Resenha Literária: “A Menina Submersa: Memórias” é um livro com emoções à flor da pele

A autora Caitlín R. Kiernan era conhecida apenas como paleontóloga, mas ficou famosa mesmo como autora de livros de ficção científica e fantasia dark. Já chegou a escreveu dez romances, dezenas de histórias em quadrinhos e mais de 200 contos e novelas. Entre seus trabalhos, destacam-se os romances Silk (1998), Threshold (2001) e ambos foram ganhadores do International Horror Guild Award e The Red Tree (2009). Também tem no currículo a série em quadrinhos “The Dreaming”, um spin-off de Sandman, de Neil Gaiman, com quem também escreveu uma adaptação da lenda de Beowulf (2007).

Porém, foi com este “A Menina Submersa: Memórias” que teve os maiores louros da vitória. O Prêmio Bram Stoker, obviamente dedicado a obras de terror e o James Tiptree Jr, para obras de ficção científica ou de fantasia, são duas conquistas importantes para a carreira da escritora e para a história da obra em questão.

Normalmente apresentado como uma “obra-prima do terror e da fantasia dark da nova geração”, “A Menina Submersa: Memórias” é um conto de fadas em que fantasmas, sereias e lobisomens se encontram pela história toda. Porém, antes de mais nada, há uma grande história de amor que não é bem explicada (assim como o amor não pode ser também) e construída com bastante empenho para que este quebra-cabeça pós-moderno seja uma viagem através de uma cabeça atormentada pela esquizofrenia.

No romance existe uma série de camadas, mitos, mistérios, beleza e horror e é isso que prende a cada página ainda mais o leitor que se vê dentro de um labirinto moldado pela desorientação mental da personagem principal.

Aqui o real e o imaginário dançam juntos e a fantasia se torna escura e densa.

Mas é o trabalho meticuloso e profundo de Caitlín R. Kiernan que nos empolga do início ao fim, pois sua condução da escrita é perfeita ao nos mostrar India Morgan Phelps, ou Imp, uma menina que tem nos livros os grandes companheiros na luta contra seu histórico genético esquizofrênico e paranoico e que é filha e neta de mulheres que deram fim ao sofrimento de suas doenças através do suicídio. Ela vê na escrita de memórias e contos esquisitos um jeito interessante de enfrentar o problema.

A maneira como a personagem passa a entrar no universo criado por ela mesma para a construção de sua obra literária faz com que se aproxime de referências estilísticas e até biográficas de autores conhecidos do público do gênero de terror como Edgar Allan Poe e HP Lovecraft, mas também promove ligações com autores contemporâneos da cultura pop como David Lynch, Neil Gaiman e Tim Burton e seus mundos sombrios. O que se percebe sempre é que todos com quem ela dialoga em suas divagações têm na fuga da realidade uma maneira de se libertar.

Por outro lado, é impossível não analisar aproximações no ritmo e na temática com autores como Lewis Carrol, Emily Dickinson e até mesmo a filosofia de Shakespeare.

Da mesma forma, como podemos nos esquecer da própria vida e obra de Virginia Woolf na construção de Imp? Se foi proposital ou apenas uma coincidência é difícil dizer, mas há todo o indicativo de que elas se parecem muito em sua personalidade.

É interessante a narração não linear do livro e o modo como nos cativa a prosa criada pela autora da obra que faz com que tenhamos a sensação de estarmos diante de um verdadeiro thriller psicológico de altos e baixos (assim como o temperamento instável de uma pessoa com problemas psiquiátricos).

Os pedaços de memórias, as circunstâncias em que se modifica a cabeça de Imp e suas interrupções e lapsos são táticas que confundem e ao mesmo tempo cativam o leitor e isso faz com que o drama e o suspense em torno da menina sejam tão intensos.

Neste caminhão de sentimentos instáveis, insólitos e solúveis até mesmo o Radiohead entra no balaio, pois é por meio de um trecho da canção “There There” que tenta se explicar a mente da garota: “Sempre há um canto de sereia lhe seduzindo para o naufrágio”. O livro, portanto, caminha neste sentido como se estivesse prestes a pular do barco em direção à ninfa (ou à morte certa).

E sim, é através das lembranças que somos levados para a leitura focada desta obra e sua instabilidade lembra a montanha-russa que pode ser uma cabeça atormentada.

A última edição traz uma capa dura toda trabalhada que te hipnotiza a comprar de qualquer jeito. Deixe-se levar!


Ficha Técnica
Título | A Menina Submersa: Memórias
Autor | Caitlín R. Kiernan
Tradutor | Ana Resende e Carolina Caires Coelho
Editora | DarkSide®
Edição | 1ª
Idioma | Português
Especificações | 320 páginas
Dimensões | 14 x 21 cm
Lançamento Original: Maio de 2014
Editora DarkSide®
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