2° Slam do Riva: os preparativos já começaram

Desde o mês de Junho, em conjunto com a professora Mariângela Jacob, a Sala de Leitura Cora Coralina da EMEF Professor Rivadávia Marques Junior tem promovido oficinas de poesia para preparar os alunos para segunda edição do Slam do Riva a ser realizado entre os meses de setembro e outubro próximos.

O intuito dessas oficinas também é de promover debates sobre assuntos importantes ara a vida da comunidade, do Brasil e do mundo e que interferem na vida das crianças e jovens direta ou indiretamente.

Neste momento dos preparativos as salas estão realizando discussões variadas nas quais temas como o papel do governo na sociedade atual, o preconceito, os direitos das mulheres, crianças e adolescentes, a questão das drogas, entre outras situações do nosso cotidiano.

Veja abaixo, alguns momentos de debate entre os alunos através de imagens na sala de leitura.

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Rupi Kaur: poesia para a libertação feminina

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Sempre é muito difícil falar sobre as questões femininas sem sentir na pele o que é ser mulher, mas é importante analisar sempre que possível o que a cultura pode se apropriar da atividade das meninas e para elas.

Pode-se notar que a literatura feminista é algo que ainda precisa fluir muito na mente das mulheres e (por que não?) dos homens, pois  ainda há uma parcela dos donos da palavra e da disseminação do conhecimento que o feminismo não seria tão importante assim para a humanidade.

Se temos maravilhosos exemplos de mulheres habilidosas na forma e no estilo de escrever sobre os problemas a serem desfeitos para a verdadeira luta por direitos femininos no mundo extremamente patriarcal há de se notar que isso fica meio de lado nas discussões no meio literário moderno. Após figurar até mesmo em prova nacional do ensino médio anos atrás, esse tipo de pensamento em busca de igualdade social e cultural entre meninas e meninos tem dado um salto na maneira de ser vista por aqueles que pretendem dar um olhar mais sério ao assunto.

Se podemos dizer que a obra “Em defesa dos direitos da mulher” de Mary Wollstonecraft ainda no século XVIII é um marco para esse tipo de livro para fazer balançar a cabeça de uma sociedade muito retrógrada, é por meio de Charlotte Brontë com “Jane Eyre” cem anos depois que, através da sutileza e da ironia que esse sentido de jogar fora alguns conceitos da mulher como sombra do homem passam a cair.

Após isso, na primeira metade do século XX, florescem os textos magníficos de Simone de Beauvoir e Virginia Woolf, mas a tríade que se inicia com “A Mística Feminina” de Betty Friedman (1963), “Wide Sargasso Sea” de Jean Rhys (1966)  e “Política Sexual” de Kate Millett (1970) que se consolida esse tipo de literatura voltado ao público feminino.

 

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Além disso, temos casos nacionais como “Sobrevivi, Posso Contar” de Maria da Penha que são depoimentos fortes e corajosos em nossos lados brasileiros e fenômenos como o discurso jovem de Malala Yousafzai que fogem do contexto de literatura descartável ou de datação rápida dos dias atuais.

Neste sentido, há uma outra autora que parece ultrapassar essa questão apenas da contemporaneidade e que pode alcançar importância para a História no quesito de contribuir para a luta da causa em busca de direitos das mulheres. Rupi Kaur é uma indiana que mora no Canadá atualmente e que, além de poetisa é também artista visual.

Com apenas 24 anos, Rupi  já foi considerada pela crítica que tenta se especializar em analisar autopublicações através das redes sociais como “filha perfeita de seu tempo” e “voz de sua geração” por conta da identificação que seu trabalho causa em jovens mulheres ao redor do globo.

Mas ela não é só um fenômeno do Instagram ou do Twitter. Seu primeiro livro intitulado “Milk and Honey” foi publicado de maneira independente e já atingiu mais de um milhão de exemplares vendidos com o plus de ter sido traduzido para oito idiomas (inclusive o nosso).

A escritora também se preocupa em causar nas pessoas sensações diferentes quando promove através de imagens uma visualização de cenas que são típicas da situação de ser mulher, mas que incômodo na sociedade que despreza aquilo que provoca nojo ou desconstrói a imagem da mulher que precisa sempre estar perfeita. Já teve até problemas com as redes sociais por conta de fotos que até foram censuradas, mas isso não fez com que arredasse o pé de sua intencionalidade prática de fazer todos pensarem a respeito de seu preconceito e misoginia.

 

Rupi Kaur/Instagram

 

Ela acaba por ser uma mola propulsora de um movimento poético que rompe em suas formas, conteúdos e maneiras de chegar ao público. Ela quebra o ciclo normatizado de que há uma base com a qual os textos são tradicionalmente realizados. Junto com outras mulheres como Warsan Shire (poetisa somali queridinha de Beyoncè), Rupi Kaur começa a conquistar um espaço que raramente é cedido às meninas, principalmente se não forem brancas e de uma classe artística já estabelecida como se fizesse parte de um conceito de castas pré-estabelecidas na sociedade.

 

Veja abaixo, alguns poemas da artista:

 

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Brecht para explicar o Brasil de hoje

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Dificuldade de Governar

 

1.
Todos os dias os ministros dizem ao povo
Como é difícil governar. Sem os ministros
O trigo cresceria para baixo em vez de crescer para cima.
Nem um pedaço de carvão sairia das minas
Se o chanceler não fosse tão inteligente. Sem o ministro da Propaganda
Mais nenhuma mulher poderia ficar grávida. Sem o ministro da Guerra
Nunca mais haveria guerra. E atrever-se ia a nascer o sol
Sem a autorização do Führer?
Não é nada provável e se o fosse
Ele nasceria por certo fora do lugar.

2.
E também difícil, ao que nos é dito,
Dirigir uma fábrica. Sem o patrão
As paredes cairiam e as máquinas encher-se-iam de ferrugem.
Se algures fizessem um arado
Ele nunca chegaria ao campo sem
As palavras avisadas do industrial aos camponeses: quem,
De outro modo, poderia falar-lhes na existência de arados? E que
Seria da propriedade rural sem o proprietário rural?
Não há dúvida nenhuma que se semearia centeio onde já havia batatas.

3.
Se governar fosse fácil
Não havia necessidade de espíritos tão esclarecidos como o do Führer.
Se o operário soubesse usar a sua máquina
E se o camponês soubesse distinguir um campo de uma forma para tortas
Não haveria necessidade de patrões nem de proprietários.
E só porque toda a gente é tão estúpida
Que há necessidade de alguns tão inteligentes.
4.
Ou será que
Governar só é assim tão difícil porque a exploração e a mentira
São coisas que custam a aprender?

Bertolt Brecht

I Slam do Riva. Saiba mais aqui!

 

 

O Slam Poetry é um tipo de evento no qual as pessoas se reúnem para ler seus próprios poemas e realizam disputas acirradas que duram até três minutos. Todo texto lido passa pelo crivo de um corpo de jurados e notas de zero a dez são dadas a todos. Vence quem tiver a melhor nota entre todos.

Pois bem, a atividade é bastante popular em países como EUA, França e Alemanha e já aconteceram competições (a última ocorreu ano passado em Ilhas Maurício) é chegou há alguns anos por aqui no Brasil.

O legal daqui é que isso se espalhou pela periferia de cidades grandes como Recife, Rio de Janeiro e São Paulo e foi ganhando proporções enormes de participação entre os jovens.

Por aqui, na capital paulista o evento mais conhecido e precursor do tipo de atividade poética é o Slam da Guilhermina, que acontece toda última sexta-feira do mês desde 2011 em frente à estação do metrô da Guilhermina-Esperança. A coisa ficou tão grandiosa que hoje os seus organizadores realizam campeonatos dentro das escolas na Zona Leste da cidade.

Este tipo de atuação fez surgir uma atividade interescolar que neste ano terá a final ocorrendo no Centro Cultural São Paulo.

É óbvio que o Riva também fará parte disso e já iniciou as inscrições para que os alunos participem.

O primeiro Slam do Riva será feito dia 21/09 e promoverá a disputa para dois ganhadores representarem a escola na final do CCSP em outubro.

As inscrições estão abertas para a disputa entre os meninos e meninas da escola, mas isso não exclui o fato de que pessoas de fora possam apresentar seus poemas autorais durante o evento.

Mais informações com o professor Dhiancarlo Miranda (sala de leitura da escola).

Brasil: um país de não-leitores. Podemos mudar isso?



 

***Com informações do Blog Babel de Maria Fernanda Rodrigues do Estadão***

 

A Pesquisa se chama “Retratos da Leitura no Brasil” e foi encomendada pelo Instituto Pró-Livro, órgão mantido pelo Sindicato Nacional dos Editores de Livros (Snel), pela Câmara Brasileira do Livro (CBL) e pela Associação Brasileira de Editores de Livros Escolares (Abrelivros). O Ibope ouviu 5012 pessoas, sendo estas alfabetizadas ou não. O resultado será analisado mais profundamente em seminário em São Paulo com a apresentação de livro sobre o tema que será publicado na próxima Bienal do Livro de São Paulo, em agosto.

Pelo que foi analisado na amostra da pesquisa até há uma evolução no número de pessoas que dizem ler no país. Se em 2011 eles representavam 50% da população, em 2015 eles são 56%.

O problema é que este nível de leitores numa nação que conseguiu diminuir muito seus índices de analfabetismo ainda é muito menor, se comparado com outros países emergentes. Se a comparação for feita com países desenvolvidos o abismo ainda é bem maior.

O índice de leitura indica que o brasileiro lê apenas 4,96 livros por ano – desses, 0,94 são indicados pela escola e 2,88 lidos por vontade própria. Do total de livros lidos, 2,43 foram terminados e 2,53 lidos em partes. A média anterior era de 4 livros lidos por ano.

Uma coisa é importante deixar claro: para a pesquisa, é considerado leitor aquele que leu, inteiro ou em partes, pelo menos 1 livro nos últimos 3 meses. Em contrapartida, não-leitor é aquele que declarou não ter lido nenhum livro nos últimos 3 meses. Isso vale mesmo para aqueles que afirmam ter lido um livro nos últimos 12 meses.

Também foi verificado pela pesquisa que “A Bíblia” é o livro mais lido, em qualquer nível de escolaridade. A obra é tanto aquela lida por último quanto o livro mais marcante para um boa parcela da população.

Cerca de 74% da população não comprou nenhum livro nos últimos três meses e entre os que compraram livros em geral por vontade própria, 16% preferiram o impresso e 1% o e-book.

Mas algumas situações podem ser consideradas absurdas como no caso da lembrança de que 30% dos entrevistados nunca comprou um livro. Outra questão preocupante é que para 67% da população, não houve uma pessoa que incentivasse a leitura em sua trajetória. Daqueles que tiveram tal empurrão alheio, 33% que tiveram alguma influência, sendo que 11% tiveram a mãe ou qualquer representante do sexo feminino como maior incentivador, seguido de perto pelo professor com 7%.

No quesito comparativo de gênero as mulheres continuam lendo mais: 59% são leitoras. Entre os homens, 52% são leitores.

A pesquisa também mostra que aumentou o número de leitores na faixa etária entre 18 e 24 anos – de 53% em 2011 para 67% em 2015. Isso para sinalizar para bons resultados de programas especiais do governo federal quanto ao incentivo da leitura nas escolas e a criação de Salas de Leitura em redor do Brasil nos últimos anos. É óbvio que isso é apenas uma suposição, mas não deixa de ser uma coincidência bastante grande.

Focando a pesquisa apenas entre os leitores é interessante notar que as principais motivações para ler um livro estão o gosto (25%), atualização cultural ou atualização (19%), distração (15%), motivos religiosos (11%), crescimento pessoal (10%), exigência escolar (7%), atualização profissional ou exigência do trabalho (7%), não sabe ou não respondeu (5%), outros (1%).

E se os adolescentes entre 11 e 13 anos são os que mais leem por gosto (42%), seguidos por crianças de 5 a 10 anos (40%) é por que algo após esta idade provoca a fuga dos meninos e meninas da frente de uma obra literária.

Também é válido ressaltar que os não-leitores explicam como principais desculpas para não ler a falta de tempo (32%), o não gosto pela leitura (28%), a falta de paciência (13%), a preferência por outras atividades (10%), a dificuldades para ler (9%), o cansaço (4%), ausência de bibliotecas por perto (2%), o preço alto dos livros (2%), ou falta de dinheiro (2%). Houve quem indicasse o motivo por não saber ler (20%).

No que diz respeito à importância da leitura no dia-a-dia de cada um a leitura ficou em 10º lugar quando o assunto é o que gosta de fazer no tempo livre. Perdeu para assistir televisão (73%), que, vale dizer, perdeu importância quando olhamos os outros anos da pesquisa: 2007 (77%) e 2011 (85%). Em segundo lugar, a preferência é por ouvir música (60%). Depois aparecem usar a internet (47%), reunir-se com amigos ou família ou sair com amigos (45%), assistir vídeos ou filmes em casa (44%), usar WhatsApp (43%), escrever (40%), usar Facebook, Twitter ou Instagram (35%), ler jornais, revistas ou noticias (24%), ler livros em papel ou livros digitais (24%) – mesmo índice de praticar esporte.

Quase tudo ganha da leitura de um livro: desenhar, pintar, fazer artesanato ou trabalhos manuais (15%), ir a bares, restaurantes ou shows (14%), jogar games ou videogames (12%), ir ao cinema, teatro, concertos, museus ou exposições (6%), não fazer nada, descansar ou dormir (15%).

A principal forma de acesso ao livro é a compra em livraria física ou internet (43%). Depois aparecem presenteados (23%), emprestados de amigos e familiares (21%), emprestados de bibliotecas de escolas (18%), distribuídos pelo governo ou pelas escolas (9%), baixados da internet (9%), emprestados por bibliotecas públicas ou comunitárias (7%), emprestados em outros locais (5%), fotocopiados, xerocados ou digitalizados (5%), não sabe/não respondeu (7%).

A livraria física é o local preferido dos entrevistados para comprar livros (44%), seguida por bancas de jornal e revista (19%) e livrarias online (15%), entre outros.

Uma situação grave é quando a fonte da pesquisa são os professores, já que quando foi-lhes perguntado sobre o último livro lido 50% respondeu nenhum e 22%, a Bíblia.

Mesmo entre os outros títulos citados há muita obra de autoajuda, esotérica ou religiosa como “O Monge e o Executivo”, “Bom dia Espírito Santo”, “Livro dos sonhos” e “Nunca desista dos seus sonhos”.

Isso demonstra que muitos dos profissionais da Educação não estão mais preocupados com questões de foro religioso ou de incentivo a si mesmo sem se aprofundar em suas próprias áreas de atuação ou da literatura clássica e universal. Nesse quesito falta mais contato com outros tipos de autores da filosofia, da sociologia ou setores afins e sobra empenho em ir atrás de gente como Augusto Cury, Içami Tiba e Parde Marcelo Rossi.

Ainda assim, há alguma esperança quando, mesmo dentre os leitores que não são professores, ainda são muito citados escritores como Monteiro Lobato, Machado de Assis, Jorge Amado, Carlos Drummond de Andrade, Cecília Meireles e José de Alencar, mesmo que já apareçam atrás dos já citados no parágrafo anterior.

A sensibilidade da poesia literária de Humberto de Campos

 

Por mais que alguns poetas do passado tenham seu nome ligado hoje em dia apenas a logradouros no centro das cidades há muito o que comentar e estudar acerca deles, pois poucos recebem as devidas homenagens por conta de sua imprescindível obra.

No caso de Humberto de Campos, há de se notar que sua origem pobre no município maranhense de Miritiba, que foi rebatizado posteriormente com seu próprio nome moldou seu caráter, já que ainda na infância perdeu o pai e teve de lidar com isso da maneira mais complexa para uma criança. Assumiu assim as funções de ter de trabalhar no comércio, mas nunca largou os estudos.

Mudou-se para São Luís e, aos dezessete, muda-se para o Pará para dar início ao exercício do jornalismo na Folha do Norte e na Província do Pará.

É no ano de 1910, quando ainda tinha 24 anos que publica seu primeiro livro de versos, intitulado “Poeira” (1.º volume), algo que lhe promove a certo reconhecimento local. Mas uma nova mudança, esta para o Rio de Janeiro, é que lhe proporciona destaque no meio literário da então Capital Federal.

Neste período, até mesmo pelas amizades com gente da intelectualidade literária como Coelho Neto, Emílio de Menezes e Olavo Bilac, começa a trabalhar no jornal “O Imparcial”, ao lado de outras figuras ilustres como Rui Barbosa, José Veríssimo, Vicente de Carvalho e João Ribeiro.

O processo de criação se torna mais profícuo e o reconhecimento nacional vem tanto através de suas crônicas publicadas em diversos jornais do eixo Rio-São Paulo quanto por meio do uso do pseudônimo Conselheiro XX, para publicar outras obras.

A fome literária do escritor é tanta e sua facilidade em lidar com o verso e a prosa é tamanha que ainda em 1919 ingressa na Academia Brasileira de Letras, onde sucede Emílio de Menezes na cadeira n.º 20.

Humberto de Campos também se empolga com a vida pública e se elege deputado federal pelo seu Estado natal, tendo seus mandatos sucessivamente renovados até a eclosão do Golpe Militar de 1930, momento este em que é cassado.

Após isso tudo, passa por certo período de dificuldades financeiras, mas é nomeado pelo Governo Provisório (por conta de alguns admiradores de seus livros), Inspetor de Ensino no Rio de Janeiro e, posteriormente, diretor da Fundação Casa de Rui Barbosa.

Em 1933, com a saúde já debilitada, o escritor publica Memórias (1886-1900), livro no qual descreve suas lembranças dos tempos da infância e juventude. A obra obteve imediato sucesso de público e de crítica, sendo objeto de sucessivas edições nas décadas seguintes. Uma segunda parte da obra estava sendo escrita por ele quando faleceu, fazendo com que sua publicação viesse com o titulo de Memórias Inacabadas.

A morte do autor não se deu de forma surpreendente, pois passou por dificuldades físicas por inúmeros anos e lhe provocou a perda quase total da visão e graves problemas no sistema urinário, até que em 5 de dezembro de 1934, aos 48 anos, em virtude de uma síncope ocorrida durante uma cirurgia veio à morte.

A popularidade do escritor era tanta nesta época que diversas coletâneas de crônicas, anedotas, contos e reminiscências de sua autoria foram publicadas nos anos seguintes.

Um detalhe curioso quanto a Humberto de Campos é que o famoso médium Chico Xavier escreveu diversas obras sob o suposto processo de que havia sido o escritor quem o ditou para que fosse psicografado.

Os familiares de Humberto de Campos processaram judicialmente Xavier alegando a ausência de pagamento de direitos autorais e o caso ganhou grande espaço na mídia.

Em 1950, mais uma polêmica teve como alvo Campos, pois seu “Diário Secreto” mantido pelo autor em alguns períodos da década de 1910 e com assiduidade de 1928 até sua morte é divulgado pela revista “O Cruzeiro”, cujos editores chegam a publicar em livro em 1954.

O motivo do alvoroço é que a publicação listava diversos registros e impressões pessoais feitos por Humberto de Campos a respeito de pessoas de grande notoriedade nas letras, política e sociedade de sua época, incluindo Machado de Assis, Getúlio Vargas, Olavo Bilac, entre outros.

Sucessivas edições das Obras Completas de Humberto de Campos foram publicadas por diversas editoras (José Olympio, Mérito, W. M. Jackson e  Opus).

Há quem diga que o fato de muito da bibliografia de Humberto de Campos se dever a crônicas muito temporais de situações específicas de sua época faz com que o interesse em sua obra diminua no meio acadêmico e nos leitores em geral, mas também há certo preconceito quanto à métrica mais rebuscada e neoparnasiana com que realizava seus poemas para que se perca um pouco do interesse da massa. Porém, a riqueza com que seus versos e frases se espalham dentro de seus livros já é suficiente para que se tenha maior pesquisa sobre um autor que foi tão afamado em seu tempo.

Portanto, seja pela vida interessante ou pela bibliografia cheia, Humberto de Campos vale a pena ser conferido para que sua qualidade estilística seja degustada pelas novas gerações.


BEATRIZ

Bandeirante a sonhar com pedrarias

Com tesouros e minas fabulosas,

Do amor entrei, por ínvias e sombrias

Estradas, as florestas tenebrosas.

Tive sonhos de louco, à Fernão Dias…

Vi tesouros sem conta: entre as umbrosas

Selvas, o outro encontrei, e o ônix, e as frias

Turquesas, e esmeraldas luminosas…

E por eles passei. Vivi sete anos

Na floresta sem fim. Senti ressábios

De amarguras, de dor, de desenganos.

Mas voltei, afinal, vencendo escolhos,

Com o rubi palpitante dos seus lábios

E os dois grandes topázios dos seus olhos!


MIRITIBA

É o que me lembra: uma soturna vila

olhando um rio sem vapor nem ponte;

Na água salobra, a canoada em fila…

Grandes redes ao sol, mangais defronte…

De um lado e de outro, fecha-se o horizonte…

Duas ruas somente… a água tranqüila…

Botos no prea-mar… A igreja… A fonte

E as grandes dunas claras onde o sol cintila.

Eu, com seis anos, não reflito, ou penso.

Põem-me no barco mais veleiro, e, a bordo,

Minha mãe, pela noite, agita um lenço…

Ao vir do sol, a água do mar se alteia.

Range o mastro… Depois… só me recordo

Deste doido lutar por terra alheia!


POEIRA…

Poeira leve, a vibrar as moléculas: poeira

Que um pobre sonhador, à luz da Arte, risonho,

Busca fazer faiscar: pó, que se ergue à carreira

Do Mazepa do Amor pela estepe do Sonho.

Para ver-te subir, voar da crosta rasteira

Da terra, a trabalhar, todas as forças ponho:

E a seguir teu destino, enlevada, a alma inteira

O teu ciclo fará, seja suave ou tristonho.

Não irás, com certeza, alto ou distante. O insano

Pó não és que, a turvar o céu claro da Itália,

Traz o vento, a bramir, do Deserto africano:

Que és o humílimo pó duma estrada sem povo,

Que, pisado uma vez, pelo ambiente se espalha,

Sente um raio de Sol, cai na terra de novo.


DOR

Há de ser uma estrada de amarguras

a tua vida. E andá-la-ás sozinho,

vendo sempre fugir o que procuras

disse-me um dia um pálido advinho.

No entanto, sempre hás de cantar venturas

que jamais encontraste… O teu caminho,

dirás que é cheio de alegrias puras,

de horas boas, de beijos, de carinho…”

E assim tem sido… Escondo os meus lamentos:

É meu destino suportar sorrindo

as desventuras e os padecimentos.

E no mundo hei de andar, neste desgosto,

a mentir ao meu íntimo, cobrindo

os sinais destas lágrimas no rosto!


LENDO-TE

“As roseiras aqui já estão florindo…”

Mandas dizer… “As híspidas e pretas

Rochas da estrada já se estão cobrindo

De musgo verde…  Há muitas borboletas…”

E eu fico a pensar que agora é o lindo

Mês das rosas esplêndidas e inquietas

Asas: mês em que a serra anda sorrindo,

E em que todos os pássaros são poetas.

Vejo tudo: a água canta entre os cafeerios.

Vejo o crespo crisântemo e a açucena

Estrelando a verdura dos canteiros.

Penso, então, que em tudo isto os olhos pousas…

E começo a chorar… Olha: tem pena,

não me escrevas falando nessas cousas!…


SÍMBOLO

Meu amor! meu amor! voltaste ainda

A povoar os meus sonhos! Que forte elo

É este afeto, este céu de altura infinda,

Que eu de rimas e lágrimas estrelo?!

Sonho. É aí onde estás: A tarde finda…

Perto — a angústia; distante — tudo é belo:

Muito ao longe — a ala serra muito linda;

Junto a nós — o sertão muito amarelo…

“Olha (disseste), é um símbolo terrível:

A nossos pés, com o seu tormento, os ermos;

E olha a serra: é a Ventura inacessível…”

E acordei, a sentir estas saudades…

Que fizemos aos céus, para sofrermos

Tão longa série de infelicidades?…


Fontes Bibliográficas: 

  •  https://pt.wikipedia.org/wiki/Humberto_de_Campos

Literatura Clássica Brasileira: 100 dicas para todo o sempre

 

A notícia não é nova (é de 2011), mas é válida ad eternum: a coluna Biblioteca Básica da Revista Bravo solicitou para 17 educadoras a formulação de 100 livros essenciais para pessoas de 02 a 18 anos possuírem referência para chegar à idade adulta com informação suficiente da literatura clássica brasileira.

Obviamente que o critério utilizado pelas professoras foi o de tentar incluir no ranking obras variadas no estilo, na época e no gênero literário usado por todos os autores citados.

Há livros de contos, crônicas, poemas e romances que acabaram evoluindo através da fronteira do tempo para demonstrar ao seu leitor sua qualidade estilística e a capacidade intrínseca de interagir com a sociedade ou de confrontar valores conservadores e ultrapassados, assim como há também aqueles que foram estabelecidos na prateleira do sucesso pela maneira como compreenderam o momento histórico e social que viviam.

Dessa maneira, é fácil adivinhar que escritores como Machado de Assis, João Guimarães Rosa, Cecília Meirelles e Clarice Lispector entram neste arcabouço literário, mas outros autores menos conhecidos do grande público possuem seu espaço igualmente.

Veja abaixo, o ranking completo que não segue nenhuma ordem cronológica ou de importância, apenas a ordenação alfabética do nome do autor e diga se concorda, discorda ou se colocaria alguma outra obra na lista:

 

Adélia Prado: Bagagem

Aluísio Azevedo: O Cortiço

Álvares de Azevedo: Lira dos Vinte Anos; Noite na Taverna

Antonio Callado: Quarup

Antônio de Alcântara Machado: Brás, Bexiga e Barra Funda

Ariano Suassuna: Romance d’A Pedra do Reino

Augusto de Campos: Viva Vaia

Augusto dos Anjos: Eu

Autran Dourado: Ópera dos Mortos

Basílio da Gama: O Uraguai

Bernando Élis: O Tronco

Bernando Guimarães: A Escrava Isaura

Caio Fernando Abreu: Morangos Mofados

Carlos Drummond de Andrade: A Rosa do Povo; Claro Enigma

Castro Alves: Os Escravos; Espumas Flutuantes

Cecília Meireles: Romanceiro da Inconfidência; Mar Absoluto

Clarice Lispector: A Paixão Segundo G.H.; Laços de Família

Cruz e Souza: Broquéis

Dalton Trevisan: O Vampiro de Curitiba

Dias Gomes: O Pagador de Promessas

Dyonélio Machado: Os Ratos

Erico Verissimo: O Tempo e o Vento

Euclides da Cunha: Os Sertões

Fernando Gabeira: O que é Isso, Companheiro?

Fernando Sabino: O Encontro Marcado

Ferreira Gullar: Poema Sujo

Gonçalves Dias: I-Juca Pirama

Graça Aranha: Canaã

Graciliano Ramos: Vidas Secas; São Bernardo

Gregório de Matos: Obra Poética

Guimarães Rosa: O Grande Sertão: Veredas; Sagarana

Haroldo de Campos: Galáxias

Hilda Hilst: A Obscena Senhora D

Ignágio de Loyola Brandão: Zero

João Antônio: Malagueta, Perus e Bacanaço

João Cabral de Melo Neto: Morte e Vida Severina

João do Rio:A Alma Encantadora das Ruas

João Gilberto Noll: Harmada

João Simões Lopes Neto: Contos Gauchescos

João Ubaldo Ribeiro: Viva o Povo Brasileiro

Joaquim Manuel de Macedo: A Moreninha

Jorge Amado: Gabriela, Cravo e Canela; Terras do Sem Fim

Jorge de Lima: Invenção de Orfeu

José Cândido de Carvalho: O Coronel e o Lobisomen

José de Alencar: O Guarani; Lucíola

José J. Veiga: Os Cavalinhos de Platiplanto

José Lins do Rego: Fogo Morto

Lima Barreto: Triste Fim de Policarpo Quaresma

Lúcio Cardoso: Crônica da Casa Assassinada

Luis Fernando Verissimo: O Analista de Bagé

Luiz Vilela: Tremor de Terra

Lygia Fagundes Telles: As Meninas; Seminário dos Ratos

Machado de Assis: Memórias Póstumas de Brás Cubas; Dom Casmurro

Manuel Antônio de Almeida: Memórias de um Sargento de Milícias

Manuel Bandeira: Libertinagem; Estrela da Manhã

Márcio Souza: Galvez, Imperador do Acre

Mário de Andrade: Macunaíma; Paulicéia Desvairada

Mário Faustino: o Homem e Sua Hora

Mário Quintana: Nova Antologia Poética

Marques Rebelo: A Estrela Sobe

Menotti Del Picchia: Juca Mulato

Monteiro Lobato: O Sítio do Pica-pau Amarelo

Murilo Mendes: As Metamorfoses

Murilo Rubião: O Ex-Mágico

Nelson Rodrigues:  Vestido de Noiva; A Vida Como Ela É

Olavo Bilac: Poesias

Osman Lins: Avalovara

Oswald de Andrade: Serafim Ponte Grande; Memórias Sentimentais de João Miramar

Otto Lara Resende: O Braço Direito

Padre Antônio Vieira: Sermões

Paulo Leminski: Catatau

Pedro Nava: Baú de Ossos

Plínio Marcos: Navalha de Carne

Rachel de Queiroz: O Quinze

Raduan Nassar: Lavoura Arcaica; Um Copo de Cólera

Raul Pompéia: O Ateneu

Rubem Braga: 200 Crônicas Escolhidas

Rubem Fonseca: A Coleira do Cão

Sérgio Sant’Anna: A Senhorita Simpson

Stanislaw Ponte Preta: Febeapá

Tomás Antônio Gonzaga: Marília de Dirceu; Cartas Chilenas

Vinícius de Moraes: Nova Antologia Poética

Visconde de Taunay: Inocência