A sensibilidade da poesia literária de Humberto de Campos

 

Por mais que alguns poetas do passado tenham seu nome ligado hoje em dia apenas a logradouros no centro das cidades há muito o que comentar e estudar acerca deles, pois poucos recebem as devidas homenagens por conta de sua imprescindível obra.

No caso de Humberto de Campos, há de se notar que sua origem pobre no município maranhense de Miritiba, que foi rebatizado posteriormente com seu próprio nome moldou seu caráter, já que ainda na infância perdeu o pai e teve de lidar com isso da maneira mais complexa para uma criança. Assumiu assim as funções de ter de trabalhar no comércio, mas nunca largou os estudos.

Mudou-se para São Luís e, aos dezessete, muda-se para o Pará para dar início ao exercício do jornalismo na Folha do Norte e na Província do Pará.

É no ano de 1910, quando ainda tinha 24 anos que publica seu primeiro livro de versos, intitulado “Poeira” (1.º volume), algo que lhe promove a certo reconhecimento local. Mas uma nova mudança, esta para o Rio de Janeiro, é que lhe proporciona destaque no meio literário da então Capital Federal.

Neste período, até mesmo pelas amizades com gente da intelectualidade literária como Coelho Neto, Emílio de Menezes e Olavo Bilac, começa a trabalhar no jornal “O Imparcial”, ao lado de outras figuras ilustres como Rui Barbosa, José Veríssimo, Vicente de Carvalho e João Ribeiro.

O processo de criação se torna mais profícuo e o reconhecimento nacional vem tanto através de suas crônicas publicadas em diversos jornais do eixo Rio-São Paulo quanto por meio do uso do pseudônimo Conselheiro XX, para publicar outras obras.

A fome literária do escritor é tanta e sua facilidade em lidar com o verso e a prosa é tamanha que ainda em 1919 ingressa na Academia Brasileira de Letras, onde sucede Emílio de Menezes na cadeira n.º 20.

Humberto de Campos também se empolga com a vida pública e se elege deputado federal pelo seu Estado natal, tendo seus mandatos sucessivamente renovados até a eclosão do Golpe Militar de 1930, momento este em que é cassado.

Após isso tudo, passa por certo período de dificuldades financeiras, mas é nomeado pelo Governo Provisório (por conta de alguns admiradores de seus livros), Inspetor de Ensino no Rio de Janeiro e, posteriormente, diretor da Fundação Casa de Rui Barbosa.

Em 1933, com a saúde já debilitada, o escritor publica Memórias (1886-1900), livro no qual descreve suas lembranças dos tempos da infância e juventude. A obra obteve imediato sucesso de público e de crítica, sendo objeto de sucessivas edições nas décadas seguintes. Uma segunda parte da obra estava sendo escrita por ele quando faleceu, fazendo com que sua publicação viesse com o titulo de Memórias Inacabadas.

A morte do autor não se deu de forma surpreendente, pois passou por dificuldades físicas por inúmeros anos e lhe provocou a perda quase total da visão e graves problemas no sistema urinário, até que em 5 de dezembro de 1934, aos 48 anos, em virtude de uma síncope ocorrida durante uma cirurgia veio à morte.

A popularidade do escritor era tanta nesta época que diversas coletâneas de crônicas, anedotas, contos e reminiscências de sua autoria foram publicadas nos anos seguintes.

Um detalhe curioso quanto a Humberto de Campos é que o famoso médium Chico Xavier escreveu diversas obras sob o suposto processo de que havia sido o escritor quem o ditou para que fosse psicografado.

Os familiares de Humberto de Campos processaram judicialmente Xavier alegando a ausência de pagamento de direitos autorais e o caso ganhou grande espaço na mídia.

Em 1950, mais uma polêmica teve como alvo Campos, pois seu “Diário Secreto” mantido pelo autor em alguns períodos da década de 1910 e com assiduidade de 1928 até sua morte é divulgado pela revista “O Cruzeiro”, cujos editores chegam a publicar em livro em 1954.

O motivo do alvoroço é que a publicação listava diversos registros e impressões pessoais feitos por Humberto de Campos a respeito de pessoas de grande notoriedade nas letras, política e sociedade de sua época, incluindo Machado de Assis, Getúlio Vargas, Olavo Bilac, entre outros.

Sucessivas edições das Obras Completas de Humberto de Campos foram publicadas por diversas editoras (José Olympio, Mérito, W. M. Jackson e  Opus).

Há quem diga que o fato de muito da bibliografia de Humberto de Campos se dever a crônicas muito temporais de situações específicas de sua época faz com que o interesse em sua obra diminua no meio acadêmico e nos leitores em geral, mas também há certo preconceito quanto à métrica mais rebuscada e neoparnasiana com que realizava seus poemas para que se perca um pouco do interesse da massa. Porém, a riqueza com que seus versos e frases se espalham dentro de seus livros já é suficiente para que se tenha maior pesquisa sobre um autor que foi tão afamado em seu tempo.

Portanto, seja pela vida interessante ou pela bibliografia cheia, Humberto de Campos vale a pena ser conferido para que sua qualidade estilística seja degustada pelas novas gerações.


BEATRIZ

Bandeirante a sonhar com pedrarias

Com tesouros e minas fabulosas,

Do amor entrei, por ínvias e sombrias

Estradas, as florestas tenebrosas.

Tive sonhos de louco, à Fernão Dias…

Vi tesouros sem conta: entre as umbrosas

Selvas, o outro encontrei, e o ônix, e as frias

Turquesas, e esmeraldas luminosas…

E por eles passei. Vivi sete anos

Na floresta sem fim. Senti ressábios

De amarguras, de dor, de desenganos.

Mas voltei, afinal, vencendo escolhos,

Com o rubi palpitante dos seus lábios

E os dois grandes topázios dos seus olhos!


MIRITIBA

É o que me lembra: uma soturna vila

olhando um rio sem vapor nem ponte;

Na água salobra, a canoada em fila…

Grandes redes ao sol, mangais defronte…

De um lado e de outro, fecha-se o horizonte…

Duas ruas somente… a água tranqüila…

Botos no prea-mar… A igreja… A fonte

E as grandes dunas claras onde o sol cintila.

Eu, com seis anos, não reflito, ou penso.

Põem-me no barco mais veleiro, e, a bordo,

Minha mãe, pela noite, agita um lenço…

Ao vir do sol, a água do mar se alteia.

Range o mastro… Depois… só me recordo

Deste doido lutar por terra alheia!


POEIRA…

Poeira leve, a vibrar as moléculas: poeira

Que um pobre sonhador, à luz da Arte, risonho,

Busca fazer faiscar: pó, que se ergue à carreira

Do Mazepa do Amor pela estepe do Sonho.

Para ver-te subir, voar da crosta rasteira

Da terra, a trabalhar, todas as forças ponho:

E a seguir teu destino, enlevada, a alma inteira

O teu ciclo fará, seja suave ou tristonho.

Não irás, com certeza, alto ou distante. O insano

Pó não és que, a turvar o céu claro da Itália,

Traz o vento, a bramir, do Deserto africano:

Que és o humílimo pó duma estrada sem povo,

Que, pisado uma vez, pelo ambiente se espalha,

Sente um raio de Sol, cai na terra de novo.


DOR

Há de ser uma estrada de amarguras

a tua vida. E andá-la-ás sozinho,

vendo sempre fugir o que procuras

disse-me um dia um pálido advinho.

No entanto, sempre hás de cantar venturas

que jamais encontraste… O teu caminho,

dirás que é cheio de alegrias puras,

de horas boas, de beijos, de carinho…”

E assim tem sido… Escondo os meus lamentos:

É meu destino suportar sorrindo

as desventuras e os padecimentos.

E no mundo hei de andar, neste desgosto,

a mentir ao meu íntimo, cobrindo

os sinais destas lágrimas no rosto!


LENDO-TE

“As roseiras aqui já estão florindo…”

Mandas dizer… “As híspidas e pretas

Rochas da estrada já se estão cobrindo

De musgo verde…  Há muitas borboletas…”

E eu fico a pensar que agora é o lindo

Mês das rosas esplêndidas e inquietas

Asas: mês em que a serra anda sorrindo,

E em que todos os pássaros são poetas.

Vejo tudo: a água canta entre os cafeerios.

Vejo o crespo crisântemo e a açucena

Estrelando a verdura dos canteiros.

Penso, então, que em tudo isto os olhos pousas…

E começo a chorar… Olha: tem pena,

não me escrevas falando nessas cousas!…


SÍMBOLO

Meu amor! meu amor! voltaste ainda

A povoar os meus sonhos! Que forte elo

É este afeto, este céu de altura infinda,

Que eu de rimas e lágrimas estrelo?!

Sonho. É aí onde estás: A tarde finda…

Perto — a angústia; distante — tudo é belo:

Muito ao longe — a ala serra muito linda;

Junto a nós — o sertão muito amarelo…

“Olha (disseste), é um símbolo terrível:

A nossos pés, com o seu tormento, os ermos;

E olha a serra: é a Ventura inacessível…”

E acordei, a sentir estas saudades…

Que fizemos aos céus, para sofrermos

Tão longa série de infelicidades?…


Fontes Bibliográficas: 

  •  https://pt.wikipedia.org/wiki/Humberto_de_Campos

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4 comentários em “A sensibilidade da poesia literária de Humberto de Campos

  1. Bom ter conhecido mais um pouco.

    Chico Xavier pagando direitos autorais?!! … (Risos) então todos os posts feitos na internet teriam que serem processados. Já viu a grandeza desse ato?!!. Haveria evasão enorme desse meio virtual.

    Ufa!. Tem posts tão lindos que nos dão um enorme bem estar e ficar sem eles seria uma enorme perda…

    Bjs.

    Mii

    • Ah sim… Eu conheço mais ou menos a história, mas pelo que lembro houve um acordo com a família do poeta posteriormente. Quanto a hoje em dia seria difícil regulamentar de maneira tão profunda a internet devido à grandeza deste advento.

  2. Ah… Conserta a palavra “lidar” no começo do texto. Depois apaga este alô…

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