Vamos falar de proibismo no Brasil?

Na verdade, tal verbete nem existe.

Escolhi me utilizar de tal neologismo para tentar explicar o que tem se convencionado a fazer aqui no Brasil quando algo dá errado ou se mostra muito problemático.

A questão não é nova e nem desconhecida: uma situação ruim começa a ser repetida num meio social e os três poderes do país (esqueçamos um pouco o quarto e o quinto poder) vêm logo para acudir com medidas (ahaaaa) proibitivas.

Ou seja, é melhor proibir algo do que analisar o problema e tentar resolvê-lo de outra forma.

Tive a ideia de escrever tão porcas e parcas linhas por conta de um caso que visualizei ontem através do canal de esportes ESPN Brasil: o repórter Flávio Ortega apresentava diante do Estádio Walter Ribeiro, em Sorocaba (SP), local onde aconteceria o jogo entre São Bento e Corinthians pelo Campeonato Paulista de Futebol, informações sobre a contenda, mas numa de suas intervenções citou um caso interessante, porém esdrúxulo, de uma proibição da entrada de pessoas vestidas com camisas de times que não sejam os dos respectivos adversários daquela partida.

A bem da verdade, a tal regra já está valendo desde o início do torneio paulista, mas além da quase nula divulgação de que isto está acontecendo ser um percalço para quem deseja ir ao estádio, também se percebe ser absurdamente imbecil sua prática.

Logo vêm as perguntas perplexas dos comentaristas do estúdio do canal (o excelente Antero Greco era um deles) e há uma resposta de um dos capitães da Polícia Militar do Estado de São Paulo dando conta de que tal regra se deve ao fato de que já houve no passado algum tipo de atrito entre torcidas por ter alguém vestindo tal indumentária.

Ok, quer dizer então que em frente a um problema mínimo como este a Polícia demonstra toda a sua incapacidade de lidar com a segurança pública (ué, não é esta sua função?) e decide então proibir o livre direito da pessoa ir e vir vestida da forma como deseja?

No próprio futebol há outras decisões cretinas como essa: se já houve alguma briga entre torcidas e alguma bandeira foi utilizada para desferir golpes em alguém então que se proíba a bandeira de entrar no estádio, se pessoas de uma torcida organizada brigam proíbe-se a organização, mas não a pessoa.

Vejam, que no último caso, o brigão poderá participar normalmente de jogos enquanto não uniformizado. Perceba que nos casos anteriores os violentos cidadãos continuarão a ir às praças esportivas, mas desde que sem a vestimenta que identifica sua torcida.

Se tal situação é recorrente no futebol então tal absurdo se visualiza na sociedade como um todo: se há assaltos acontecendo no período noturno dentro de bancos 24 horas então que se feche o banco (que tem o sugestivo nome de 24 horas), se há assaltos realizados por pessoas em motocicletas com duas pessoas então proibiremos a garupa.

O que dá a entender é que os governantes se deliciam com tais medidas, pois isso tira o buzanfã deles da reta e se torna um procedimento populista. Os mais desavisados e incautos até passam a acreditar que o seu político favorito está fazendo o bem sem olhar a quem.

Mas o que há por trás de tal conduta, seja ela feita por Executivo, Legislativo ou Judiciário é a assinatura do atestado de incompetência diante do caos. Ou da manutenção do caos sem que ele seja mais mencionado como parte do estorvo.

Tal questão pode ser mais debatida de maneira a encontrarmos na história brasileira pontos que explicam que a determinação para essa preguiça de ações vem de um Estado que se acostumou a fazer o mais fácil para o governo e mais difícil para a população.

Vem de um currículo nacional que já teve no Império de Portugal as migalhas para cá e a corrupção de seus governadores-gerais daqui; prosseguiu com um reinado tosco brasileiro que só enxergava na corte a dimensão do país; passa pela implantação de uma república que nem bem se acostumou a fazer algo de bom (ou não quis?) pelo brasileiro e que logo foi tomada pelo punho cerrado de Vargas; continuou pelas armas e pela repressão de uma ditadura que não enxergava nada além do lucro e de si próprio e ainda vaga desorientada pela redemocratização que se preocupou em enfiar dinheiro no bolso da população sem lhe dar Educação.

Somos um país onde o jeitinho também se tornou verbete, mas que o senhor de engenho tenta colocar a sujeira unicamente em nossas mãos. Realizamos um presente em que o passado não se redescobre e nem pode, pois logo Alckmin já vem para colocar sigilo por cima enquanto o futuro não se resolve já que Dilma e PMDB não se decidem se fodem ou se apenas nos fodem.

Dessa forma, o termo “proibismo” que acho ter inventado agora, acaba por ser uma ótima resolução dos governantes para que continuemos a implorar por restos de comida que caem dos pratos de vossas excelências, para que procuremos na religião, no futebol e na cachaça (alguém diria a Netflix) um bom estímulo para aguentarmos o baque e que, dessa maneira, possamos continuar recebendo as chicotadas sem nem reclamar.

Aliás, acredito que tal proibismo seja uma herança do próprio pensamento judaico-cristão no qual fica explícita pelos dez mandamentos, por bíblias e torás que há que se estabelecer um limite entre o que os deuses podem fazer deles próprios e conosco e aquilo que devemos realizar (para eles, de preferência). Assim, a Igreja angariou para si todo o poder na mente das pessoas através do medo de ultrapassar as barreiras do desconhecido e desagradar com suas ações (muitas delas inofensivas) os seus senhores dos céus e da terra.

Portanto, só teremos uma sociedade brasileira mais justa, igualitária e livre de burocracia e corrupção a partir do momento que tais proibições estapafúrdias continuarem a mascarar os verdadeiros entraves das ruas, escritórios e cabeças.

Sendo assim, que a luta civil seja por mais direitos sendo respeitados, que o governo se preocupe mais com suas questões administrativas para desfazerem os nós que enrolam o país e que deixem as pessoas viverem suas vidas com mais liberdade de expressão em contrapartida a colocar novamente o Brasil nos eixos.

Pois, ao nos proibir de fazer coisas simples do cotidiano como ler um livro ou censurar a apresentação de uma peça de teatro, os nossos juízes, autoridades policiais ou governantes nos tratam como crianças, não sei se para nos manter longe das coisas mais interessantes da  vida ou para nos afastar da condução de nossas próprias pernas. E isso antigamente tinha um nome: Ditadura!

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