“Querubins”: Primeiro Romance de Martha Ricas vale pela densidade da construção de seus cenários e personagens

 

Sempre que se analisa o debut de um autor na literatura em geral prestamos muita atenção na maneira como é descrita a obra, como são desenhados os personagens, mas não é toda hora que visualizamos com atenção a construção dos cenários expostos durante a trama.

Não é que o caso de “Querubins” (Editora Novo Século – 2015) de Martha Ricas tenha problemas nos outros quesitos, mas um ponto alto de sua natureza é a maneira como a autora consegue proporcionar à nossa imaginação a visão dos locais onde se passam os pontos importantes da história.

Sim, por que estamos diante de acontecimentos que são separados por muitos anos entre o primeiro núcleo de personagens e o segundo. Mais do que isso, além do espaço de tempo também há uma diferenciação na localidade escolhida para as coisas ocorrerem.

Para compreender melhor é importante sermos apresentados a Chaya, uma querubim que fora lançada à Terra para proteger uma localidade das ações de criaturas da escuridão. O fato de não haver afinidades da divindade pela raça humana não se torna empecilho, pois ela aceita a missão diretamente de Deus e vive disfarçada entre as pessoas de Kernev.

É por lá que ela conhece Vougan, um homem bondoso que logo cativa seu coração para que sejam amigos e, com o auxílio dele, sua missão se torna menos penosa. Em dado momento, o próprio descaso pelos humanos será transformado em afeição e algo mais acontecerá.

O outro núcleo tem como principal representante Mary Grace Davidson, uma jovem sensitiva que tem uma vida normal com seus pais e quando começa a  ouvir e ver seres espirituais começa a entrar em conflito consigo mesma. Isso se notabiliza, pois a moça já tem um relacionamento conturbado com a mãe por conta da insistência desta para que a filha encontre um bom partido para forjar um casamento contra a vontade dela.

Tudo tem uma reviravolta quanto Mary Grace se aproxima de Anton Haven, um jovem misterioso que se torna o único a compreendê-la e que sabe de seus dons mediúnicos. O fato dessa parte sobrenatural não ser usada apenas como aditivo ilustrativo é outro ponto positivo para o livro.

Portanto, temos uma representante dos céus de um lado e uma jovem dos tempos da era vitoriana do outro, mas que possuem pontos muito comuns entre si que serão explicados pela escrita segura de Martha Ricas.

Se há um componente místico e barroco da guerra entre o Bem e o Mal que ligará Chaya e Mary Grace durante as descrições do romance é esta maneira como são desenvolvidas tais situações em cada uma das épocas que toma de assalto a atenção do leitor.

Do mesmo jeito que conseguimos enxergar a vila modesta no seu cenário, mas rica na maneira como é desenvolvida sua história também podemos ver a maneira com a qual as pessoas se vestem, agem e pensam na era vitoriana. E isso ganha nossa mente com pouco tempo de desenvolvimento.

“Querubins” evolui através da narração de suas protagonistas e o fato de não nos entregar pessoas apenas frágeis por meio de suas dificuldades internas, mas sim promovendo sua força em contato com tanta complexidade a enfrentar também pode ser considerado um livro de empoderamento feminino.

Além disso, a atividade tanto de uma época quanto de outra não findam sem dar nós na trama e essa interligação ocorre com bastante fluidez sem ter exagero de didatismo.

Outra situação importante percebida é que, por mais que haja componentes esotéricos e até religiosos em toda a história não há um exagero melodramático e não é piegas ou pedante. Tudo funciona como se fosse qualquer um dos contos de fada modernos das melhores franquias de sagas mostradas nos últimos anos por aí.

Há pitadas de mistério em conjunção com os carregamentos românticos que conseguem promover emoção sem que se permita ao sentimentalismo vazio.

Por fim, a maneira como a viagem através da história é feita não nos deixa perdidos e os cortes entre um lugar/tempo e outro funcionam bem em nossa cabeça.

Ponto positivo para mais um talento da literatura nacional jovem.


Serviço:

Editora: Novo Século
Lançamento: 2015
Gênero: Ficção / fantasia brasileira
Número de páginas: 239
ISBN: 978-85-428-0464-5
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