7 das melhores séries do ano de 2018

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Sim, o blog tem assistido a muitas séries e muitas dessas produções têm agradado bastante. O problema é que nem sempre há tempo suficiente para se escrever a respeito. Portanto aqui, neste espaço de final de ano, é importante condensar aquilo que mais impactou positivamente na televisão ou nos serviços de streaming.

É nítido, por exemplo, que o mercado de séries tem como predadores mais eficazes a Netflix e a HBO e a quantidade acaba por demonstrar também qualidade em boa parte de seus programas. Sendo assim, os outros canais ainda estão muito longe desse monopólio, mas alguns já se esforçam bastante.

O caso dos serviços Hulu e Amazon Prime são os mais notórios, mas é bom lembrar que logo a Disney aparecerá com seu próprio streaming.

Por enquanto, fiquemos com as sete séries que mais impressionaram o blog neste 2018.

 


 

Barry 

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A HBO lançou muitas comédias nos últimos anos, mas nenhuma tem o impacto gerado de Barry. A série que estreou neste 2018 é o encontro de Dexter com o humor. Não deixa de ter ação, algum gore e atividades centradas em erros humanos que levam a coisas piores acontecendo, mas a comédia contida na produção inventada por Alec Berger e na produção e atuação central de Bill Hader é especial. Focando nas ações de um assassino de aluguel que entra em depressão e precisa executar um plano dentro de uma escola de atores a série consegue segurar a atenção do espectador do início ao fim da temporada tendo algumas reviravoltas e bons trabalhos do elenco principal.

 


 

Sharp Objects

 

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Outro acerto da HBO. Criada por Marti Noxon e dirigida de cabo a rabo por Jean Marc-Vallèe a série é protagonizada pela excelente Amy Adams e coadjuvada por Patricia Clarkson e Eliza Scanlen, fantásticas também em seus papéis. O drama de suspense psicológico segue a vida arruinada de uma jornalista quebrada por dentro por causa de problemas de seu passado justamente tendo que confronta-los quando volta para sua cidade natal e sua família (e sua mãe) desfuncional. Um retrato muito bem feito do interior dos EUA e do interior humano. Nasceu como minissérie, mas já se especula que seriam encomendados novos episódios para uma segunda temporada.

 


 

The Sinner 

 

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A série que originalmente era uma minissérie e que era da USA foi comprada pela Netflix e lançada em segunda temporada tendo a protagonista da primeira temporada, Jessica Biel, como produtora executiva e Bill Pulman como alavanca para um novo caso estranhíssimo. Acompanhamos a investigação em torno do assassinato de dua pessoas pelas mãos de um adolescente e pelo andar da caminhada já sabemos que isso não é bem o que parece. A inclusão de Carrie Coon, obviamente é muito acertada, mas nada daaria jeito se o roteiro não funcionasse. E no caso, sim, ele funciona e muito!

 


 

The Handmaid’s Tale

 

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A atração da HULU criada por Bruce Miller com base no livro homônimo de Margareth Atwood pode ter tido uma queda na qualidade nesta segunda temporada, mas o teor dos temas apresentados, a consistência na atuação de Elisabeth Moss e do elenco principal e o drama vivido no fictício futuro distópico não tão distante de nossa realidade são tão profundos que as eventuais lacunas no roteiro para preencher os dez episódios pode ser desculpado. Uma produção que não é só importante como produto artístico, mas também como ação cultural e sociopolítica.

 


 

Westworld

 

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Ao final dessa segunda temporada de Westworld houve quem dissesse que a ficção científica da HBO perdeu alguns pontos por conta de alguma invencionice dos criadores Jonathan Nolan e Lisa Joy, mas o que mais aparenta é que como a primeira temporada ficou conhecida pela imprevisibilidade dos acontecimentos e o plot twist final o que muitos (críticos e espectadores) esperavam era que tudo aquilo se repetisse. Ora, não só não precisava dessa repetição como conseguiu entregar alguns dos melhores episódios de séries de tv do ano. “Reunion” (episódio 2) e “Kiksuya” (episódio 8) são duas das coisas mais lindas que foram vistas em tv neste ano. E a inclusão de uma cena pós-créditos ao final da temporada foi mais uma empolgante ação dos seus criadores.

 


 

Better Call Saul

 

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A graça da produção da Netflix criada por Vince Gilligan e Peter Gould com base na experiência de personagens já existentes em Breaking Bad não só funciona por causa da curiosidade quase mórbida de querermos ver como ocorre a transformação de Jimmy em Saul Goodman, mas também por interesse nos relacionamentos ali mostrados, a evolução das atividades do tráfico no sul dos EUA e na maneira como o personagem principal trabalha entre altos e baixos sua perspicácia para enganar os outros e a si mesmo. Nesse sentido o roteiro é primordial, mas as atuações de Bob Odenkirk e do elenco de apoio do primeiro escalão são sensacionais. E que venha a próxima temporada que provavelmente mostrará, aí sim, a ascensão de Saul e a ruptura com seu alter-ego Jimmy.

 


 

A Maldição da Residência Hill

 

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Não é só o fato de o terror estar sendo levado a sério pela tv e cinema atualmente. Tem a ver também com a técnica apurada de Mike Flanagan que pegou o livro de Shirley Jackson e transformou não na sofrível adaptação para o cinema de 1999, mas sim numa prestigiosa menção (sim, por que poucos são os elementos utilizados na série que são idênticos ao livro) à obra original. Com esmero fotográfico, atuações bem executadas tanto do elenco infantil quanto dos atores e atrizes adultos, A Maldição da Residência Hill pode provocar somente alguns arrepios, mas deixa o espectador tenso na maioria do tempo. E isso não tem apenas como motivo os fantasmas da casa, mas sim os demônios internos de cada um dos envolvidos na tragédia do passado que envolveu aquela família. A paleta de cores que sempre muda de acordo com os eventos transcorridos, a maestria como é filmada todo o tempo e o episódio 6 inteiro rendem a esta produção Netflix o prêmio de melhor série do ano, sem dúvida.

 


 

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Os cinco melhores filmes de 2018

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Obviamente que o título acima tem maior significado para o dono do blog, portanto, claramente haverá discordância dos internautas com relação a um ou outro título (senão todos).

Mas o que foi imprescindível para a entrada neste roll seleto foi exatamente a fuga do lugar comum, do fácil e do óbvio. Nesse sentido, é importante dizer que nem sempre isso significa que invencionices são necessárias para isso ocorrer.

Um caso importante para ficar claro é que há na pequena lista produções que não usam linguagens inovadoras ou fora do normal. O que importa para fazer parte da lista é como os elementos cinematográficos (roteiro, fotografia, edição, etc) são usados e para isso a criatividade e a sensibilidade são o que valem.

Com vocês, a lista dos cinco melhores filmes de 2018:

 

5º Lugar

 

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Missão Impossível é uma franquia diferenciada. Ao mesmo tempo que teve vários ótimos diretores ao seu dispor também houve mudança de tom em alguns filmes que poderia ter atrapalhado a história da mega produção ao longo do tempo (o segundo capítulo com John Woo é o caso mais clássico). mas foi a partir do quarto filme que a franquia decolou de maneira diferente para se tornar um robusto título de espionagem, aventura e ação que não se vê por aí normalmente. Além disso, o prosseguimento de Christopher MacQuirrie para esta sexta incursão com Tom Cruise no protagonismo aposta nas cenas de luta mais empolgantes dos últimos anos no que diz respeito a Hollywood, de um frenesi que sustenta a plateia do início ao fim e de uma fotografia de tirar o fôlego. Feito especialmente para assistir em telas enormes e com ótimo áudio.

 


 

4º Lugar

 

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Quando foi lançado a produção do longa dirigido e estrelado por John Krasinski deveria ter espalhado pelos cinemas mundo afora que só poderiam entrar nas salas quem ficasse calado. Não foi o meu caso, mas conheço pessoas que tiveram sua imersão na produção americana despedaçada por causa do barulho que alguns estúpidos fazem por aí (algo que sofri neste ano assistindo a Hereditário). E o filme é isso mesmo: uma experiência sensorial, algo que não é sempre que a sétima arte consegue. E isso ajuda demais no suspense e na sensação de agonia que nos leva junto, principalmente com as mulheres da história. Pena que vai ter continuação!

 


 

3º Lugar

 

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É raro ver uma nova maneira de fazer cinema nascendo diante de seus olhos. Mais difícil ainda é perceber que isso não se repetirá tão cedo. É isso que acontece com Buscando…, filme de Aneesh Chaganty, produção americana que tem em seu núcleo uma família de origem asiática, sem que isso seja um alarde, uma utilização de mecanismos da internet que nunca havia sido usado antes, criatividade para que a situação não se tornasse falsa ou forçada, habilidade dos atores e atrizes para que a sensação de desespero e pudesse ser passada com naturalidade, perspicácia de diretor, fotógrafo e roteiristas para algumas situações ficarem claras mesmo na digitação de um texto (ou na elipse disso) e o tom certo para tornar tudo isso verossímil. É um filmão, que sinto muito, nunca mais se tornará viável nestes mesmos moldes.

 


 

2º Lugar

 

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Falar que Spike Lee é um dos melhores diretores de nosso tempo é chover no molhado, mas perceber ao final de um filme que você foi levado a rir em cenas bem construídas e dirigidas de forma impecável simplesmente para que nesse momento derradeiro você se sinta errado por ter feito isso não é pra qualquer um. O cara sabe representar uma época, um estilo, até mesmo homenageia os filmes setentistas de Blaxploitation para demonstrar com clareza que pouca coisa mudou desde então e que o racismo está tão enraizado em nossa sociedade que muitos vão achar que ele nem existe. E as cenas finais são de derrotar qualquer esperança na humanidade. Um soco no estômago!

 


 

1º Lugar

 

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Não. Não é suficiente dizer que Roma é uma homenagem ao cinema; também não é correto só dizer que se trata de um filme que revisita a obra de Alfonso Cuaron; impossível falar que a produção é uma aula de cinema pura e simples; Pior ainda é só explicar que é um retrato do México ou da América Latina; ou que se trata de um estudo da luta de classes ou do abismo que existe entre elas. Porque o filme é tudo isso e muito mais. Com uma clareza na maneira de demonstrar tudo isso e de funcionar ainda assim como uma fotografia da vida íntima de alguém que não se sente parte daquele mundo ou do desespero de se sentir sozinha o tempo todo. O filme é um tudo e três cenas já deveriam ser guardadas nos anais do cinema como algumas das maravilhas desta arte que tanto nos encanta: a cena do massacre na rua que subverte o que se entende de plano sequência, a cena do parto (sofrida, sufocante e bonita ao mesmo tempo) e a belezura da cena na praia. Uma coisa linda de se ver!

 


 

 

Das HQs para o mundo do cinema: Turma da Mônica – Laços tem primeiro trailer revelado

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Até que enfim a dúvida foi dissipada. Se havia algum desconfiança quanto à qualidade inicial de Turma da Mônica – Laços essa foi dirimida há duas horas quando foi lançado no Youtube o primeiro trailer do filme produzido pela Maurício de Souza Produções.

A duração de aproximadamente dois minutos tem todo um clima juvenil e aventuresco que é característico de películas voltadas para esse público, nos envolve numa vibe nostálgica e nos remete diretamente aos anos 80.

Outra coisa que chama à atenção é a caracterização das personagens que preferiu utilizar apenas pequenas reminiscências daquilo que é conhecido do grande público para criar o figurino e também a personalidade física e temperamental de Mônica, Cebolinha, Magali e Cascão que, provavelmente, serão os protagonistas exclusivos do filme.

É óbvio que se trata apenas de um trailer e a produção como um todo decepcione, mas o hype parece que só vai crescer até o meio do ano que vem quando estreará a produção nacional.

É esperar pra ver, mas uma coisa é certa: ele já pegou todo mundo pelo coração.

 

 


 

Primeiro teaser de O Rei Leão é incrível (mas isso é suficiente?)

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O feriado de Thanksgiving nos EUA sempre é um bom termômetro para as estreias do próximo ano nos cinemas mundiais, pois durante os jogos da NFL sempre há dois ou três grandes trailers de blockbusters importantes das gigantes do setor.

No caso de ontem havia sim um favorito para ser o arrasa-corações do dia: “O Rei Leão”. E não foi nenhuma surpresa ver as pessoas surtando. O que mais se ouviu durante a transmissão do primeiro teaser do filme era: “nossa, é igualzinho ao desenho!”.

Neste primeiro ponto vão duas considerações imprescindíveis que me incomodaram bastante ao ver os comentários de gente entendida assunto: a primeira questão é que não se tratava de um trailer (algo que muitos vomitaram sem saber) já que o vídeo é apenas uma “provocação” (teaser em inglês) e um trailer vem acompanhado de sinopse mais completa da trama.

Quanto à segunda situação diz respeito ao fato de muitos citarem a produção da Disney como um live-action, o que incomoda muito já que tal longa não terá a participação de atores interagindo em cenários e estes últimos estão sendo criados exclusivamente em computador. Antes que alguém cite “Planeta dos Macacos” ou “O Livro da Selva ” (do mesmo diretor de O Rei Leão Jon Favreau) estes tinham interações de humanos com humanos e humanos com os animais e o filme que estreará em 19 de Julho de 2019 é apenas uma recriação da animação de 1994.

Pois bem, voltando aos comentários empolgados acerca do visual incrível desenvolvido em cima das imagens do desenho original é exatamente isso que deveria deixar as pessoas encucadas ao invés de extasiadas. Estamos diante de uma fotocópia da animação da Disney sem tirar nem por.

É lógico que os trailers que virão por aí e até mesmo o próprio filme quando estrear podem me desmentir por desenvolver novos conflitos, adaptar novas discussões para a tela grande ou por supor novas conclusões para fugir da mesmice, porém o que parece existir em nossa frente é um espelho daquilo que já conhecemos e o mais grave é que não vi ninguém mencionando este problema.

Este é um ponto que deveria ser sentido como mais um sintoma de algo que acontece desde a estreia de Star Wars lá em 1977: a infantilização do cinema e, principalmente, a infantilização de seus espectadores.

A questão atual é que junto com este problema já discutido à exaustão por críticos mundo afora está a anemia criativa com a qual Hollywood convive e que trata a indústria do entretenimento como mero vendedor de outras plataformas e franquias.

Inicialmente, foram os filmes que chupinhavam coisas das aventuras dos super-heróis das HQs (e nós amamos porque estávamos diante de um novo suporte para as histórias que admirávamos desde pequenos) e agora nasce a necessidade de transpor para a telona as tramas dos vídeo-games (e ainda não saiu nada que prestasse).

Porém, o que este O Rei Leão pode inaugurar é uma preguiça maior ainda, aquela de não se dar ao luxo nem de ter um roteiro novo para fazer comparação com o antigo quando ainda era uma animação. Qual seria o próximo passo?

Ver gente chorando então faz com que fique claro que o bom senso e a criticidade de até mesmo pessoas que trabalham com a divulgação e discussão da cultura pop e do cinema complementa o fato de que quase não há mais diferença entre quem fala desta cultura e de quem produz.

Não se faz aqui uma crítica às parcerias, mas sim um aviso de que se não for feito nada para separar melhor quem produz conteúdo e de qualidade de quem somente vende o próprio produto de seu debate logo mataremos a crítica e a análise isenta desse tipo de arte.

Pois então, fica a ideia de fazermos uma reflexão para que não caiamos no poço fundo da mediocridade de achar que tudo é bonito e maravilhoso e de que mesmo no meio das coisas mais lindas que presenciamos sempre há algo para notar de errado.

A segunda temporada de Making a Murderer já está entre nós

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A segunda temporada da série da Netflix Making a Murderer já foi disponibilizada no canal de streaming com todos os dez episódios podendo ser assistidos em sequência.

Dona de uma audiência expressiva, a primeira temporada foi lançada no final de 2015 e acabou com o espírito natalino de muita gente naquela época (este que vos escreve, inclusive).

A segunda parte da atividade dirigida pela dupla Laura Ricciard e Moira Demos dá a impressão de querer fazer o mesmo contigo desde o início do primeiro capítulo. Já terminei o segundo e agora parece que ficará o misto entre o desespero para terminar logo e a angústia com tanta coisa negativa passando pela sua frente que outro sentimento, o de tentar mastigar pausadamente cada bofetada que a série te dá, faça com que você não queira ver tudo isso de uma só vez.

Making a Murderer segue a trilha do caso envolvendo as prisões de Steven Avery em duas ocasiões diferentes e todo o processo pelo qual ele passou nesse ínterim, primeiro, por ter sido descoberto que não era o criminoso da primeira vez que foi acusado e encarcerado e, segundo, do crime pelo qual ele e seu sobrinho Brendan Dassey foram presos e que, agora, tentam provar sua inocência.

Seria mais uma série sobre crimes famosos se não fosse o fato de que nos dois processos movidos pela promotoria pública de Manitowoc, Wisconsin, há inúmeras inconsistências (para não falar, mentiras) e reviravoltas que fizeram até um número gigantesco de pessoas pedir à época do lançamento da primeira temporada do programa a concessão da anistia por parte do então presidente Barack Obama.

 

É bom que se diga também que até aqui essa temporada também faz um trabalho de metalinguagem mostrando muito daquilo que mudou por conta da ação e da reação das pessoas depois da exibição da primeira temporada.

 

Portanto, assista a esta segunda temporada da série e sinta mais de perto como o mundo pode ser nojento e as pessoas, mais escrotas ainda.

 


 

 


 

Dica de filme: “Negação” é possibilidade de entender o que está em jogo no Brasil atual

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Um ponto-chave no desenrolar da trama de “Negação” (Denial – 2016), em exibição na HBO e HBO GO, é quase um anticlímax. O juiz do caso pergunta ao personagem Richard Rampaton (Tom Wilkinson), advogado de defesa da ré Deborah Lipstadt (Rachel Weiss) se poderia o historiador e negacionista David Irving (Timothy Spall) ser um negacionista honestamente antissemita que acredita naquilo que diz. A resposta do advogado é de que algo do tipo: sim, poderia, mas no caso em questão ele mente deliberadamente, mesmo sabendo que aquilo está bem longe da realidade somente para que haja uma reafirmação de suas convicções absurdas.

Este é um ponto nevrálgico do filme de Mick Jackson: estamos diante de um julgamento que poderia ser considerado surreal por muitos, mas que acaba por acontecer porque o historiador e biógrafo de Hitler moveu uma ação contra a também historiadora americana pelo fato de ela afirmar em livros e palestras suas que o homem é um negacionista do Holocausto, algo que teria feito o primeiro perder oportunidades profissionais em sua carreira.

Portanto, partimos do ponto de vista do acusador, pois ele está afirmando coisas extremamente odientas, mas acaba por tentar provar que tinha o direito dessa liberdade de expressão.

Posteriormente a isso, nos focamos na defesa de Deborah que, inicialmente, queria depor e colocar sobreviventes do Holocausto para dar seu testemunho e acabar com a premissa que David defende, pois este salienta de que não há provas de que milhões e milhões de pessoas teriam morrido durante a segunda guerra mundial nos campos de concentração.

Uma boa parte do filme é consumida por conversas da equipe de defesa de Deborah que teve de se sujeitar a participar do julgamento como ré na Inglaterra, já que a solicitação do inglês partiu de lá quando um dos livros de Deborah foi lançado em solo britânico. Mas também percebe-se no caminhar do filme que os advogados preferem que não haja embate direto nem da americana com o negacionista nem de judeus com ele.

Fica aparente no primeiro instante que se trata de uma análise fria deles, mas comprova-se posteriormente que sua estratégia tinha não só o viés de ganhar a ação, mas também de não expor Deborah e, principalmente os judeus sobreviventes às piadas antissemitas de David.

Todo o trajeto inicial da defesa, porém, parece que vai ser jogado por terra, quando a pergunta lá do início do texto é feita pelo juiz ao principal advogado de defesa.

Aqui é que entra a comparação com o momento atual vivido por nós no Brasil.

Se numa sociedade como a europeia que viveu tempos terríveis como o fascismo, o nazismo e as duas grandes guerras do início até a metade do século passado e que depois teve ação exemplar para lutar contra esse tipo de pensamento em seus cidadãos que vieram depois ainda vive com arroubos de loucura como a que suscitou essa briga judicial em que um piadista politicamente incorreto que adorava falar mal de negros, subjugar o papel das mulheres nos meios sociais e tem desprezo pela ciência da qual ele mesmo vive o que dirá, portanto, do país que não promoveu ruptura nenhuma com seu passado terrível de tempos de ditadura?

Veja bem, vivemos durante 21 anos um período em que pessoas foram torturadas, perseguidas, mortas e escondidos seus corpos e a transição para a volta democrática ocorreu do modo mais pacífico e silencioso possível depois que as forças militares engendraram acordos para que a anistia fosse realizada sem nenhum critério jurídico passível de punição.

Isso fez com que não houvesse debate em torno do julgamento de gente que se envolveu com atividades escusas e que não teve seus nomes colocados em análise tanto pelo crivo popular, quanto pelo crivo jurídico e midiático. Saíram literalmente do governo para que voltassem tranquilamente para suas casas viver da aposentadoria. Até hoje há pessoas desaparecidas que não puderam sequer ser enterradas pela família.

Com tal processo de mudança sem nenhum impacto crítico na mudança de governo da ditadura para a volta do povo ao poder só bastaram algumas primaveras para que se ouvissem aqui e ali um “na ditadura que era bom”, “naquele tempo não havia inflação”, “na ditadura sim que havia segurança”.

Lembre-se que isso não se dá somente pela distância histórica, mas também pela falta de debate sobre aqueles anos de chumbo. Isso fez com que aproveitadores e espertalhões se apossassem do tal discurso do “antes que era bom” para aproveitar esse nicho descontente com “tudo o que está aí”.

Bolsonaro, o candidato líder das pesquisas e favorito a ganhar o pleito domingo que vem, cansou de utilizar esse discurso em programas televisivos e foi eleito várias vezes para a Câmara Federal simplesmente por repetir sua baboseira pró-militarismo durante anos. Conforme o tempo foi passando incluiu também na sua fala jocosa elementos de preconceito, antissemitismo e discriminação contra as mulheres, os negros e a comunidade LGBT.

Quando sua popularidade atingiu um nível nacional gritante e sua capacidade de discutir ideias para o Brasil foi afrontada ele se viu na necessidade de atirar em novos alvos: notadamente o PT, a corrupção e a insegurança pública.

Não haveria nenhum problema se realmente seu discurso tivesse tido um acréscimo de criticidade e pudesse falar contra problemas reais da roubalheira de parte do governo petista e da violência que assola o país. A questão neste ponto é que nunca se quis fazer uma análise profunda acerca dessas situações: o que ele sempre quis foi causar, como aquela pessoa chata que sempre é do contra, mas nunca dá solução.

E se ainda assim tivesse ficado nisso só sua mitologia, meio que para se autoafirmar recrudesceu mais ainda o foco em inimigos imaginários e principalmente na necessidade de vestir uma carapuça de fiscal dos direitos alheios e elegeu todas as minorias como antagonistas da nação. E é neste ponto que ficou deveras perigoso até para um lugar tão conservador quanto o Brasil.

Se já tínhamos um nível de violência gigante contra minorias nesta parte do globo foi nos últimos meses que o negócio descambou para a agressão gratuita mais pesada e física, e nas últimas semanas para assassinatos com requintes cruéis de antissemitismo e discriminação. Mulheres, pessoas ligadas a movimentos sociais, negros, gays, lésbicas, trans e até líderes religiosos (que não aceitam a bandeira de extrema direita) estão sendo atacados à luz do dia e a polícia e a justiça parecem fazer vista grossa.

A eleição nem ocorreu, a vitória do candidato que defende tais ideias também não aconteceu, mas já se percebe que seus seguidores babam atrás de sangue derramado de qualquer um que eles julguem seus adversários.

É importante que se diga que num momento assim é necessário a união de quem não compactua com tais práticas e ideologia semelhante e que qualquer governo democrático (de qualquer esfera ou espectro político) é mais indicado do que o fascismo institucionalizado como o deseja essa turma. Sendo assim, ainda há margem para um virada.

Porém, a barbárie de uma parcela significativa da população nacional já foi identificada e teremos que saber conviver e desenvolver meios de lutar contra ela mesmo que tal vitória da democracia ainda ocorra domingo.

No filme (e na vida real) que provocou a escrita deste artigo o final é coerente com a luta que a Europa teve contra as forças maléficas do nazismo e fascismo e Deborah Lipstadt ganha a ação conta David Irving o jogando ao ostracismo, que é onde pessoas que defendem o indefensável deveriam estar sempre. Mas e aqui, o que vamos fazer a respeito?