“Menino 23” e a aterradora história do flerte do Brasil com o nazismo

 

Um misto de trabalho de investigação histórica com pesquisa jornalística intensa: é esta a sensação que se tem ao se deparar com o material final do documentário “Menino 23 – Infâncias Perdidas no Brasil” que estreia hoje em todo o país.

Mais do que isso, estamos diante da revelação embasbacante de que o Brasil tinha mais do que apenas algumas perigosas ações semelhantes com a prática nazista alemã.

Todo esse processo de estudo aconteceu graças ao trabalho minucioso do historiador Sidney Aguilar, que descobriu a atividade de uma espécie de campo de concentração no interior de São Paulo para o qual 50 meninos negros foram levados durante os anos 1930 para serem submetidos a um trabalho escravo e ficarem sendo identificados apenas por números.

O documentário em si foi dirigido por Belisário Franca e surpreende pela maneira como mostra a ocorrência de um grande namoro entre as práticas dos regimes nazista e fascista e o Brasil, principalmente entre as décadas de 30 e 40.

O que se imaginava ser exclusividade apenas de alguns países europeus e de republiquetas africanas daquele período foi também promovido por esses nossos lados com igual ou semelhante empolgação por alguns setores específicos da sociedade brasileira.

Essa ideia de sistemas totalitaristas vigente na primeira metade do século XX em algumas localidades do globo teve sim algumas ressonância por aqui. É o que mostra, por exemplo, o depoimento de um dos historiadores ouvidos pelo filme: “Tínhamos o segundo maior partido nazista fora da Alemanha”.

Uma das bases de “Menino 23” é a tese de doutorado “Educação, autoritarismo e eugenia: exploração do trabalho e violência à infância no Brasil (1930-1945)”, defendida em 2011 por Aguilar, na Unicamp e para ilustrar algumas passagens explicadas pelo documentário há também dramatizações que demonstram o quão dura era a realidade de quem viveu aqueles momentos complexos.

Imagem do filme

O título do filme faz referência a um dos personagens ainda vivos que participa da filmagem e auxiliou muito na reconstrução dos fatos acontecidos há tanto tempo. Aloisio Silva, senhor já nonagenário, detalha situações que acabam levando a outros dois sobreviventes: Argermiro Santos e José, que também eram tratados por simples algarismos enquanto foram mantidos em cativeiro.

De acordo com os homens que viveram tal tortura muita coisa que pareceria muito coisa da imaginação atormentada de gente acostumada com teorias da conspiração tinham o peso da realidade naquele local onde viveram e do qual não querem voltar nem em sonho.

Como o documentário é um dos nichos cinematográficos mais bem utilizados pelos realizadores brasileiros não é nenhum achado arqueológico saber da qualidade desta produção, mas a sua excelência é perceptiva pela forma como consegue vasculhar questões tão pesadas e ainda assim ser didático com temas como o racismo e a desmitificação de personagens como Getúlio Vargas, por exemplo, já que foi em seu governo que houve esta aproximação tão intensa e invisível ao mesmo tempo.

Sendo assim, não é um filme para relaxar, mas sim para pensar e fazer inúmeras pesquisas posteriormente. Vale muito a pena, portanto!

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Um comentário em ““Menino 23” e a aterradora história do flerte do Brasil com o nazismo

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