não se cometam atos semelhantes novamente.

Além disso, não podemos ser tratados como crianças que não podem saber a respeito de alguns assuntos. Assim como no Brasil a Ditadura Militar ficou situada num lapso de tempo que não pode ser lembrado nunca (como querem os próprios partícipes daquele movimento) a Alemanha Nazista merece ser lembrada para que não aconteçam os mesmo erros mais e mais vezes.

Mesmo assim, a própria discussão sobre o assunto deve ser entendida com maturidade e tranquilidade para que não se ache que calar possa significar consentir, mas que também mostrar não fique parecendo concordar.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s