Big Little Lies foge da monotemática (e isso é ótimo)

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Numa época em que séries televisivas cada vez mais são focadas num único tema é importante destacar alguma que não se favorece deste processo narrativo e que mesmo assim funciona bem.

É o caso de “Big Little Lies”, nova série (ou seria uma minissérie?) da HBO que é desenvolvida, roteirizada e produzida por David E. Kelley (Ally McBeal, Boston Legal, The Practice) e possui direção da maioria dos episódios de Jean Marc Vallée.

A história, adaptação do livro de mesmo nome da escritora Liane Moriarty, tem elenco estelar puxado por Nicole Kidman, Reese Witherspoon, Shailene Woodley e Laura Dern em aparições marcantes e atuações dignas de Emmy de todas elas, mas ainda assim consegue se segurar quando os coadjuvantes Alexander Skargärd, Zöe Kravitz, Adam Scott, James Tupper e Jeffrey Nordling estão em cena.

A série estreou na emissora americana da tv a cabo em 19 de fevereiro de 2017 e teve sua conclusão (???) no último 02 de abril.

Apesar do clima de história sobre as dificuldades variadas de um grupo de mulheres moradoras da pseudomoderninha cidade de Monterey – California, há também uma constelação de outros problemas relacionados a elas, às suas crianças, sua estada na escola pública da comunidade onde moram e do relacionamento com seus respectivos esposos que fazem girar uma antena de 360 graus que não para nunca diante da próxima situação posta à frente da câmera.

Obviamente, a produção foi vendida como um drama de relacionamento humano e faz isso muito bem com diálogos bastante verossímeis neste quesito, mas emplaca desde os primeiros takes um suspensa que perdurará até a última meia hora do sétimo capítulo que quando finaliza sua temporada.

Colocando como pano de fundo inúmeros ruídos na relação das mulheres da cidade o primeiro quiproquó é causado por uma acusação de agressão entre duas crianças logo no início do primeiro episódio, o que vende a ideia de um antagonismo entre duas das protagonistas, mas que diante da bem engendrada construção dos personagens e de suas boas e más intenções para a vida da comunidade, além de suas convicções pessoais, tudo vai se encaminhando para um interessante sentimento de sororidade das principais participantes da trama central.

Envolvendo casos de estupro, violência doméstica, dificuldades de relacionamento entre pais e filhos, romances, traição, briga por poder no processo macro e micro da cidade, análises psicológicas e psiquiátricas maravilhosamente postas através de alguns personagens colocados especificamente para isso (sem soar artificial) e um olhar sob a perspectiva pedagógica promovida pela escola em que as crianças estudam, “Big Little Lies” transita além do drama clássico e o suspense influenciado por Agatha Christie. Ele pode funcionar em alguns momentos com a leveza de tiradas cômicas que aliviam a tensão, promove discussões muito mais relevantes do que a série toda de 50 Tons de Cinza quando aborda a relação entre o sexo e a violência e se consagra com a capacidade de introduzir na discussão as crianças num enredo que parece tipicamente adulto (e deixa claro o motivo disso).

Enfim, aliando tudo isso por meio de inúmeros silêncios que ajudam a raciocinar enquanto alguns de seus protagonistas sonham, pensam ou simplesmente surtam, a produção ainda consegue fechar com chave de ouro por meio de uma trilha sonora de primeira linha.

Por último, fica a sensação de que o show vendido como minissérie possa dar uma guinada para uma série com algumas temporadas por conta de algumas pontas soltas deixadas de lado em seu final, mas independente disso já é a grande surpresa dos últimos meses mesmo que isso não devesse ser por conta da marca de qualidade da HBO.

Sendo assim, fica a dica para que ao se deparar com essas pequenas grandes mentiras contadas ao longo dos sete episódios o público tenha a paciência de pensar e mastigar com calma e gosto cada um dos inúmeros temas abordados. Bom apetite!


 


 

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